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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018
segunda-feira, 15 de maio de 2017
NIETZSCHE – SOBRE A MORAL
TRECHOS DAS OBRAS DE NIETZSCHE – SOBRE A MORAL
Não há quaisquer fenômenos morais, mas apenas uma interpretação moral de fenômenos..... (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 97)
“(..) a história da luta da moral contra os instintos fundamentais da vida é a maior imoralidade que até hoje existiu sobre a terra...” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.274)
Chamo um animal, uma espécie, um indivíduo de corrompidos quando eles perdem os seus instintos, quando escolhem, quando preferem o que lhes é prejudicial. Uma história dos "sentimentos superiores", dos "ideais da humanidade" – e é possível que eu tenha de narrá-la – também seria quase a explicação de por que o homem está tão corrompido.
Considero a própria vida como instinto de crescimento, de duração, de acumulação de forças, como instinto para o poder, onde falta a vontade de poder, ocorre declínio. Minha tese é a de que todos os valores supremos da humanidade carecem dessa vontade – que sob os nomes mais sagrados há valores de declínio, valores niilistas no comando. (NIETZSCHE, O Anticristo, 2016, p.18)
Os animais e a moral — As práticas que são requeridas na sociedade refinada: evitar cuidadosamente o ridículo, o chamativo, o pretensioso, relegar tanto suas virtudes como suas veementes cobiças, mostrar-se como igual, inserir-se, diminuir-se — tudo isso que é a moral social encontra-se, grosso modo, em toda parte, até na profundeza do mundo animal, — e apenas nessa profundeza enxergamos a intenção por trás dessas gentis precauções: quer-se escapar aos perseguidores e ser favorecido na busca da presa. Por isso os animais aprendem a se dominar e a dissimular de tal modo que alguns, por exemplo, adéquam suas cores à cor do ambiente (mediante a chamada "função cromática"), fazem-se de mortos ou assumem as formas e cores de outro animal ou de areia, folhas, liquens, fungos (aquilo que os pesquisadores ingleses designam por mimicry [mimetismo]). Dessa maneira o indivíduo se esconde na generalidade do conceito "homem" ou na sociedade, ou se adéqua a governantes, classes, partidos, opiniões da época ou do ambiente: e para todas as sutis maneiras de nos pormos felizes, gratos, fortes, enamorados, encontra-se facilmente o símile animal. Também o sentido para a verdade, que é, no fundo, o sentido para a segurança, o homem tem em comum com os animais: não queremos nos deixar enganar, não queremos induzir a nós próprios em erro, ouvimos desconfiados a conversa de nossas próprias paixões, contemo-nos e ficamos à espreita de nós mesmos; tudo isso o animal entende como o homem, também nele o autodomínio nasce do sentido para o real (da prudência). E igualmente observa os efeitos que produz na noção que têm os outros animais, aprende a olhar de volta para si a partir dela, a apreender-se "objetivamente", tem seu grau de autoconhecimento. O animal julga os movimentos de seus rivais e amigos, memoriza as peculiaridades deles, orienta-se por elas: no tocante a indivíduos de determinada espécie renuncia definitivamente à luta, e também percebe, na aproximação de algumas variedades de animais, a intenção de paz e de acordo. Os primórdios da justiça, assim como da prudência, da moderação, da valentia — em suma, tudo aquilo que designamos pelo nome de virtudes socráticas é animal: uma consequência dos impulsos que ensinam a procurar alimento e escapar aos inimigos. Se considerarmos que também o homem superior apenas se elevou e refinou no tipo da alimentação e na ideia do que lhe é hostil, será lícito caracterizar todo o fenômeno da moral como animal. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.28-29)
Durante a mais longa época da história humana – a chamada época pré-histórica –, o valor ou o desvalor de uma ação era derivado de suas consequências (...) Chamamos esse período de período pré-moral da humanidade: o imperativo ‘conhece-te a ti mesmo!’ ainda era desconhecido naquele tempo. Nos dez últimos milênios, entretanto, em algumas grandes regiões da Terra se chegou passo a passo ao ponto de deixar a origem da ação, e não mais as consequências, decidir acerca de seu valor (...) a origem de uma ação foi interpretada no mais preciso sentido de origem a partir de uma intenção; chegou-se à crença unânime de que o valor de uma ação reside no valor de sua intenção. A intenção como a inteira origem e pré-história de uma ação: sob este preconceito se louvou, repreendeu, condenou e também se filosofou moralmente sobre a Terra quase até a época moderna. – Não teríamos hoje, porém, chegado à necessidade de mais uma vez nos decidirmos acerca de uma inversão e de um deslocamento radical dos valores, graças a uma repetida autorreflexão e aprofundamento do homem – não estaríamos no limiar de um período que, negativamente, poderia ser designado em primeiro lugar de extramoral: hoje, quando pelo menos entre nós, imoralistas, se faz sentir a suspeita de que precisamente naquilo que não é intencional numa ação reside o seu valor decisivo, e de que toda a sua intencionalidade, tudo que dela pode ser visto, sabido, ‘conhecido’, ainda pertence à sua superfície e epiderme – a qual, como toda epiderme, revela algo, mas oculta muito mais? Em suma, acreditamos que a intenção é apenas um sinal e um sintoma que primeiro precisa de interpretação, um sinal, além disso, que significa coisas demais e, por conseguinte, não significa quase nada por si mesmo – que a moral, no sentido em que ela foi entendida até agora, portanto, como moral de intenções, foi um preconceito, uma precipitação, uma provisoriedade talvez, uma coisa mais ou menos da categoria e da alquimia, mas em todo caso algo que precisa ser superado. (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 57-58-59)
A refinada crueldade como virtude. — Eis uma moralidade que se baseia inteiramente no impulso para a distinção — não pensem muito bem dela! Pois que impulso é esse e qual o pensamento por trás dele? Queremos que a nossa simples vista cause dor ao outro e desperte sua inveja, o sentimento de impotência e de declínio; queremos fazê-lo saborear a amargura de seu fado, ao deixar-lhe na língua uma gota de nosso mel e fixá-lo nos olhos agudamente e com maldosa alegria, ante o suposto benefício. Esse tornou-se humilde e perfeito em sua humildade — procurem aqueles que há muito ele quer assim torturar! já os encontrarão! Aquele mostra-se piedoso com os animais e é admirado por isso — mas há certas pessoas nas quais, justamente com isso, ele quis dar livre curso à sua crueldade. Ali está um grande artista: a volúpia que antecipadamente sentiu com a inveja dos rivais derrotados não deixou sua energia esmorecer, até ele tornar-se grande — quantos instantes amargos a sua grandeza não custou a outras almas! A castidade da freira: que olhares castigadores ela não lança ao rosto das mulheres que vivem de outra forma! quanto prazer da vingança há nesses olhos! — O tema é breve, as variações em torno dele podem ser inúmeras, mas dificilmente tediosas — pois é ainda uma novidade paradoxal e quase dolorosa que a moralidade da distinção seja, em última instância, o prazer na crueldade refinada. Em última instância — isto significa aqui: sempre na primeira geração. Pois quando o hábito de uma ação que distingue é herdado, o pensamento por trás dela não é herdado (apenas sentimentos são hereditários, não pensamentos): e, desde que a educação não o introduza novamente, na segunda geração não há mais prazer na crueldade; e sim apenas prazer no hábito como tal. Esse prazer, porém, é o primeiro estágio do "bem". (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.30-31)
Simulação como dever. — Na maioria das vezes, a bondade foi desenvolvida pela demorada simulação que buscava parecer bondade: em todo lugar onde existiu grande poder, viu-se a necessidade de justamente esse tipo de simulação — ela infunde certeza e confiança, e centuplica a verdadeira soma de poder físico. A mentira é, se não a mãe, certamente a ama de leite da bondade. Também a honradez foi cultivada sobretudo pela demanda de uma aparência de honradez e probidade: nas aristocracias hereditárias. O que é simulado por longo tempo torna-se enfim natureza: a simulação acaba por suprimir a si mesma, e órgãos e instintos são os inesperados frutos do jardim da hipocrisia. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.158)
(...) a história dos sentimentos morais é muito diferente da história dos conceitos morais. Aqueles são poderosos antes da ação, estes depois da ação, em vista da necessidade de pronunciar-se sobre ela. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.33)
Com seus princípios, quer-se tiranizar ou justificar ou honrar ou insultar ou ocultar seus hábitos: – é provável que dois homens com princípios idênticos queiram com eles algo fundamentalmente diferente. (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 93)
Há uma desmedida alegria da bondade que se parece com maldade. (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 107)
Contra os caluniadores da natureza — Que seres desagradáveis estas pessoas em que toda tendência natural se torna rapidamente doença, algo deformante ou mesmo ignomínia! São elas que nos fazem acreditar que as inclinações naturais, os instintos do homem são maus; são elas a causa da nossa injustiça para com a nossa natureza, para com toda a natureza! Não faltam pessoas que teriam o direito de se abandonar às suas inclinações com graça, com despreocupação: mas não o fazem, com receio desta "má essência" imaginária da natureza! (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.152)
“Crítica da moral da décadence. – Uma moral "altruísta", uma moral em que o egoísmo definha, é, de qualquer maneira, um mau sinal. Isso vale para o indivíduo, isso vale sobretudo para povos. Falta o melhor quando começa a faltar egoísmo. Escolher instintivamente o que é danoso para si, ser atraído por motivos "desinteressados", é quase a fórmula da décadence. "Não buscar o seu benefício" — isso é apenas a folha de parreira moral que encobre um fato muito diferente, a saber, um fato fisiológico: "Não sei mais encontrar o meu benefício"... Desagregação dos instintos! — Quando o homem se torna altruísta, é o seu fim. — Em vez de dizer, ingenuamente, "Eu não valho mais nada", a mentira moral na boca do décadent diz: "Nada tem valor — a vida não vale nada"...” (NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos, 2010, p.103)
A vingança sobre o espirito e outros subentendidos da moral — A moral — onde acreditais que possa ter os seus mais perigosos e pérfidos advogados?... Eis aqui um homem que não teve bom êxito, que não tem espírito o bastante para dele se alegrar e que recebeu a cultura exata apenas para dar-se conta disso; aborrece-se, enjoa-se, despreza-se; privado, por uma pequena herança que recebeu, da última consolação, a "bênção do trabalho", do esquecimento de si na "tarefa cotidiana"; é um ser que, no fundo, tem vergonha da sua existência — talvez, ainda por cima, mantenha alguns pequenos vícios no fundo da alma; por outro lado, não pode impedir-se de se corromper cada vez mais, de se tornar cada vez mais irritável e vaidoso em virtude de leituras a que não tem direito, ou a frequências demasiado intelectuais para as suas capacidades digestivas: envenenado até à medula — pois para um malogrado desta natureza o espírito torna-se veneno, e veneno a cultura, a solidão e a higiene — prostra-se finalmente em um estado de rancor, em uma vontade crônica de se vingar... O que pensais que tenha necessidade, que tenha absolutamente necessidade para conservar diante dele mesmo uma aparência de superioridade sobre espíritos mais fortes do que o seu, para se dar, pelo menos em imaginação, a volúpia da vingança satisfeita? A moralidade, sempre ela; pode pôr-se a mão no fogo, precisa das grandes frases da moral, do grande tambor da justiça, da sabedoria, da santidade, da virtude; tem necessidade do estoicismo, da atitude (oh, estoicismo, como escondes bem o que não tem!...), precisa da capa do silêncio superior, da afabilidade, da suavidade, e outros envoltórios idealistas sob os quais vemos caminhar os contempladores incuráveis deles próprios, que são também os incuráveis vaidosos. Não me entendam mal: acontece, às vezes, que estes inimigos natos do espírito dão nascença às extraordinárias amostras humanas que o povo honra com o nome de santos e de sábios; são eles que produzem os monstros da moral que fazem barulho, que fazem história: um Santo Agostinho, por exemplo. (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.206)
(...) moralidade não é outra coisa (e, portanto, não mais!) do que obediência a costumes, não importa quais sejam; mas costumes são a maneira tradicional de agir e avaliar. Em coisas nas quais nenhuma tradição manda não existe moralidade; e quanto menos a vida é determinada pela tradição, tanto menor é o círculo da moralidade. O homem livre é não moral, porque em tudo quer depender de si, não de uma tradição: em todos os estados originais da humanidade, "mau" significa o mesmo que "individual", "livre", "arbitrário", "inusitado", "inaudito", "imprevisível". Sempre conforme o padrão desses estados originais: se uma ação é realizada não porque a tradição ordena, mas por outros motivos (a utilidade individual, por exemplo), mesmo por aqueles que então fundaram a tradição, ela é considerada imoral e assim tida mesmo por seu ator: pois não foi realizada em obediência à tradição. O que é a tradição? Uma autoridade superior, a que se obedece não porque ordena o que nos é útil, mas porque ordena. — O que distingue esse sentimento ante a tradição do sentimento do medo? Ele é o medo ante um intelecto superior que manda, ante um incompreensível poder indeterminado, ante algo mais do que pessoal — há superstição nesse medo. — Originalmente fazia parte do domínio da moralidade toda a educação e os cuidados da saúde, o casamento, as artes da cura, a guerra, a agricultura, a fala e o silêncio, o relacionamento de uns com os outros e com os deuses: ela exigia que alguém observasse os preceitos sem pensar em si como indivíduo. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.17)
“Em todas as épocas se quis "melhorar" os homens: isso, sobretudo, foi chamado de moral. (...) Chamar a domesticação de um animal de "melhoramento" soa aos nossos ouvidos quase como uma piada. Quem sabe o que acontece nas exposições de feras duvida que nelas a besta seja "melhorada". Ela é enfraquecida, tornada menos daninha, transformada numa besta doentia através do afeto depressivo do medo, através da dor, dos ferimentos, da fome. — Não é diferente com o homem domesticado que o sacerdote "melhorou"”. (NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos, 2010, p.60-61)
A moral ensina ao homem a ser função do rebanho, e a se atribuir valor somente como função. Uma vez que as condições de conservação eram muito diferentes de uma comunidade para outra, resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transformações essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades são ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haverá ainda morais muito divergentes. Moralidade é o instinto gregário no indivíduo. (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.111)
“... Não podemos hoje imaginar a degenerescência moral separada da degenerescência fisiológica: a primeira nada mais é que o conjunto de sintomas da segunda: somos necessariamente maus, como somos necessariamente doentes... Mau: a palavra exprime aqui certas incapacidades que são fisiologicamente ligadas ao tipo da degenerescência: por exemplo, a fraqueza da vontade, a incerteza e até a multiplicidade da "pessoa", a impotência para suprimir a reação a uma excitação qualquer e de "dominar-se", o constrangimento diante de toda espécie de sugestão de uma vontade estranha. O vício não é a causa; o vício é a consequência.”(NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.269)
“A moral religiosa — A emoção, o grande desejo, as paixões do poder, do amor, da vingança, da posse: os moralistas querem extingui-los, arrancá-los, para ‘purificar’ a alma.
É a mesma lógica que diz: ‘Se teu membro te escandaliza, arranca-o’.
Sua conclusão é sempre: somente o homem castrado pode tornar-se um homem bom.” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.306-307)
“A partir de todas as idiossincrasias [características peculiares] morais, vejo uma avaliação fundamentalmente diferente: não conheço essas separações absurdas entre o gênio e o mundo da vontade moral e imoral. O homem moral é de uma espécie inferior ao homem imoral, de uma espécie mais fraca; é um tipo segundo a moral, não é porém seu próprio tipo; é uma cópia, uma boa cópia ao rigor — a medida de seu valor reside fora dele. Estimo o homem pela quantidade de potência e pela plenitude de sua vontade; e não conforme o enfraquecimento e a purificação da vontade; considero uma filosofia que ensina a negação da vontade como uma doutrina de aviltamento e de calúnia... Julgo a potência de uma vontade segundo o grau de resistência, de dor, de tortura que ela suporta para convertê-las em seu favor; não censuro à existência seu caráter mau e doloroso, mas espero que esse caráter se tornará um dia mais mau e mais doloroso ainda...” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.475)
“O constrangimento da vontade era tido como o que dava ao ato valor superior: Deus era considerado então o autor...
Vem o contramovimento: o dos moralistas, sempre com o mesmo preconceito, o de crer que somos responsáveis pelos menores acontecimentos, se os quisermos. O valor do homem está fixado como valor moral: portanto, seu valor deve ser causa prima; logo, deve haver aí um princípio no homem, o "livre-arbítrio", que seria a causa prima. Há sempre a segunda intenção: se o homem não é a causa prima enquanto vontade, é irresponsável, consequentemente, não é da competência da moral. A virtude e o vício serão então automáticos e inconscientes.” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.266)
“O erro do livre-arbítrio. — (...) Em todo lugar onde se procura responsabilidades, costuma ser o instinto de querer punir e julgar que está a procura delas. O devir foi despido de sua inocência quando se busca explicar pela vontade, pelas intenções ou por atos de responsabilidade alguma maneira de ser: a doutrina da vontade foi inventada essencialmente com a finalidade de punir, ou seja, de querer encontrar culpados. (...) O cristianismo é uma metafísica de carrasco...
(...) Fomos nós que inventamos a noção de "finalidade": a finalidade está ausente da realidade... Somos necessários, somos um fragmento de destino, pertencemos ao todo, estamos no todo — não há nada que possa julgar, medir, comparar e condenar o nosso ser, pois isso significaria julgar, medir, comparar e condenar o todo... Mas não há nada fora do todo!” (NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos, 2010, p.57-59)
Há dois tipos de negadores da moralidade. — "Negar a moralidade" — isso pode significar, primeiro: negar que os motivos morais que as pessoas alegam tenham-nas realmente impelido a seus atos — ou seja, a afirmação de que a moralidade consiste em palavras e é parte dos embustes grosseiros ou sutis (embustes de si mesmo, em especial) dos seres humanos, e talvez principalmente dos mais famosos pela virtude. Depois pode significar: negar que os juízos morais repousem sobre verdades. Nesse caso se admite que são realmente motivos da ação, mas que, dessa forma, são os erros, fundamento de todo juízo moral, que impelem os indivíduos a suas ações morais. Este é o meu ponto de vista; mas seria o último a ignorar que em muitíssimos casos a sutil desconfiança do primeiro ponto de vista, ou seja, no espírito de La Rochefoucauld, é também justificada e, certamente, de grande utilidade geral. — Assim, nego a moralidade como nego a alquimia, ou seja, nego os seus pressupostos; mas não que tenha havido alquimistas que acreditaram nesses pressupostos e agiram de acordo com eles. — Também nego a imoralidade: não que inúmeras pessoas sintam-se imorais, mas que haja razão verdadeira para assim sentir-se. Não nego, como é evidente — a menos que eu seja um tolo —, que muitas ações consideradas imorais devem ser evitadas e combatidas; do mesmo modo, que muitas consideradas morais devem ser praticadas e promovidas — mas acho que, num caso e no outro, por razões outras que as de até agora. Temos que aprender a pensar de outra forma — para enfim, talvez bem mais tarde, alcançar ainda mais: sentir de outra forma. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.69-70)
O problema que com isso coloco não se refere ao que deve substituir a humanidade na sucessão dos seres (o homem é um final), mas ao tipo de homem que se deve cultivar, se deve querer como sendo o de mais alto valor, mais digno de vida, mais seguro de futuro.
Esse tipo de alto valor já existiu com bastante frequência: mas como um acaso feliz, uma exceção, jamais como algo desejado. Pelo contrário, precisamente ele foi o mais temido, foi até agora quase o temível; – e foi por temor que se quis, se cultivou, se alcançou o tipo contrário: o animal doméstico, o animal de rebanho, o animal doente homem – o cristão... (NIETZSCHE, O Anticristo, 2016, p.15)
domingo, 9 de abril de 2017
NIETZSCHE - VONTADE DE PODER
Trechos das obras sobre vontade de poder
“O prazer e o desprazer são simples
consequências, simples fenômenos secundários. O que o homem quer, o que a menor
parcela de organismo vivo quer, é um plus de potência. Na aspiração para um
fim, há tanto prazer quanto desprazer; daquela vontade o homem busca a
resistência, tem necessidade de algo que se lhe oponha... O desprazer,
obstáculo da vontade de potência, é, portanto, um fato normal, o ingrediente
normal de todo fenômeno orgânico; o homem não o evita, ao contrário, tem
contínua necessidade dele: qualquer vitória, qualquer sentimento de prazer,
qualquer acontecimento pressupõe uma resistência vencida. (...) O que chamamos
nutrição é simplesmente a
consequência, a aplicação dessa vontade primitiva de tornar-se mais forte.
Logo, o desprazer não é acompanhado de
uma diminuição de nosso sentimento de potência; tão de somenos é esse o caso que,
geralmente, trata-se de uma excitação dessa vontade de potência – o obstáculo é
o stimulus da vontade de potência.” (NIETZSCHE, Vontade de potência, 2011, p.388)
“Os fisiólogos deveriam refletir ao estabelecer o impulso de autoconservação com o impulso cardinal de um ser orgânico.
Algo que é vivo quer sobretudo dar vazão à sua força – a vida mesma é
vontade de poder –: a autoconservação é apenas uma das consequências indiretas e mais frequentes disso. (...)” (NIETZSCHE,
Além do bem e do mal, 2010, p. 35)
“Todo sentimento que leva a superação é ‘saudável’
e todo sentimento que retrai e faz querer destruir algo é ‘doentio’.
(...)
O prazer é um sentimento da potência: quando se excluem as paixões, excluem-se
as condições que provocam o sentimento de potência ao mais alto
grau, e consequentemente o prazer. A mais alta "razoabilidade" é um
estado frio e claro que está longe de provocar aquele sentimento
de felicidade que traz consigo toda espécie de embriaguez...” (NIETZSCHE, Vontade de potência, 2011, p.322)
“(...) o prazer é apenas um
sintoma do sentimento de que a potência foi atingida, é a percepção
de uma diferença (não se aspira ao prazer: este produz-se desde que se
atinge ao que se aspirava: o prazer acompanha, ele não põe em movimento);
que toda a força é vontade de potência, que não há outra força física,
dinâmica ou psíquica...”(NIETZSCHE, Vontade
de potência, 2011, p.386)
“Sobre a doutrina do sentimento de
poder — Ao fazer o bem e mal aos outros exercitamos o nosso poder sobre
eles — é, nesse caso, o que queremos! Fazemos mal a quem devemos fazer sentir
nosso poder, pois o sofrimento é um meio muito mais sensível, para esse fim, do
que o prazer: o sofrimento procura sempre a sua causa enquanto o prazer mostra
inclinação para se bastar a si próprio e a não olhar para trás. Ao fazer bem ou
ao desejarmos o bem exercemos o nosso poder sobre aqueles que, de alguma forma,
já estão na nossa dependência (quer dizer que se habituaram a pensar em nós
como suas causas); queremos aumentar o seu poder porque assim aumentamos o
nosso, ou queremos mostrar-lhes a vantagem que há em estar em nosso poder;
(...) mesmo se arriscarmos a nossa vida,
como o mártir [pessoa que sofreu torturas, ou mesmo morte, por não renunciar a qualquer
outra crença] pela sua igreja, é um sacrifício que fazemos à nossa
necessidade de poder, ou com a finalidade de conservar o nosso sentimento de
poder. Quando se sente profundamente que se "possui o verdadeiro",
quantas outras posses não se abandonariam para conservar este sentimento! O que
não se lança pela borda afora para continuar à superfície, ou seja, continuar
"por cima" daqueles que carecem da verdade! Indubitavelmente, é raro
que o estado que acompanha o gesto de fazer mal seja tão agradável, tão
puramente agradável, como aquele que acompanha o gesto de fazer bem; trata-se
de um sinal que revela que ainda nos falta poder ou que trai o nosso desgosto
diante desta pobreza, anunciando novos perigos e novas incertezas para o nosso
capital de poder, mantendo o nosso horizonte velado por perspectivas de
vingança, escárnio, punição, malogro. Somente para os homens mais irritáveis,
para pessoas mais ávidas do sentimento de poder, pode haver algum prazer em
imprimir ao recalcitrante [aquele que demonstra resistência em obedecer] o selo do seu domínio; para aqueles que só veem nisso
aborrecimento, é um desprazer o espetáculo de um ser já submetido (tornado
objeto de benevolência). Trata-se de saber como o homem acostumou-se a temperar
sua vida; é sempre uma questão de gosto: quer que o crescimento de poder
seja lento ou brusco, seguro ou perigoso e temerário? Procura-se esta ou aquela
especiaria conforme a inclinação do nosso temperamento. Uma presa fácil, para
as naturezas orgulhosas, é algo de desprezível; só experimentam um sentimento
de bem-estar diante de homens íntegros que poderiam tornar-se seus inimigos, e
diante de todas as posses dificilmente acessíveis; muitas vezes duras, para
aquele que sofre, porque não o julgam digno do seu esforço e da sua altivez,
mas mostram-se tanto mais corteses para com os seus semelhantes com os quais a
luta seria certamente honrosa, se aparecesse ocasião para isso. Foi sob o
efeito do sentimento de bem-estar que lhe dava esta perspectiva que os homens
da casta cavalheiresca se acostumaram a usar uns para com os outros de uma
delicadeza requintada. A piedade é o sentimento mais agradável para aqueles que
são pouco orgulhosos e que não têm possibilidades de fazer grandes conquistas:
a presa fácil — qualquer ser sofredor é presa fácil — é coisa que os encanta.
Louva-se a piedade como sendo a virtude das mulheres de vida alegre.
(NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.45-46)
“As
funções animais são mil vezes mais importantes que os belos estados de alma e
os ápices da consciência: estes últimos são um excedente enquanto não devem ser
instrumentos para essas funções animais. Toda a vida consciente, o
espírito assim como a alma e o coração, a bondade assim como a virtude, a
serviço de quem elas trabalham? A serviço de um aperfeiçoamento, tão
grande quanto possível, das funções animais essenciais (os meios de nutrição,
de aumento de energia): antes de tudo, a serviço do aumento
da vida.
O
que chamamos "corpo" e "carne" tem muito mais importância:
o resto é um pequeno acessório. Continuar a tecer a tela da vida, de maneira
que o fio se torne cada vez mais potente, eis a tarefa.
(...)
A consciência é simplesmente um meio;
os sentimentos agradáveis ou desagradáveis também não são mais
que meios! De acordo com que avaliamos objetivamente o valor? Somente de acordo
com a quantidade de potência aumentada e organizada.” (NIETZSCHE, Vontade
de potência, 2011, p.396)
“(...)
a vontade não é apenas um complexo de sentir e pensar, mas antes de tudo, ainda
um afeto (...). Um homem que quer – ordena a um algo em si que
obedece ou que ele acredita que obedece. (...) na medida em que no caso dado
somos ao mesmo tempo os mandantes e os obedecentes, e, como obedecentes,
conhecemos as sensações de coação, insistência, pressão, resistência, movimento,
que costumam iniciar imediatamente após
o ato de vontade; na medida em que por outro lado, temos o hábito de não
fazer caso, de nos enganar acerca dessa dualidade graças ao conceito sintético
‘eu’, prendeu-se ao querer ainda toda uma cadeia de
conclusões errôneas e, por conseguinte, de falsas valorações da própria
vontade — de tal modo que o querente [que quer] acredita de boa-fé que o querer basta para a ação. (...) a aparência se traduziu na sensação
de que aí haveria uma necessidade do efeito; em suma, o querente
acredita, com um razoável grau de certeza, que vontade e ação, de algum modo, são uma só coisa – ele atribui o êxito, a
execução do querer, à própria vontade, gozando com isso de um aumento daquela
sensação de poder que todo êxito traz consigo. ‘Livre-arbítrio’ – essa é a expressão para aquele multiforme estado de
prazer do querente que ordena e ao mesmo tempo se funde num só com o executante
– que, como tal, goza conjuntamente o triunfo
sobre as resistências, mas julga consigo mesmo que foi sua própria vontade que
verdadeiramente superou as resistências.” (NIETZSCHE, Além do bem e do mal,
2010, p. 40-41)
“O que é bom? – Tudo o que eleva a
sensação de poder, a vontade de poder, o próprio poder no homem.
O que é ruim? – Tudo o que provém da fraqueza.
O que é a felicidade? – A sensação de que o poder cresce, de que
uma resistência é superada.
Não o contentamento, porém mais poder; acima de tudo não a paz,
mas a guerra; não a virtude, mas a excelência (virtude no estilo da
Renascença, virtù, virtude sem moralina).
Os fracos e os malogrados [frustrado] devem sucumbir: primeira tese de nosso amor à humanidade. E ainda
devem ser ajudados nisso.
O que é mais danoso do que qualquer vício? - A compaixão ativa por
todos os malogrados e fracos – o cristianismo...” (NIETZSCHE, O Anticristo,
2016, p.14)
sábado, 14 de janeiro de 2017
Jean-Paul Sartre
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| Jean-Paul Sartre |
Trechos
da obra O EXISTENCIALISMO É UM HUMANISMO
(...) o que podemos desde já afirmar é que
concebemos o existencialismo como uma doutrina que torna a vida humana possível
e que, por outro lado, declara que toda verdade e toda ação implicam um meio e
uma subjetividade humana.
(...) a existência precede a essência, ou, se se preferir, que é necessário
partir da subjetividade. O que significa isso exatamente?
Consideremos um objeto fabricado, como, por
exemplo, um livro ou um corta-papel; (...) no caso do corta-papel, a essência — ou seja, o
conjunto das técnicas e das qualidades que permitem a sua produção e definição
— precede a existência; e desse modo, também, a presença de tal corta-papel ou
de tal livro na minha frente é determinada.
O homem, tal como o existencialista o concebe,
só não
é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente
será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo. Assim, não existe
natureza humana, já que não existe um Deus para concebê-la. O homem é
tão-somente, não apenas como ele se concebe, mas também como ele se quer; como
ele se concebe após a existência, como ele se quer após esse impulso para a
existência. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: é esse o
primeiro princípio do existencialismo. (...) o homem será apenas o que ele projetou ser. Não o que ele quis ser, pois
entendemos vulgarmente o querer como uma decisão consciente que, para quase
todos nós, é posterior àquilo que fizemos de nós mesmos. (...) Porém, se realmente a existência precede a essência, o homem é
responsável pelo que é. (...) Assim, quando
dizemos que o homem é responsável por si mesmo, não queremos dizer que o homem é
apenas responsável pela sua estrita individualidade, mas que ele é responsável
por todos os homens. (...) Subjetivismo significa, por um lado, escolha do
sujeito individual por si próprio e, por outro lado, impossibilidade em que o
homem se encontra de transpor os limites da subjetividade humana. É esse segundo
significado que constitui o sentido profundo do existencialismo. Ao afirmarmos
que o homem se escolhe a si mesmo, queremos dizer que cada um de nós se
escolhe, mas queremos dizer também que, escolhendo-se, ele escolhe todos os
homens. De fato, não há um único de nossos atos que, criando o homem que
queremos ser, não esteja criando, simultaneamente, uma imagem do homem tal
como julgamos que ele deva ser. Escolher ser isto ou aquilo é afirmar,
concomitantemente, o valor do que estamos escolhendo, pois não podemos nunca
escolher o mal; o que escolhemos é sempre o bem e nada
pode ser bom para nós sem o ser para todos. Se, por outro lado, a existência
precede a essência, e se nós queremos existir ao mesmo tempo que moldamos nossa
imagem, essa imagem é válida para todos e para toda a nossa, época. (...) Se eu
sou um operário e se escolho aderir a um sindicato cristão em vez de ser comunista,
e se, por essa adesão, quero significar que a resignação é, no fundo, a solução
mais adequada ao homem, que o reino do homem não é sobre a terra, não estou
apenas engajando a mim mesmo: quero resignar-me por todos e, portanto, a minha
decisão engaja toda a humanidade.
Tudo isso permite-nos compreender o que subjaz
a palavras um tanto grandiloquentes como angústia, desamparo, desespero. Como vocês poderão
constatar, é extremamente simples. Em primeiro lugar, como devemos entender a
angústia? O existencialista declara frequentemente que o homem é angústia. Tal
afirmação significa o seguinte: o homem que se engaja e que se dá conta de que
ele não é apenas aquele que escolheu ser, mas também um legislador que escolhe
simultaneamente a si mesmo e a humanidade inteira, não consegue escapar ao
sentimento de sua total e profunda responsabilidade. (...) devemos sempre perguntar-nos: o que aconteceria se todo mundo
fizesse como nós? e não podemos escapar a essa pergunta inquietante a não ser
através de uma espécie de má fé. Aquele que mente e que se desculpa dizendo:
nem todo mundo faz o mesmo, é alguém que não está em paz com sua consciência,
pois o fato de mentir implica um valor universal atribuído à mentira. (...) E cada homem deve perguntar a si próprio: sou eu,
realmente, aquele que tem o direito de agir de tal forma que os meus atos
sirvam de norma para toda a humanidade? E, se ele não fizer a si mesmo esta
pergunta, é porque estará mascarando sua angústia. Não se trata de uma
angústia que conduz ao quietismo, à inação. Trata-se de uma angústia simples,
que todos aqueles que um dia tiveram responsabilidades conhecem bem. Quando,
por exemplo, um chefe militar assume a responsabilidade de uma ofensiva e
envia para a morte certo número de homens, ele escolhe fazê-lo, e, no fundo,
escolhe sozinho. Certamente, algumas ordens vêm de cima, porém são abertas
demais e exigem uma interpretação; é dessa interpretação — responsabilidade sua
— que depende a vida de dez, catorze ou vinte homens. Não é possível que não
exista certa angustia na decisão tomada. Todos os chefes conhecem essa
angústia. Mas isso não os impede de agir, muito pelo contrário: é a própria
angústia que constitui a condição de sua ação, pois ela pressupõe que eles
encarem a pluralidade dos possíveis e que, ao escolher um caminho, eles se deem
conta de que ele não tem nenhum valor a não ser o de ter sido escolhido. (...) Não se trata de uma cortina entreposta entre nós e a ação, mas
parte constitutiva da própria ação.
Quando falamos de desamparo, expressão cara a Heidegger, queremos
simplesmente dizer que Deus não existe e que é necessário levar esse fato às
suas últimas consequências. (...) O
existencialista, pelo contrário, pensa que é extremamente incómodo que Deus não exista,
pois, junto com ele, desaparece toda e qualquer possibilidade de encontrar
valores num céu inteligível; não pode mais existir nenhum bem a priori, já
que não existe uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está
escrito em nenhum lugar que o bem existe, que devemos ser honestos, que não
devemos mentir, já que nos colocamos precisamente num plano em que só existem
homens. Dostoiévski escreveu: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido".
Eis o ponto de partida do existencialismo. De fato, tudo é permitido se Deus não existe, e, por conseguinte, o homem está desamparado porque não encontra nele próprio nem fora dele nada a que se agarrar. Para começar, não encontra desculpas. Com efeito, se a existência precede a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva; ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade.
Por outro lado, se Deus não existe, não
encontramos, já prontos, valores ou ordens que possam legitimar a nossa
conduta. Assim, não teremos nem atrás de nós, nem na nossa frente, no reino
luminoso dos valores, nenhuma justificativa e nenhuma desculpa. Estamos sós,
sem desculpas. É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a
ser livre. Condenado, porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto, é
livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz. O
existencialista não acredita no poder da paixão. Ele jamais admitirá que uma
bela paixão é uma corrente devastadora que conduz o homem, fatalmente, a
determinados atos, e que, consequentemente, é uma desculpa. Ele considera que o
homem é responsável por sua paixão. O existencialista não pensará nunca,
também, que o homem pode conseguir o auxílio de um sinal qualquer que o oriente
no mundo, pois considera que é o próprio homem quem decifra o sinal como bem
entende. Pensa, portanto, que o homem, sem apoio e sem ajuda, está condenado a
inventar o homem a cada instante.
Já que os valores são vagos e que eles são sempre amplos demais
para o caso preciso e concreto que consideramos, só nos resta confiar em nosso
instinto. Foi o que o jovem tentou fazer; (...) Mas como determinar o valor de um sentimento? (...) Posso dizer: amo minha
mãe o bastante para ficar junto dela; mas não posso determinar o valor dessa
afeição a não ser, precisamente, que eu pratique um ato que a confirme e a
defina. Ora, como eu desejo que esse afeto justifique os meus atos, acabo sendo
arrastado num círculo vicioso.
Por outro lado, Gide disse, e muito bem, que um
sentimento representado e um sentimento vivido são duas coisas quase
indiscerníveis: decidir que amo minha mãe ficando junto dela, ou representar
uma comédia que me levará a ficar, por causa de minha mãe, é mais ou menos a
mesma coisa. Por outras palavras: o sentimento constrói-se através dos atos
praticados; não posso, portanto, pedir-lhe que me guie. O que significa que não
posso nem procurar em mim mesmo a autenticidade que me impele a agir, nem
buscar numa moral os conceitos que me autorizam a agir. (...) Nenhuma moral geral poderá indicar-lhe o caminho a seguir; não existem
sinais no mundo. (...) O desamparo
implica que somos nós mesmos que escolhemos o nosso ser. Desamparo e angústia
caminham juntos. Quanto ao desespero, trata-se de um conceito extremamente
simples. Ele significa que só podemos contar com o que depende da nossa vontade
ou com o conjunto de probabilidades que tornam a nossa ação possível. Quando se
quer alguma coisa, há sempre elementos prováveis. (...) A partir do momento em que as possibilidades que estou
considerando não estão diretamente envolvidas em minha ação, é preferível
desinteressar-me delas, pois nenhum Deus, nenhum desígnio poderá adequar o
mundo e seus possíveis à minha vontade. No fundo, quando Descartes afirmava:
"É melhor vencermo-nos a nós mesmos do que ao mundo", ele queria
dizer a mesma coisa: agir sem esperança. (...) Isso significa que eu deva abandonar-me ao quietismo? De modo
algum. Primeiro, tenho que me engajar; em seguida, agir segundo a velha fórmula: "não é
preciso ter esperança para empreender". (...) O quietismo é a atitude daqueles que dizem: os outros podem fazer o que eu não
posso. A doutrina que lhes estou apresentando é justamente o contrário do
quietismo, visto que ela afirma: a realidade não existe a não ser na ação;
aliás, vai mais longe ainda, acrescentando: o homem nada mais é do que o seu
projeto; só existe na medida em que se realiza; não é nada além do conjunto de
seus atos, nada mais que sua vida. (...) para o existencialista, não existe amor senão aquele que se constrói; não
há possibilidade de amor senão a que se manifesta num amor; não há génio senão
aquele que se expressa em obras de arte: o génio de Proust é a totalidade das
obras de Proust; o génio de Racine é a série de tragédias que escreveu; para
além disso, não há nada. Por que atribuir a Racine a possibilidade de escrever
uma outra tragédia, se, justamente, ele não o fez? Um homem compromete-se com
sua vida, desenha seu rosto e para além desse rosto, não
existe nada. (...) todavia, quando se diz:
"tu nada mais és do que tua vida", isso não implica que o artista seja julgado unicamente por suas obras de arte; mil outras coisas
contribuem igualmente para defini-lo. O que queremos dizer é que um homem nada mais é do que uma série de empreendimentos, que ele é a soma, a
organização, o conjunto das relações que constituem esses empreendimentos.
Não existe temperamento covarde; existem temperamentos nervosos,
existem pessoas que têm "sangue fraco" como diz o povo, ou
temperamentos ricos; mas o homem que tem sangue fraco nem por isso é um
covarde, pois o que cria a covardia é o ato de renunciar ou de ceder: um
temperamento não é um ato e o covarde se define pelos atos que pratica. (...) O que o existencialista afirma é que o covarde se faz
covarde, que o herói se faz herói; existe sempre, para o covarde, uma
possibilidade de não mais ser covarde, e, para o herói, de deixar de o ser.
(...)
o existencialismo diz-lhe que a única esperança está em
sua ação e que só o ato permite ao homem viver.
Nós desejamos, precisamente, estabelecer o reino humano como um
conjunto de valores distintos dos do reino material. (...) Através do penso, contrariamente à filosofia de Descartes,
contrariamente à filosofia de Kant, nós nos apreendemos a nós mesmos perante o
outro, e o outro é tão verdadeiro para nós quanto nós mesmos. Assim, o homem
que se alcança diretamente pelo cogito descobre também todos os outros,
e descobre-os como sendo a própria condição de sua existência. Ele se dá conta
de que só pode ser alguma coisa (no sentido em que se diz que alguém é
espirituoso, ou é mau ou é ciumento) se os outros o reconhecerem como tal. Para
obter qualquer verdade sobre mim, é necessário que eu considere o outro. O
outro é indispensável à minha existência tanto quanto, aliás, ao conhecimento
que tenho de mim mesmo. Nessas condições, a descoberta da minha intimidade
desvenda-me, simultaneamente, a existência do outro como uma liberdade
colocada na minha frente, que só pensa e só quer ou a favor ou contra mim.
Desse modo, descobrimos imediatamente um mundo a que chamaremos de
intersubjetividade e é nesse mundo que o homem decide o que ele é e o que são
os outros.
Além disso, se bem que seja impossível encontrar
em cada homem uma essência universal que seria a natureza humana, consideramos
que exista uma universalidade humana de condição. (...) As situações históricas variam: o homem pode nascer escravo numa sociedade
pagã ou senhor feudal ou proletário. O que não muda é o fato de que, para ele,
é sempre necessário estar no mundo, trabalhar, conviver com os outros e ser
mortal. Tais limites não são nem subjetivos nem objetivos; ou, mais exatamente,
têm uma face objetiva e uma face subjetiva. São objetivos na medida em que
podem ser encontrados em qualquer lugar e são sempre reconhecíveis; são
subjetivos porque são vividos e nada são se o homem os não viver, ou
seja, se o homem não se determinar livremente na sua existência em relação a
eles. (...) cada um de nós é absoluto
respirando, comendo, dormindo ou agindo de um modo qualquer. Não existe
diferença alguma entre ser livremente, ser como projeto, como existência que
escolhe a sua essência, e ser absoluto; não existe nenhuma diferença entre ser
um absoluto temporariamente situado, ou seja, que se localizou na história, e
ser universalmente compreensível.
A escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher.
Eu posso sempre escolher mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim
mesmo estarei escolhendo. (...) o homem
encontra-se numa situação organizada, com a qual está engajado; pela sua escolha (...) Digamos antes que devemos comparar a escolha moral à construção de uma obra
de arte. E, aqui, precisamos fazer uma pausa para esclarecer que não se trata
de uma moral estética, pois a má fé de nossos adversários é tanta que até disso
nos acusam. O exemplo que escolhi não passa de uma comparação. Esclarecido esse
ponto, perguntamos: alguma vez se acusou um artista que faz um quadro de ele
não se inspirar em regras estabelecidas a priori? Alguém, alguma vez, lhe indicou que quadro deveria
fazer? É evidente que não existe nenhum quadro definido que deva ser feito; o
artista engaja-se na construção do seu quadro e o quadro que deve ser feito é,
precisamente, o quadro que ele tiver feito. Sabemos que não existem valores
estéticos a priori; contudo, existem valores que se tornam visíveis,
posteriormente, na própria coerência do quadro, nas relações que existem entre
a vontade de criação e o resultado. Ninguém pode prever como será a pintura de
amanhã; não se pode julgar a pintura a não ser que esteja feita. Qual a relação
de tudo isso com a moral? Trata-se da mesma situação criadora. Nunca falamos
na gratuidade de uma obra de arte. Quando nos referimos a uma tela de Picasso,
nunca dizemos que ela é gratuita; compreendemos perfeitamente que ele se
construiu a si mesmo, tal qual é, ao mesmo tempo que pintava, que o conjunto
de sua obra se incorpora à sua vida.
O mesmo acontece no plano moral. O que há em comum entre a arte
e a moral é que, nos dois casos, existe criação e invenção. Não podemos decidir
a priori o que devemos fazer.
(...) algumas escolhas estão fundamentadas no erro
e outras na verdade. Podemos julgar um homem dizendo que ele tem má fé. Tendo
definido a situação do homem como uma escolha livre, sem desculpas e sem
auxílio, consideramos que todo homem que se refugia por trás da desculpa de
suas paixões, todo homem que inventa um determinismo, é um homem de má fé. É
possível objetar o seguinte: por que razão ele não poderia escolher-se como um
homem de má fé? E eu respondo que não tenho que julgá-lo moralmente, mas defino
a sua má fé como um erro. Não podemos escapar, aqui, a um juízo de verdade.
(...) Alguém pode perguntar-me: e
se eu quiser ser um homem de má fé? Eu responderei: não há motivo algum para
que você não possa sê-lo, mas declaro que você tem má fé e que a atitude de
estrita coerência é a atitude de boa-fé. Além disso, posso fazer um juízo
moral. Quando declaro que a liberdade, através de cada circunstância concreta,
não pode ter outro objetivo senão o de querer-se a si própria, quero dizer que,
se alguma vez o homem reconhecer que está estabelecendo valores, em seu
desamparo, ele não poderá mais desejar outra coisa a não ser a liberdade como
fundamento de todos os valores. Isso não significa que ele a deseja
abstratamente. Mas, simplesmente, que os atos dos homens de boa fé possuem como
derradeiro significado a procura da liberdade enquanto tal. Um homem que adere
a um sindicato comunista ou revolucionário quer alcançar objetivos concretos;
tais objetivos implicam uma vontade abstrata de liberdade; porém, essa
liberdade é desejada em função de uma situação concreta. Queremos a liberdade
através de cada circunstância particular. E, querendo a liberdade, descobrimos
que ela depende integralmente da liberdade dos outros, e que a liberdade dos
outros depende da nossa. (...) Posso, portanto,
formar juízos sobre aqueles que pretendem ocultar a si mesmos a total
gratuidade de sua existência e sua total liberdade, em nome dessa vontade de
liberdade implicada pela própria liberdade. (...) A única coisa que importa é saber se a invenção que se faz se faz
em nome da liberdade.
Antes de alguém viver, a vida, em si mesma, não é nada; é quem a vive que deve
dar-lhe um sentido; e o valor nada mais é do que esse sentido escolhido. (...) a palavra humanismo tem dois significados muito diferentes.
Podemos considerar como humanismo uma teoria que toma o homem como meta e como
valor superior. (...) O que supõe que podemos atribuir um valor ao homem em função dos atos mais
elevados de certos homens. (...) O existencialismo
dispensa-o de todo e qualquer juízo desse tipo: o existencialismo não colocará nunca o homem como
meta, pois ele está sempre por fazer. E não devemos acreditar que existe uma
humanidade à qual possamos nos devotar, tal como fez Auguste Comte. O culto da
humanidade conduz a um humanismo fechado sobre si mesmo, como o de Comte, e,
temos de admiti-lo, ao fascismo. Este é um humanismo que recusamos.
Existe, porém, outro sentido para o
humanismo, que é, no fundo, o seguinte: o homem está constantemente fora de si
mesmo; é projetando-se e perdendo-se fora de si que ele faz com que o homem
exista; por outro lado, é perseguindo objetivos transcendentes que ele pode
existir; sendo o homem essa superação e não se apoderando dos objetos senão em
relação a ela, ele se situa no âmago, no centro dessa superação. Não existe
outro universo além do universo humano, o universo da subjetividade humana. É a
esse vínculo entre a transcendência, como elemento constitutivo do homem (não
no sentido em que Deus é transcendente, mas no sentido de superação), e a subjetividade
(na medida em que o homem não está fechado em si mesmo, mas sempre presente
num universo humano) que chamamos humanismo existencialista. Humanismo, porque
recordamos ao homem que não existe outro
legislador a não ser ele próprio e que é no desamparo que ele decidirá sobre si
mesmo; e porque mostramos que não é voltando-se para si mesmo mas procurando
sempre uma meta fora de si.
O existencialismo não é tanto um ateísmo no
sentido em que se esforçaria por demonstrar que Deus não existe. Ele declara,
mais exatamente: mesmo que Deus existisse, nada mudaria; eis nosso ponto de
vista. Não que acreditemos que Deus exista, mas pensamos que o problema não é o
de sua existência; é preciso que o homem se reencontre e se convença de que
nada pode salvá-lo dele próprio, nem mesmo uma prova válida da existência de
Deus.
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
MAQUIAVEL
CAPÍTULO XVII
Da crueldade e da piedade e se é melhor ser amado ou temido
(...) cada Príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não
como cruel: apesar disso, deve cuidar de empregar convenientemente essa
piedade. (...) Não deve, portanto, importar ao Príncipe a qualificação de
cruel para manter seus súditos unidos e leais, porque, com raras exceções, é
ele mais piedoso do que aqueles que por muita clemência deixam acontecer
desordens, das quais podem nascer assassínios ou rapinagem.
(...) será melhor ser amado que temido ou vice-versa.
Responder-se-á que se desejaria ser uma e outra coisa; mas como é difícil
reunir ao mesmo tempo as qualidades que dão aqueles resultados, é muito mais
seguro ser temido que amado, quando se tenha de falhar em uma das duas. E que
os homens geralmente são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ambiciosos
de dinheiro, e, enquanto lhes fizeres bem, todos estarão contigo, oferecendo-te
sangue, bens, vida, filhos, como disse acima, desde que a necessidade esteja
longe de ti. Mas, quando ela se avizinha, voltam-se para outra parte. E o
Príncipe, que se confiou plenamente em palavras e não tomou outras precauções,
está arruinado. Pois as amizades conquistadas por interesse, e não por grandeza
e nobreza de caráter, são compradas, mas não se pode contar com elas no momento
necessário. E os homens hesitam menos em ofender aos que se fazem amar do que
aos que se fazem temer, porque o amor é mantido por um vínculo de obrigação, o
qual, em virtude de serem os homens maus, é rompido sempre que lhe aprouver, ao
passo que o temor que se infunde é alimentado pelo receio de castigo, que é um
sentimento que não se abandona nunca. Deve, portanto, o Príncipe fazer-se temer
de maneira que, se não se fizer amado, pelo menos evite o ódio, pois é fácil
ser ao mesmo tempo temido e não odiado, o que sucederá uma vez que se abstenha
de se apoderar dos bens e das mulheres de seus cidadãos e de seus súditos, e,
mesmo sendo obrigado a atingir a família de alguém, poderá fazê-lo quando
houver justificativa conveniente e causa manifesta. Deve, sobretudo, abster-se
de se aproveitar dos bens dos outros, porque os homens esquecem mais depressa a
morte do pai do que a perda de seu patrimônio.
Mas quando o Príncipe está em campanha e tem sob seu comando
grande número de soldados, então é absolutamente necessário não se importar com
a fama de cruel, porque, sem ela, não se conseguiria nunca manter um exército
unido e disposto a qualquer ação.
CAPÍTULO XVIII
De que forma os
Príncipes devem manter a palavra
Todos compreendem o quanto seja louvável a um Príncipe
manter a palavra e viver com integridade, não com astúcia; contudo, observa-se,
pela experiência, em nosso tempo, que houve Príncipes que fizeram grandes
coisas, mas em pouca conta tiveram a palavra dada, e souberam, pela astúcia,
iludir os homens, superando, enfim, os que foram leais.
(...) um Príncipe prudente não pode nem deve guardar a
palavra dada quando isso se lhe torne prejudicial e quando as causas que o
determinaram cessem de existir. Se os homens todos fossem bons, esse preceito
seria mau. Mas, dado que são maus e que não a observariam a teu respeito,
também não és obrigado a cumpri-la para com eles. Jamais faltaram aos Príncipes
razões legítimas para dissimular o descumprimento da palavra empenhada.
(...) É que os homens, em geral, julgam mais pelos olhos do que
pelas mãos, pois todos podem ver, mas poucos são os que sabem sentir. Todos
veem o que tu pareces, mas poucos o que és realmente, e estes poucos não têm a
audácia de contrariar a opinião dos que têm por si a majestade do Estado. Nas
ações de todos os homens, principalmente dos Príncipes, onde não há tribunal
para recorrer, o que importa são os fins. Procure, pois, um Príncipe, vencer e
conservar o Estado. Os meios que empregar serão sempre julgados honrosos e
louvados por todos, porque o vulgo é levado pelas aparências e pelos resultados
dos fatos consumados, e o mundo é constituído pelo vulgo, e não haverá lugar
para a minoria se a maioria tem onde se apoiar.
CAPÍTULO XXV
De quanto pode a
fortuna nas coisas humanas e de que modo se deve resistir-lhe
Não me é desconhecido que muitos têm tido e têm a opinião de que
as coisas do mundo são governadas pela fortuna e por Deus, de sorte que a
prudência dos homens não pode corrigi-las, e mesmo não lhes traz remédio algum.
Por isso, poder-se-ia julgar que não deve alguém incomodar-se muito com elas,
mas deixar-se governar pela sorte. Essa opinião é grandemente
aceita em nosso tempo pela grande variação das coisas, o que se vê todo dia,
fora de toda conjetura humana. Às vezes, pensando nisso, tenho me inclinado a
aceitá-la. Não obstante, e para que nosso livre-arbítrio não desapareça, penso
poder ser verdade que a fortuna seja arbitra de metade de nossas ações, mas
que, ainda assim, ela nos deixe governar quase a outra metade. Comparo-a a um
desses rios impetuosos que, quando se encolerizam, alagam as planícies,
destroem as árvores, os edifícios, arrastam montes de terra de um lugar para
outro: tudo foge diante dele, tudo cede a seu ímpeto, sem poder obstar-lhe. E,
se bem que as coisas se passem assim, não é menos verdade que os homens, quando
volta a calma, podem fazer reparos e barragens, de modo que, em outra cheia,
aqueles rios correrão por um canal, e seu ímpeto não será tão livre nem tão
danoso. Do mesmo modo acontece com a fortuna; seu poder é manifesto onde não
existe resistência organizada, dirigindo ela sua violência só para onde não se
fizeram diques e reparos para contê-la.
(...) um Príncipe se apoia totalmente na fortuna,
arruína-se segundo as variações daquela. Também julgo feliz aquele que combina
seu modo de proceder com as particularidades dos tempos, e infeliz o que faz
discordar dos tempos sua maneira de proceder. (...) tendo alguém
prosperado em um caminho, não pode resignar-se a abandoná-lo. Ora, o homem
circunspecto, quando chega a ocasião de ser impetuoso, não o sabe ser, e por
isso se arruína, porque, se mudasse de natureza, conforme o tempo e as coisas,
não mudaria de sorte.
(...) Estou convencido de que é melhor ser impetuoso
do que circunspecto, porque a sorte é mulher e, para dominá-la, é preciso
bater-lhe e contrariá-la. E é geralmente reconhecido que ela se deixa dominar
mais por estes do que por aqueles que procedem friamente. A sorte, como mulher,
é sempre amiga dos jovens, porque são menos circunspectos, mais ferozes e com
maior audácia a dominam.
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