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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
O problema da existência do mal no monoteísmo
Trecho das obras: Sapiens – Uma breve história da humanidade, Antologia de textos de Epicuro e uma explicação sobre Leibniz
A batalha entre o bem e o mal
O politeísmo deu origem não só a religiões monoteístas
como também a religiões dualistas. Estas reconhecem a existência de dois
poderes opostos: o bem e o mal. Ao contrário do monoteísmo, o dualismo acredita
que o mal é um poder independente, nem criado pelo Deus bom e nem subordinado a
ele. O dualismo explica que todo o universo é um campo de batalha entre essas
duas forças e que tudo que acontece no mundo é parte dessa batalha.
O dualismo é uma visão de mundo muito atraente, porque
tem uma resposta simples e sucinta para o famoso problema do mal, uma das
preocupações fundamentais do pensamento humano. "Por que há mal no mundo?
Por que há sofrimento? Por que acontecem coisas ruins com pessoas boas?"
Os monoteístas têm de praticar uma ginástica intelectual para explicar como um
Deus onisciente, todo-poderoso e perfeitamente bom permite tanto sofrimento no
mundo. Uma explicação conhecida é que essa é a maneira que Deus encontrou de
dotar os humanos de livre-arbítrio. Se não houvesse mal, os humanos não
poderiam escolher entre o bem e o mal; por conseguinte, não haveria
livre-arbítrio. Isso, no entanto, é uma resposta pouco intuitiva que
imediatamente levanta uma série de novas perguntas. O livre-arbítrio permite
que os humanos escolham o mal. Com efeito, muitos escolhem o mal, e, de acordo
com o relato monoteísta padrão, essa escolha deve ter como consequência a
punição divina. Se Deus soubesse de antemão que determinada pessoa usaria seu
livre-arbítrio para escolher o mal, e que, em consequência, ela seria punida
por isso com torturas eternas no Inferno, por que Deus a criaria?
Para os dualistas, é fácil explicar o mal. Coisas ruins
acontecem até mesmo para pessoas boas porque o mundo não é governado
tão-somente por um Deus bom. Há um poder maligno independente à solta no mundo.
O poder maligno faz coisas ruins.
O dualismo tem suas próprias desvantagens. Embora ofereça
uma solução para o problema do mal, é incomodada pelo problema da ordem. Se o
mundo foi criado por um só Deus, fica claro por que razão trata-se de um lugar
tão ordeiro, onde tudo segue as mesmas leis. Mas se o Bem e o Mal lutam pelo
controle do mundo, quem faz com que se cumpram as leis que governam essa guerra
cósmica? Dois Estados rivais podem lutar um com o outro porque ambos obedecem
às mesmas leis da física. Um míssil lançado do Paquistão pode acertar alvos na
índia porque a gravidade funciona do mesmo jeito em ambos os países. Quando
Deus e o Diabo lutam, a que leis em comum obedecem, e quem decretou essas leis?
Há uma maneira lógica de resolver essa charada: afirmar
que há um único Deus onipotente que criou o universo inteiro – e Ele é um Deus
maligno. Mas ninguém, em toda a história, teve estômago para tal crença.
Leibniz
Para Leibniz, Deus escolheu dentre os mundos possíveis, o
que melhor espelhava sua perfeição, mas não poderia ser tão perfeito quanto o próprio
Deus, para não ser Ele mesmo e para existir o livre-arbítrio. Ele escolheu esse
mundo por uma necessidade moral. Mas se esse mundo é tão bom porque existe o
mal? No leibnizianismo, existe um conjunto de argumentos que,
em face da presença do mal no mundo, procuram defender e justificar a crença na
onipotência e suprema bondade do Deus criador, contra aqueles que, em vista de
tal dificuldade, duvidam de sua existência ou perfeição (Teodiceia), Leibniz identifica três tipos de mal:
1. O mal metafísico, que deriva da finitude do
que não é Deus
2. O mal moral, que advém do homem, não de Deus.
É o pecado.
3. O mal físico. Deus o faz para evitar males
maiores, para corrigir.
O mal não é algo que desfaz a bondade de Deus. O mal é
tudo que se diferencia de Deus, é o menos bem, sendo que somente se poderia ter
feito o mal (imperfeição) para Ele fazer algo diferente e sair de si mesmo, em
outras palavras, Deus somente poderia fazer o mal. Deus é o “sumo bem” (o objetivo final, contendo todos os outros bens, ou bem maior), por isso
não pode haver algo igual a Ele, muito menos a criatura que Ele cria, ela tem
que ser inferior. Todo o resto que não é Deus é mal, logo, Ele é a medida para ajudar
a distinguir o que é bom do mal. Apesar
de tudo, estamos no melhor dos mundos possíveis, o ser só é, só existe, porque
é o melhor possível e necessário, pois o mundo para ter movimento precisa ser
dessa maneira.
O paradoxo
de Epicuro
“Deus,
ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer e nem
pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em
Deus. Se pode e não quer, é invejoso [tem desgosto pela felicidade dos outros]:
o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer e nem pode, é invejoso e
impotente: portanto, nem sequer é Deus. Se pode e quer, o que é a única coisa
compatível com Deus, donde provém então a existência dos males? Por que razão é
que não os impede?”
Referência bibliográfica:
HARARI, Yuval Noah. Sapiens – Uma breve história da humanidade. Tradução Janaína
Marcoantonio. 5ª ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 2015.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
Max Stirner
Sobre o proletário, o burguês e o ócio
“Como
o liberalismo só se completa ao criticar-se a si mesmo, no liberalismo
‘crítico’ – em que, aliás, o crítico continua a ser um liberal, não
ultrapassando o princípio do liberalismo, o homem –, o melhor modo de o
designar é atendendo ao homem, e por isso lhe chamamos liberalismo ‘humano’.
O
trabalhador é visto como o mais materialista e egoísta dos homens. Não faz nada
pela humanidade, faz tudo por si e para o seu bem-estar.
A
burguesia, como só declarou o homem livre à nascença [nascimento],
deixou-o, quanto ao resto, nas garras dos desumanos (egoístas). Por isso, o
egoísmo tem um campo imenso à sua disposição sob o liberalismo.
Tal
como o burguês usava o Estado, assim também o trabalhador usará a
sociedade para os seus fins egoístas. ‘Tu só tens um fim em vista, o egoísmo
do teu bem-estar!’, é o que o humanista aponta ao socialista. ‘Segue um interesse
puramente humano, e podes contar comigo!’. ‘Mas para isso é preciso uma consciência
mais forte e mais alargada do que a de um trabalhador’. ‘O
trabalhador não faz nada, e por isso não tem nada: mas não faz nada porque o
seu trabalho é sempre isolado, calculado para as suas próprias necessidades do
dia-a-dia’. Perante isto, podemos pensar o seguinte: o trabalho de Gutenberg [inventor da prensa móvel] não ficou isolado, mas
gerou inúmeros filhos e vive ainda hoje, porque foi calculado para as
necessidades da humanidade, um trabalho eterno e imperecível.
A
consciência humanitária despreza tanto a consciência do burguês como a do
trabalhador: porque o burguês fica apenas ‘indignado’ com os vagabundos (todos
aqueles que não têm uma ‘ocupação definida’) e a sua ‘imoralidade’; o
trabalhador ‘irrita-se’ com o preguiçoso (‘madraço’) e os seus
princípios ‘imorais’, porque parasitários a associais [agregados]. Contra isto,
o humanista responde: A instabilidade de tantos é um produto teu, filisteu [aquele que é ou se mostra inculto e cujos interesses
são estritamente materiais, vulgares]! Mas tu, proletário, queres que
todos se esfalfem [esgotem],
queres tornar universal o trabalho de escravo, mas isso vem
de até agora teres sido sempre um burro de carga. O que tu queres é que todos
se matem a trabalhar, para aliviar o próprio trabalho, mas apenas para que
todos possam ter a mesma dose de ócio. Mas o que é que eles vão fazer
com o seu ócio? Que coisa faz a tua ‘sociedade’ para que esse ócio seja passado
de forma humana? Tem de deixar outra vez ao arbítrio [vontade] egoísta o
ócio conquistado, e precisamente o lucro que a tua sociedade
exige irá beneficiar o egoísta, do mesmo modo que o lucro da burguesia, a ausência
de dominação pessoal do homem,
não pôde ser preenchido pelo Estado com um conteúdo humano, e por isso foi
deixado à arbitrariedade [casualidade].
É
claro que é preciso que o homem se liberte de senhores; mas isso não pode
implicar que o egoísta [individualista] se torne novamente senhor do homem, pois é o homem que deve
dominar o egoísta. É claro que o homem tem de ter ócio [folga, repouso, quietação], mas se o egoísta se aproveita dele,
ele de nada aproveitará aos homens; por isso, deveríeis dar ao ócio um significado humano.
Mas vós, trabalhadores, até o vosso trabalho executais a partir de impulsos
egoístas, porque o que quereis é comer, beber, viver; por que é que haveríeis de ser menos egoístas quando
se trata do ócio? Vós só trabalhais porque depois do trabalho é bom festejar
(preguiçar) [vadiar], e deixais ao acaso o preenchimento dos vossos
tempos de ócio.” (p.102-103)
Sobre o trabalho
“O trabalho deveria satisfazê-lo como
homem, e em vez disso satisfaz a sociedade; a sociedade deveria tratá-lo como
homem, mas trata-o como... trabalhador miserável ou miserável que trabalha.
Trabalho e sociedade são-lhe úteis, não
para satisfazer as suas exigências de homem, mas de egoísta [no sentido negativo].
(...)
Por isso, o liberalismo humanista diz: Vós
quereis o trabalho. Muito bem, nós também, mas queremo-lo de forma plena. Não o
queremos para podermos ter lazer, mas para encontrar nele próprio toda a
satisfação. Queremos o trabalho porque ele é o fundamento do nosso
desenvolvimento pessoal.
Mas então o trabalho terá de estar à altura
dessa exigência! (...) o trabalho que seja a auto-revelação do homem, de modo a
que se possa dizer: laboro, ergo sum,
trabalho, logo sou um homem. O liberal humanista pede um labor do espírito que
elabore, transformando-a, toda a matéria, o espírito que não deixe nada
intocado ou como é, o espírito que não se deixa aquietar, que analisa e submete
a renovada crítica os resultados obtidos. Este espírito inquieto é o verdadeiro
trabalhador, que anula os preconceitos, destrói barreiras e limitações e eleva
o homem acima de todas as coisas que pretendem dominá-lo, enquanto o comunista
trabalha apenas para si, e nem sequer por livre escolha, mas por necessidade – em suma, concebe o trabalho como forçado.
Um trabalhador deste tipo não é egoísta [no sentido negativo], porque
não trabalha para indivíduos, nem para si próprio nem para outros indivíduos,
portanto não para indivíduos privados, mas para a humanidade e o seu progresso;
não alivia dores individuais, não resolve necessidades individuais, mas levanta
as barreiras que oprimem a humanidade, destrói preconceitos que dominam épocas
inteiras, supera obstáculos que atravancam o caminho de todos, elimina erros
que confundem os homens, descobre verdades que valerão para todos e para todos
os tempos, em suma... vive e trabalha para a humanidade.
Acontece que, em primeiro lugar, o
descobridor de uma grande verdade sabe muito bem que ela poderá ser útil aos
outros; e, como não lhe dá qualquer prazer guardá-la zelosamente só para si,
comunica-a aos outros; mas, apesar de ter consciência de que a sua comunicação
pode ter valor para os outros, isso não significa que a tenha buscado e
encontrado por amor dos outros, mas para si próprio, porque sentia esse desejo, porque o obscurantismo
e o erro lhe não davam descanso até ele, empenhando o melhor das suas forças,
alcançar a luz e o esclarecimento. Ou seja, ele trabalha para si e para satisfazer
os sem desejos. O fato de, com isso, poder ser útil aos outros e até à
posteridade, em nada afeta o carácter egoísta
do seu trabalho.” (p.108-109)
Sobre
a lei
“Esforçamo-nos
por distinguir a lei da ordem arbitrária [casual], de um comando,
dizendo que aquela parte de uma autoridade legítima [autêntica]. Mas uma lei
sobre a ação humana (lei ética, lei do Estado, etc.) é sempre uma expressão
de uma vontade, logo uma ordem. Mesmo se eu fizesse a minha lei só para
mim, ela seria apenas a minha ordem, a que eu poderia recusar obedecer em
qualquer momento. Poderia dizer-se: alguém pode sempre declarar o que está
disposto a suportar, proibindo o que se lhe oponha através de uma lei,
ameaçando considerar seu inimigo todo o transgressor [violador]; mas ninguém
pode mandar nas minhas ações, ninguém me pode querer impor [fixar] este
ou aquele modo de agir através de uma lei a que me obriga. Tenho de aceitar o
fato de ele me querer tratar como seu inimigo, mas nunca que ele ponha e
disponha de mim como se eu fosse criatura sua, nem que ele faça da sua
razão ou desrazão a minha regra de conduta.” (p.155)
Sobre
o Estado
“Os
Estados só duram enquanto houver uma vontade dominante e essa vontade
for vista como idêntica à vontade própria. A vontade do senhor é... lei. De que
te servem as tuas leis se ninguém as segue, de que te servem as tuas ordens se
ninguém lhes obedece? O Estado não pode abdicar da pretensão de determinar a
vontade individual de especular sobre ela e de contar com ela. Para ele é
absolutamente necessário que ninguém tenha vontade própria; se alguém a
tiver, o Estado tem de a eliminar (prendendo-o, exilando-o, etc.); se todos a
tivessem, poderiam abolir [acabar, eliminar] o Estado. O Estado não é
imaginável sem dominação e opressão (sujeição), porque o Estado tem de querer
ser senhor de todos aqueles que abarca [abrange, inclui], e a esta vontade
chama-se ‘vontade do Estado’.” (p.156)
“Todo
o Estado é um regime despótico [poder isolado, arbitrário], quer o déspota seja um ou
muitos, quer sejam todos os dominadores, cada um exercendo a sua ação despótica
sobre os outros, como se pensa que acontece numa república. Isto acontece de
fato quando uma lei, uma vez estabelecida na sequência da clara vontade de uma
assembleia nacional, passe a ser uma lei para todo o indivíduo, que lhe deve
obediência e perante a qual tem o dever de obediência. Mesmo
imaginando que cada indivíduo tinha manifestado a mesma vontade e assim se
formaria uma ‘vontade geral’, mesmo assim as coisas não se alterariam. Não
ficaria eu preso, hoje e depois, à minha vontade de ontem? Neste caso, a minha vontade
ficaria petrificada [estagnada].
Detestável sensibilidade! A minha criatura, isto é, uma
determinada expressão de vontade, tornar-se-ia no meu tirano, e eu, seu criador
dotado de vontade, ficaria tolhido no meu desenvolvimento e na minha
dissolução. Pelo fato de ontem ter sido um idiota, estaria condenado a permanecer
assim para o resto da vida. Deste modo, na vida do Estado eu sou, na melhor das
hipóteses – também poderia dizer: na pior –, um escravo de mim próprio. Porque
ontem fui um ser de vontade, hoje sou um ser sem vontade; ontem voluntário,
hoje involuntário.” (p.156)
“Seria
o caos total se cada um pudesse fazer o que lhe apetece [quer, anseia]!” Mas
quem diz que cada um pode fazer tudo? Para que é que tu estás aqui, tu que não
tens de aceitar tudo? Defende-te, e ninguém te fará nada! Quem quiser quebrar a
tua vontade terá de se haver contigo e é teu inimigo. Trata-o como tal.
Se tiveres atrás de ti uns quantos milhões para te protegerem, sereis uma força
imponente e triunfareis facilmente. Mas mesmo que a vossa força vos traga o
respeito do adversário, isso não significa que sejais uma autoridade sagrada, a
não ser que ele seja um ladrão. Ele não vos deve respeito nem consideração,
ainda que tenha de tomar cuidado perante a vossa força.
Costumamos
classificar os Estados de acordo com a forma como o ‘poder supremo’ neles está
repartido. Se for por um só – monarquia; se for por todos – democracia, etc. O
poder supremo, então! Poder contra quem? Contra o indivíduo e a sua ‘vontade
própria’. O Estado exerce o seu ‘poder’, o indivíduo não o pode fazer. O
comportamento do Estado é o do poder violento: a esse poder ele chama
‘direito’, ao do indivíduo chama-lhe ‘crime’. O poder do indivíduo chama-se
então crime, e só pelo crime ele pode quebrar o poder do Estado, se for de
opinião que não é o Estado que está acima dele, mas ele acima do Estado.” (p.157)
“Todo
o eu é, desde o nascimento, um criminoso contra o povo, contra o Estado. Por
isso este vigia realmente todos, vê em cada indivíduo um... egoísta
[individualista], e receia os egoístas. Imagina o pior de cada um, e dá
atenção, atenção policial, a que ‘nenhum dano possa ser feito ao Estado’, ne
quid respublica detrimenti capiat
[para que o Estado não sofra nenhum dano]. O eu sem peias
[travas] – e é isso que somos originalmente, e continuamos a sê-lo no mais
íntimo de nós – é para o Estado o criminoso em permanência. O indivíduo que é
guiado pela sua ousadia, pela sua vontade, pela sua indiferença aos princípios
e aos receios, é rodeado de espiões ao serviço do Estado e do povo. E digo: do
povo! O povo – e vós, cidadãos bondosos, que pensais maravilhas dele! –, o povo
está totalmente impregnado de mentalidade policial. Só quem renuncia ao seu eu,
só quem pratica a ‘negação de si’, agrada ao povo.” (p.159-160)
“Aquilo
a que se chama Estado é um entrançado e uma rede de dependências e adesões, é
qualquer coisa da ordem da pertença [pertinência], uma coesão [concordância], no âmbito da
qual os membros se adaptam uns aos outros, ou seja, dependem uns dos outros: o
Estado é a ordem dessa dependência. Imaginemos que o rei, cuja
autoridade concede autoridade a todos, até ao nível do esbirro [agente de polícia], desaparecia; nesse caso,
todos aqueles em quem o sentido da ordem continuasse desperto manteriam a ordem
contra a desordem da bestialidade [brutalidade]. E se a desordem vencesse, o
Estado desapareceria.
Mas
estará esta ideia do amor – adaptarmo-nos uns aos outros, ligados e dependentes
– verdadeiramente em condições de nos conquistar? Se assim fosse, o Estado
seria a realização do amor, e cada um existiria e viveria para os
outros. A aceitação do sentido da ordem não faz perder o sentido de si, a
vontade individual? Não nos contentaremos então se a força impuser a ordem,
isto é, que ninguém ‘se chegue de mais’ ao outro, para que o rebanho possa
ser conduzido e disposto de forma conveniente? Assim, tudo estará na “melhor
ordem”, e essa ordem chama-se... Estado.”
(p.176-177)
“As
nossas sociedades e os nossos Estados são sem que nós os façamos, estão
unidos sem que nós o estejamos, são predestinados e existem ou têm uma existência
própria e independente, constituem, contra nós, egoístas [individualistas],
o irredutível estado de coisas vigente [validas]. A luta que hoje se trava no
mundo dirige-se, como se diz, contra o ‘estado de coisas vigente’. Mas
geralmente entende-se isto de forma errada, como se o que agora existe tivesse
apenas de ser trocado por outra coisa melhor. Mas a guerra deveria ser
declarada ao próprio existir desse estado de coisas, ou seja, ao Estado (status),
não a um determinado Estado nem ao estado atual do Estado; o que se tem em
vista não é um outro Estado (por exemplo, um ‘Estado popular’), mas a associação
que ele representa, a união, sempre fluida, de todos os elementos existentes.
Um Estado existe sem que eu tenha de fazer nada por isso: eu nasço nele, cresço
nele, tenho os meus deveres para com ele e tenho de lhe ‘prestar homenagem’.
Por sua vez, o Estado recebe-me na sua ‘graça’, e eu vivo dela. Assim, a
existência autônoma [independente, livre] do Estado fundamenta a minha
dependência, a sua ‘naturalidade’, o seu organismo, exigem que a minha natureza
não cresça livremente, mas se lhe ajuste. Para que ele se possa desenvolver de
forma natural, aplica-me a mim a tesoura da ‘cultura’; dá-me uma instrução e
uma educação que lhe servem a ele, mas não a mim, e ensina-me, por exemplo, a
respeitar as leis, a não agir contra a propriedade do Estado (isto é,
propriedade privada), a venerar uma autoridade, divina e terrena, etc.; em
suma, ensina-me a ser irrepreensível, exigindo com isso que eu ‘sacrifique’ a minha
singularidade [distinção] própria a algo de ‘sagrado’ (e muitas coisas podem
ser sagradas, por exemplo a propriedade, a vida dos outros, etc.). Nisso
consiste o tipo de cultura e formação que o Estado me pode dar: educa-me para
eu ser uma ‘ferramenta útil’, um ‘membro útil da sociedade’.” (p.177)
“Estado
tem sempre uma única finalidade: limitar o indivíduo, refreá-lo, subordiná-lo,
fazer dele súbdito de uma qualquer ideia geral; só dura enquanto o
indivíduo não for tudo em tudo, e é apenas a mais marcada expressão da limitação
do meu eu, da minha limitação e da minha escravidão. Nunca um Estado tem
como objetivo permitir a atividade livre de cada indivíduo, mas sempre aquelas
que estão ligadas aos interesses do Estado. E também nada de comum pode
nascer dele, do mesmo modo que um tecido não pode ser visto como o trabalho
comum de todas as partes de uma máquina; trata-se antes do trabalho de toda a
máquina como uma unidade, um trabalho mecânico. A forma como as coisas
acontecem com a máquina do Estado é semelhante; é ela que faz mover as
engrenagens de cada um dos espíritos em particular, mas nenhum deles pode
seguir o seu próprio impulso. O Estado procura travar toda a atividade livre,
através da sua censura, da sua vigilância, da sua polícia, e toma isso como seu
dever, que é na verdade um dever que lhe é ditado pelo seu instinto de
conservação. O Estado quer fazer alguma coisa dos homens, e é por isso que nele
só vivem homens fabricados; todo aquele que quiser ser ele próprio é seu
inimigo, e não vale nada. Este ‘não vale nada’ significa que o Estado não
encontra utilidade para ele, não lhe confia nenhuma posição, nenhum posto,
nenhum negócio, etc.” (p.179-180)
“(...)
Sob a dominação do Estado, não há propriedade a que possa chamar minha.
Eu
quero elevar o valor de mim próprio, o valor da singularidade-do-próprio, e
pede-se-me que desvalorize a propriedade? A minha resposta é não! Do mesmo modo
que, até agora, eu não fui levado em conta, porque se colocava acima de mim o
povo, a humanidade e mil outras instâncias universais, também a propriedade não
foi até hoje reconhecida no seu devido valor. Também a propriedade era apenas
propriedade de um fantasma, por exemplo, propriedade do povo; toda a minha
existência ‘pertencia à pátria’: Eu pertencia à pátria, ao povo, ao
Estado, e com isso também tudo aquilo a que chamava meu. Exige-se dos
Estados que erradiquem o pauperismo [absoluta
pobreza]. A mim parece-me que isso significa a exigência de o Estado
cortar a própria cabeça e pô-la aos seus pés; porque enquanto o Estado for o eu, o eu individual será sempre um pobre diabo, um não-eu. O Estado tem
apenas um interesse, o de ser rico; não lhe importa saber se o Manuel é rico e
o João é pobre, e também ficaria indiferente se o João fosse rico e o Manuel
pobre. Ele assiste, indiferente, a este jogo de sorte que leva uns a ficar
pobres e outros ricos. Enquanto indivíduos, eles são, perante o Estado,
realmente iguais, e nisso ele é justo: perante ele, ambos são... nada, tal como
nós, ‘perante Deus, somos todos pecadores’. Mas o Estado já tem um grande
interesse em que aqueles indivíduos que fazem dele o seu eu partilhem da sua riqueza: faz deles participantes da sua
propriedade. Através da propriedade, com a qual recompensa os indivíduos,
ele domestica-os; mas a propriedade continua a ser sua, e cada um pode
apenas usufruir dela enquanto trouxer em si o eu do Estado ou for ‘um leal membro da sociedade’; caso contrário,
a propriedade é confiscada ou reduzida a nada por meio de processos penais. A
propriedade é e será, assim, propriedade do Estado, e não propriedade do
eu. O fato de o Estado
não retirar de forma arbitrária [aleatória] ao indivíduo aquilo que este dele
recebe significa apenas que o Estado não se rouba a si próprio. Quem for um
eu-de-Estado, isto é, um bom cidadão ou súbdito, desfruta tranquilamente do seu
feudo enquanto eu desse tipo, mas não como eu próprio. A isso, o código
dá um nome: propriedade é aquilo a que eu chamo meu ‘em nome de Deus e do
direito’. Mas mesmo com o aval [apoio] de Deus e do direito, isso só é meu
enquanto o Estado não tiver nada a opor.” (p.199-200)
Sobre a propriedade
“Na
opinião dos comunistas, é a comunidade que deve ser proprietária. De fato, é ao
contrário: eu sou proprietário e limito-me a entender-me com os outros sobre a
minha propriedade. Se a comunidade me tratar mal, rebelo-me contra ela e
defendo a minha propriedade. Eu sou proprietário, mas a propriedade não é
sagrada. Dirão que então sou apenas alguém que possui bens. Não, até agora
só se era possuidor, com a sua pequena parcela assegurada, se se concedia
também a outros a posse de outras parcelas; mas agora tudo me pertence a
mim, eu sou proprietário de tudo aquilo de que preciso e de que me
posso apoderar. Os socialistas dizem que a sociedade me dá tudo o que eu
preciso, mas o egoísta diz: ‘Eu apodero-me daquilo de que preciso’. Os
comunistas comportam-se como miseráveis, o egoísta como proprietário.
(...)
Assim,
a propriedade não deve nem pode ser abolida [eliminada], tem, isso sim, de ser
arrancada a mãos espectrais [de fantasmas] e tornar-se minha propriedade;
nessa altura, desaparecerá das consciências a ideia falsa segundo a qual eu não
tenho o direito de me apoderar daquilo de que preciso.
‘Mas,
há alguma coisa de que o homem não precise?’ Bom, aqueles que precisam de muito
e sabem como lá chegar, sempre se apropriaram do que queriam, como Napoleão fez
com o continente e os Franceses com a Argélia. Por isso, o importante é que a
‘plebe’ respeitosa finalmente aprenda a ir buscar aquilo de que precisa. Se ela
for longe de mais, pois defendei-vos. Não precisais de lhe oferecer nada de boa
vontade; e se ela aprender a conhecer-se – melhor, o plebeu que aprender a conhecer-se
–, livrar-se-á do seu plebeísmo virando as costas às vossas esmolas. O que é
deveras ridículo é a vossa etiqueta de ‘pecaminosa e criminosa’, quando ela não
pretende viver das vossas boas ações, porque é capaz de ir buscar o que
precisa. As vossas ofertas enganam-na e refreiam-na. Defendei a vossa
propriedade, e sereis fortes; mas se, pelo contrário, quiserdes manter a vossa
capacidade de oferta e, quem sabe, ter ainda tantos mais direitos políticos
quantas mais esmolas (o imposto dos pobres) derdes [oferecer], isso não durará
mais tempo que aquele que os beneficiários [beneficiados] permitirem.
Em
conclusão: a questão da propriedade não é de resolução pacífica, como sonharam
os socialistas e até os comunistas. Só será resolvida com a guerra de todos
contra todos. Os pobres só serão livres e proprietários se se rebelarem, se
revoltarem, se sublevarem [revolucionarem]. Por mais que lhes oferecerdes, eles
vão sempre querer mais; porque o que eles querem é, nada mais nada menos, que
finalmente se acabe com as dádivas [doações].
Perguntar-se-á: mas que acontecerá se os
que nada têm tomarem coragem e decisões? De que tipo será então a igualização?
É o mesmo que pretender que eu preveja a hora exata do nascimento de uma
criança. Para saber o que fará um escravo depois de ter quebrado as cadeias,
teremos... de esperar.” (p.204-205)
sexta-feira, 21 de outubro de 2016
Karl Marx e o materialismo histórico e dialético
O filosofo Karl Max é um materialista. Os filósofos desta concepção consideram que não
existe uma verdade que se revela a todos nesse mundo. Tudo é uma questão de
perspectiva e por isso não se pode entender o mundo como ele realmente é.
Mas em oposição aos materialistas é
encontrada a concepção idealista,
com a pretensão de criar uma imagem universal, até mesmo sobre os indivíduos, apesar
das diferenças. O idealista é apegado a ideia, onde se coloca tudo em categorias
compreensíveis, considerando que todos podem compartilhar da verdade ideal.
No materialismo o que passa pela cabeça de
uma pessoa tem a ver com os sentimentos que ela tem, porque o corpo é
importante e é o contato com o mundo que produz sentimentos. Então, nessa
primeira ideia, começa a ficar claro que a produção material de uma sociedade
afeta o pensamento, por estar em relação com o corpo, produzindo sentimentos
que movem o indivíduo.
Um problema para a filosofia está ligado a
essa ideia de circunstâncias. O pensamento sobre o futuro está preso as
circunstâncias materiais do agora. Então, como criar uma filosofia
revolucionária, sendo que o pensamento é influenciado pelo mundo material a
cada instante?
Para entender melhor essa dificuldade da
revolução do pensamento, dentro de uma sociedade, é importante analisar a infraestrutura e superestrutura que formam a sociedade. Essa análise é a ciência do materialismo histórico.
Sociedade = infraestrutura + superestrutura
Infraestrutura
Os sentimentos que o indivíduo tem não
poderiam ser outros, porque assim as circunstâncias determinam. A sociedade
também é organizada politicamente, moralmente, religiosamente e tudo mais, da
maneira que atenda a necessidade material econômica, porque é o material que
influencia o pensamento e consequentemente a ação.
A infraestrutura está
relacionada a produção de bens materiais: as condições materiais de sua produção, as
relações entre as pessoas na produção de bens, ao trabalho, ao processo de
produção, etc. A infraestrutura é resumida como sendo os modos de produção.
Infraestrutura = modos de produção
Modos de produção
Os modos de produção
econômica fazem parte da infraestrutura. Existem seis
modos de produção: Primitivo, Asiático, Escravista, Feudal, Capitalista, Socialista.
Existem dois elementos fundamentais nos modos
de produção: forças produtivas e relações de produção.
Modos de produção = forças produtivas +
relações de produção.
Forças produtivas
As forças produtivas são o conjunto de
dois elementos que impulsionam o processo produtivo:
1º Os meios
de produção: ferramentas, matéria-prima e matéria-bruta. Por ferramentas
entende-se tudo instrumento usado para transformar um objeto; a matéria-prima é
um objeto que já foi modificado pelo trabalho, mas inda não é produto; matéria-bruta
é um objeto que não foi trabalhado, por isso está distante de ser um produto.
2º A força
de trabalho: é a energia muscular e cerebral, usada sempre em conjunto com
os meios de produção, para produzir um produto.
Forças produtivas = meios de produção + força de
trabalho
O trabalho
dá utilidade a algo, mas é importante lembrar que hoje em dia a utilidade tem
outro sentido. Muitos produtos são desnecessários, cridos para o luxo.
Em resumo, o trabalho transforma o objeto em produto e a força de trabalho é a energia necessária para a transformação. Dependendo
do meio de trabalho, se gastará mais ou menos energia para produzir um produto.
No
capitalismo não se remunera o trabalho e sim a força de trabalho. Isso
significa que o salário é para recuperar a energia. O que se produz com o
trabalho não afeta na remuneração, porque o importante é o tempo, a força
física e mental usada para produzir. Isso sofreu algumas alterações nos últimos
anos com as gratificações por resultado, mas isso não acontece em todo o
sistema e nem representa uma mudança significativa para o sistema de exploração
do trabalho.
Os meios de produção são fundamentais, porque
eles determinam a quantidade de força necessária para a transformação de um
objeto em produto.
Relações
de produção
As relações de produção são
as relações estabelecidas entre os seres humanos para produzir. Em outras palavras, é o acordo necessária
entre os seres humanos para realizar o processo produtivo.
Na nossa sociedade, a propriedade privada dos meios de produção dita a relação das duas
classes fundamentais para a produção: proletários (não proprietários) e
burgueses (proprietários). Essas são as classes mais importantes da sociedade
capitalista: o burguês é o dono dos meios
de produção e o proletário é o trabalhador, o detentor da força de trabalho. Os proprietários dos
meios de produção se apropriam do
produto do trabalho dos não proprietários, gerando desigualdade social e
conflito entre as classes.
Superestrutura
Todas as ideias de uma sociedade sobre o
mundo e sobre as coisas é resultado da luta de classes. A superestrutura são essas
ideias, hábitos e campos sociais que
formam a sociedade, mas não fazem parte da infraestrutura, como: educação,
leis, marketing, Estado, medicina, estilos de vida etc.
Várias formas de superestrutura são possíveis em uma mesma
infraestrutura. A superestrutura nunca para de mudar,
por isso é difícil defini-la. Por exemplo, a internet não existia a alguns anos
atrás.
Materialismo
histórico
O materialismo histórico é uma
forma cientifica de analisar a história e as sociedades. Em nossa sociedade temos duas classes
fundamentais: proletários e burgueses. Os proletários alienados, junto com seus
herdeiros e lacaios dos burgueses, defendem as relações vigentes de produção. As duas classes são parte da
infraestrutura. A política, a educação, o direito, a moral, a mídia, entre
outros, fazem parte da superestrutura.
O materialismo histórico revela que a
organização social está em dois níveis: infraestrutura econômica e superestrutura
ideológica. Ao se entender a produção de bens (infraestrutura) de uma
sociedade, é possível entender a ideologia que comanda a sociedade. Em outras
palavras, quanto melhor se conhece a produção de bens materiais, melhor se
conhece o resto da sociedade (superestrutura).
Conflito
entre classes
As pessoas consideradas de esquerda lutam
sempre contra o interesse da classe dominante, que é a burguesia. Os
verdadeiros interessados na manutenção das ideias de direita são os donos da
produção, os conservadores. Não é o proprietário do carro que é interessado nas
propostas conservadoras e sim o dono da fábrica de veículos. Para Marx, o importante no capitalismo é a
propriedade dos meios de produção e não o produto. A maneira como se procede as
forças de produção de bens materiais
define a relações de produção.
Os burgueses defendem a propriedade privada dos meios
de produção e o proletário busca novas formas de relações de produção. Devido a esse conflito de interesses, existe
uma luta entre as duas classes. Há um abismo que separa as classes, mas poucos
tem consciência de classe, sem essa
consciência não existe revolução. O
desejo por lucro faz com que os burgueses, donos dos meios de produção, se
aproveitem do trabalhador, criando uma situação de exploração que não muda.
Materialismo dialético
O materialismo dialético diz respeito a essa luta de classes: proletária e burguesa. A desarmonia entre as forças de produção e as relações
de produção produz a história da nossa sociedade capitalista, mas essa história é resultado da dialética das classes envolvidas nos modos de produção.
O conflito fica evidente quando os proprietários dos meios de produção
não conseguem agradar o trabalhador, que exige uma mudança nas relações de produção, mas esta nunca
acontece. Por exemplo, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) que
luta pela distribuição de terras, que são parte dos meios necessários para a
produção, sendo a terra parte da infraestrutura.
É normal que alguns grupos se unam contra os
trabalhadores para conservar a propriedade
privada dos meios de produção, impedindo uma transformação. A classe conservadora
luta contra a classe que deseja mudanças na relação de produção, porque essa mudança é uma revolução considerada subversiva
pelos conservadores.
Liberalismo
O filósofo John Locke, do século XVII, era
defensor do liberalismo. Ele via o trabalho como fundamento da propriedade
privada.
Podemos dizer que o trabalho de seu corpo e a obra produzida por suas
mãos são propriedade sua. Sempre que ele tira um objeto do estado em que a
natureza o colocou e deixou, mistura nisso o seu trabalho e a isso acrescenta
algo que lhe pertence, por isso o tornando sua propriedade. Ao remover este
objeto do estado comum em que a natureza o colocou, através do seu trabalho
adiciona-lhe algo que excluiu o direito comum dos outros homens. Sendo este
trabalho uma propriedade inquestionável do trabalhador, nenhum homem, exceto
ele, pode ter o direito ao que o trabalho lhe acrescentou (LOCKE, Segundo
tratado Sobre O Governo, capitulo V, p.42)
Para Locke, é garantindo o direito à
propriedade de algo quando se trabalha nela e a transforma. O direito à
propriedade é a recompensa pelo trabalho transformador. Mas no capitalismo o
trabalho é apenas mais uma mercadoria, que é vendida e usada para a produção. O
que é produzido pelo trabalho não pertence ao trabalhador, pertence aos donos
dos meios de produção que comprou o
trabalho.
Em contrapartida, o filósofo Adam Smith, do
século XVIII, dizia que o trabalho deveria ser a medida do valor de troca das
mercadorias. Mas no capitalismo o valor de troca da mercadoria não tem a ver
com o valor pago pelo trabalho. A mercadoria ganha um valor muito superior em
comparação ao valor pago pelo trabalho que a produziu. Por isso, é importante
entender o conceito de trabalho para entender as relações de produção.
Mais-valia
A mais-valia
é o lucro retido pelo capitalista,
resultante da diferença entre o que ele paga pela mão de obra e o valor que ele
cobra pela mercadoria produzida por essa força
de trabalho (o trabalho vale menos que a mercadoria). Em outras palavras, o
trabalhador recebe um valor muito inferior ao valor produzido e é assim que o
burguês consegue o lucro. Essa exploração é chamada de mais-valia.
Existe uma abundância de trabalhadores na
sociedade. E quanto mais cresce a quantidade de trabalhadores mais a mão de
obra se desvaloriza. A força de trabalho perde seu valor quanto mais fácil for encontrá-la.
E sempre haverá aqueles trabalhadores que se submetem a trabalhar mais por um
salário um pouco maior perdendo mais de si, ou aceita trabalhar por menos para
ter um emprego, desvalorizando os trabalhadores como um todo. Um jeito de
ganhar mais é ter uma boa formação, porque quanto melhor for a formação do
trabalhador maior será sua raridade no mercado, proporcionando um salário
melhor.
Por causa do burguês ser o dono dos meios de produção, ele pode controlar
como, onde, quando, por que e com que frequência o trabalhador poderá vender
sua força de trabalho. Durante a
produção, o trabalhador perde a consciência da produção como um todo, por isso
ele é facilmente explorado. A sociedade capitalista se desenvolve com mais
facilidade quanto menor for a consciência do trabalhador.
Alienação
Alienação é o processo em que o ser humano se afasta de sua real
natureza, torna-se estranho a si mesmo, pois os objetos que produz passam a
adquirir existência independente do seu poder e antagônica aos seus interesses.
Alienação
devido a produção
No capitalismo a alienação começa no processo de
produção onde o indivíduo tem o trabalho segmentado para não se ter consciência
da totalidade do processo de produção. Existe uma cooperação complexa onde os
trabalhadores fazem funções diferentes para gerar um produto, perdendo toda a
noção da totalidade do processo produtivo. Na cooperação complexa, existe os trabalhadores
que vão trabalhar com a matéria-bruta e trabalhadores que vão dar continuidade
ao trabalho dos primeiros, até a produção final que é o produto pronto para o consumo,
chamado de mercadoria. Esse trabalho coletivo é um estágio do sistema
capitalista, onde o trabalhador se torna alienado, perdendo a noção dos custos
e quantidade de produção de bens. Quanto
mais for elaborado o sistema de produção maior é a alienação do trabalhador.
Existe três tipos de
proprietários dos meios de produção:
1º O proprietário é um trabalhador
direto, por utilizar seus próprios meios
de produção para produzir, sendo isso mais normal em sistemas rudimentares
de produção, como no artesanato.
2º O proprietário é um
trabalhador indireto, por administrar o processo produtivo.
3º O proprietário é um não
trabalhador, porque ele está distante do processo produtivo. E quanto mais um
sistema capitalista se desenvolve, mais distante o proprietário dos meios de produção fica do processo produtivo.
Em uma sociedade
capitalista, podemos dividir os envolvidos na produção em duas categorias:
proprietários e não proprietários. Essa divisão gera três outras categorias na
sua relação capitalistas: explorados, não explorados e cooperadores (capangas
da burguesia).
Existem três sistemas de
exploração:
1º
O escravismo: onde o dono dos meios de produção é dono da produção e do trabalhador.
2º
O serviçal: onde o dono dos meios de produção é dono da produção, mas não é dono do
trabalhador. O servo tem liberdade de ir e vir e ganha um pouco de recursos,
para sobreviver e sustentar sua família se necessário.
3º
O assalariado: onde o dono dos meios de produção é dono da produção, mas é o trabalhador que vende
sua força de trabalho. O assalariado tem maior liberdade do que o servo, por
dois motivos: ele tem o direito de receber os recursos para obter os próprios
bens em troca da força de trabalho;
também pode não vender a força de
trabalho, caso não tenha interesse no que o burguês lhe oferece.
No capitalismo, o
trabalhador é explorado porque o burguês dita a venda da força de trabalho e o valor do trabalho. O trabalhador alienado não
percebe a desigualdade do sistema. O trabalhador vende seu trabalho como uma
mercadoria e quanto mais mercadorias esse trabalho produz menos ele vale no
mercado.
A mercadoria ganha
independência em relação ao trabalhador. Quanto mais esse trabalhador gasta de
si no trabalho, mais o trabalho se torna estranho ao trabalhador, que perde
mais de si mesmo, tornando-se mais pobre com o tempo. Em outras palavras, o
trabalhador se torna menos pessoa e menos valorizado na medida em que produz
mais.
O sistema exige que o
trabalhador fique cada vez mais produtivo, eficiente e alienado, resultando na
desvalorização da sua força de trabalho. Quanto mais se produz menos se é. Essa
é a alienação do trabalhador frente ao objeto de trabalho que não lhe pertence
mais. Para Marx, a alienação significa essa autonomia do trabalho em relação ao
trabalhador. Quando se vende o trabalho ele não pertence mais ao trabalhador,
ele fica fora do trabalhador.
Ideologia
Ideologia é a totalidade das formas de consciência social, o que
abrange o sistema de ideias que legitima o poder econômico da classe dominante
(burguesia).
A ideologia é manifestada na superestrutura, que é o fluir ou consequência da infraestrutura. Em outras palavras, a superestrutura é uma articulação de
indivíduos que pensam sobre o mundo, tomando como referência a infraestrutura da sociedade para se
estabelecer parâmetros. A ideologia é
tudo que faz a sociedade ser e continuar a ser o que é, por permitir a
manutenção da dominação de classe. Como a ideologia sustenta o sistema, os
maiores interessados e beneficiados pela ideologia é a burguesia (classe
dominante).
Toda a ideologia é uma ideia sobre como o
mundo deveria ser e como deveria ser pensado. Não se trata de um mundo verdadeiro
ou falso. A ideologia não é uma análise da realidade, ela é uma suposição de
como deveria ser a vida humana. Por isso, não se pode fazer ideologia a partir
da natureza, porque a natureza nunca é diferente, ela é o que é, mas o ser
humano sempre pode ser diferente.
A ideologia é mais sofisticada quando deixa
de ser apenas uma ideia e passa a ser um conjunto de hábitos e condutas a se
ter. De repente, aquilo que o ser humano pensa e procura alcançar na sociedade
é resultado de uma dominação de classe por meio da ideologia. Porque a
ideologia do proletário é a ideologia burguesa. Não existe uma ideologia do
proletário e sim uma ideologia burguesa que toma conta das ideias do
proletário, que passa a querer se tornar burguês. O proletário vive em um mundo
criado pelos donos dos meios de produção. Sempre que o proletário quer se sair
bem no sistema, ele faz o que é do interesse da classe burguesa. Não existe rival
para a ideologia burguesa, porque todos têm uma noção parecida de como o mundo
deveria ser. Isso é globalização: uma única ideia compartilhada. Geralmente,
uma ideia começa a parecer correta quando ela vem de todos, parece não existir
pessoas dominadas. Essa é a sutileza da ideologia – dominar sem aparentar,
eliminando as chances de qualquer revolução.
A burguesia governa principalmente com a
ideologia, mas quando necessário, ela usa da força física da polícia e do
exército, que são patrocinados por ela, para manter a ordem burguesa. A
ideologia somente desaparece quando o sonho se tornar realidade, mas pode haver
uma crise, o sonho pode não ser bom. Quando o sonho não é bom, o que restar é
voltar a sonhar, criando uma nova ideologia.
Os desejos humanos foram cobertos pelas
ilusões da classe dominante. Desejar é natural, mas se deseja segundo tendências
capitalistas, como gostar do que se pode ser descartado, da quantidade ao invés
da qualidade, da raridade e do prático.
Mas não é a classe burguesa quem cria e cuida
da ideologia dominadora, o próprio sistema econômico proporciona seu
surgimento. A ideologia se forma devido as características dos modos de produção, mantendo até mesmo o
burguês tão alienado quanto o proletário, mas essa primeira classe acaba sendo
beneficiada. A burguesia também é exposta aos mesmos processos de dominação
ideológica que o proletário: a mídia, a escola, a igreja, entre outros. Por
exemplo, na novela o rico sofre e o pobre é feliz, recebe até café da manhã na
cama, servido pela sua esposa que é interpretada por uma atriz linda.
A
ideologia da mídia
A mídia faz parte da superestrutura,
patrocinada pela burguesia e promovendo os interesses da classe burguesa.
Diverte a classe operária, mantendo a alienação. É feita por burgueses para
proletários. Por exemplo, os jornais gastam muitas páginas falando da queda de
um avião como o da Air France em 2009, porque morreram “pessoas que importam”,
os proletários principalmente da classe média. Em São Paulo, existe várias
tragédias acontecendo na periferia a todo momento, mas as pessoas da periferia
não merecem a atenção da mídia, porque a vida dessas pessoas tem um outro valor
social.
Cria-se heróis e vilões na mídia, que podem
variar entre pessoas, partidos, instituições, produtos, etc., que servem como
bode expiatório para desviar a atenção dos processos de dominação e exploração.
A condenação dos vilões purifica e torna os trabalhadores mais dóceis. Por
exemplo, a mídia faz todos acreditarem que tudo de ruim está no setor público, oferecendo
ótimos argumentos para os defensores da privatização.
Graças a mídia, o proletário passa a ter como
preocupação os valores que favorecem a classe dominante, impedindo uma revolta
em massa. A ideologia é a maneira mais limpa, fácil e segura de dominação.
Antigamente era comum a dominação pela força física, mas isso era custoso e
agora é melhor o uso da ideologia.
O erro de Karl Marx, foi achar que a mídia
iria contribuir para uma revolução,
quando o número de proletários fosse muito mais numeroso do que de burgueses. Um
pensador marxista de hoje não analisa a mídia pela mídia, mas a partir da luta
de classe. A mídia dissimula o que realmente importa. Por exemplo, o programa A Grande Família, onde é mostrado uma
família de classe média, uma classe resistente a mudanças e apegada aos seus
pequenos ganhos. O personagem principal, Lineu, é um homem honesto, mas é
porta-voz de uma moral conservadora, reacionária, ortodoxa e garantidora da
manutenção do sistema.
É na superestrutura que se esconde a
realidade da dominação. A mídia é conservadora como tudo mais na superestrutura.
A
ideologia nos campos sociais
Para se conhecer é necessário saber a classe
que se pertence. Para ficar mais fácil ainda de se conhecer, é importante
estudar o campo social em que se vive. Existe o campo jurídico, acadêmico,
jornalístico, político, religioso, etc. A ideologia de cada campo é flexível.
Por exemplo, a ideologia do campo acadêmico poderia mudar constantemente, mas,
ainda sim, mudaria para formas que continuam a favorecer os interesses da
classe dominante.
A sociedade adestra os seres humanos com a
ideologia. Certos comportamentos tornam-se aceitáveis e outros não, em um
determinado campo social. Quando se senti vergonha por algum comportamento, é
porque foi transgredido o protocolo ideal de uma esfera social, e o corpo reage
em contato com esse mundo que o condena, produzindo a vergonha no indivíduo que
não se enquadra. A ideologia determina o mundo em que se vive. Por isso, a
ideologia controla os sentimentos e se ela controla os sentimentos, ela
controla os indivíduos.
Apesar das particularidades dos campos
sociais, todas as ideologias existentes, têm como objetivo legitimar os
interesses da classe dominadora. Em outras palavras, todas as ideologias dos
campos sociais servem a uma maior proposta ideológica, aquela que favorece a
classe dominadora. A ideologia burguesa é mascarada por diversas propostas nos
vários campos, mas é sempre ela a referência para qualquer outra ideologia.
A homologia (união das partes) é o último
estágio para se entender a legitimação de um porta-voz dos interesses da classe
dominante. Essa homologia é a união dos campos sociais para legitimar uma nova
maneira de ser da ideologia. Um campo social aprova o outro de alguma maneira
ou o ajuda. Uma nova maneira de ser da ideologia, é uma nova maneira de
esconder os interessas da classe dominante, com uma capa ideológica nova.
Para entender o materialismo:
·
Burguês é o dono
dos meios de produção.
·
Proletário é o trabalhador, o detentor da força de trabalho.
Considerações:
1º Existe uma desigualdade (o burguês é o dono da bola).
2º O burguês decide o quanto vai pagar. O conceito mais-valia refere-se ao
preço da mercadoria e a exploração do trabalho. A mais-valia é o lucro retido
pelo capitalista, resultante da diferença entre o que ele paga pela mão de obra
e o valor que ele cobra pela mercadoria produzida por essa força de trabalho (o
trabalho vale menos que a mercadoria).
3º A luta de classe ou dominação de classe (porque o burguês ganha sempre).
4º No capitalismo o capital se concentra (a classe burguesa diminui e os poucos que
sobram são os maiores detentores dos meios de produção). O capitalismo
patrocina uma proletarização progressiva das relações de produção.
5º Marx antecipa uma revolução que aconteceu onde ele não previu, na
Rússia que era
czarista (Praticamente um absolutismo que foi substituído por uma monarquia
constitucional, incluindo um parlamento) e não passou pela fase capitalista.
6º A revolução não aconteceu do modo esperado por causa da dominação
ideológica ou simbólica que produz alienação. A classe dominante produz ideologias que
alienam a classe trabalhadora, permitindo uma dominação pacífica. As duas
maiores ferramentas de alienação é a religião e a mídia. Por exemplo: o padre
Marcelo é um instrumento que potencializa as duas.
7º A sociedade se explica pelas relações econômicas. Existe a infraestrutura de uma sociedade
está relacionada direta ou indiretamente com a produção de bens materiais, bens
tangíveis. A superestrutura de uma sociedade é tudo que está ao alcance dos
sentidos, é o resto da produção que não faz parte da infraestrutura: sistema de ideias e sentimentos, instituições
jurídicas e políticas, e manifestações culturais que constituem a consciência
social. Nenhuma produção superestrutural é explica sem uma análise da
infraestrutura da sociedade. Por exemplo: não posso entender o sucesso do padre
Marcelo sem entender como a sociedade que ele vive produz bens materiais.
Crítica ao capitalismo
“O trabalhador fica mais pobre à medida que produz mais riqueza” Karl
Marx.
Quanto mais se trabalha, mais pobre se fica. É a escassez da força
de trabalho e da produção que valoriza o trabalhador. Onde existe uma
grande produção e sobra da força de trabalho, não se valoriza o trabalhador.
Toda a produção ganha independência do trabalhador. A produção passa a ter o valor
estipulado pelo burguês, que é superior ao valor pago pela força de trabalho.
Caso o trabalhador deseje consumir a mercadoria que ele produziu, deverá ser
pago um valor superior ao pagamento que se recebeu para produzir a mercadoria.
Quanto mais o trabalhador produz em quantidade e volume, mais
desvalorizado se torna o trabalhador, porque ele se torna uma mercadoria
vendida a um preço mais baixo tanto quanto mais produz mercadorias.
Referências biográficas:
BARROS, Clóvis de; DAINEZI, Gustavo Fernandes. Devaneios sobre a atualidade do capital. Porto Alegre: CDG, 1ª edição, 2014.
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