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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018
segunda-feira, 15 de maio de 2017
NIETZSCHE – SOBRE FELICIDADE
TRECHOS DA OBRA DE NIETZSCHE –
SOBRE FELICIDADE
Sofrimento
(...) o estreito caminho do
nosso próprio céu passa sempre pela volúpia do nosso próprio inferno.
(...) felicidade e desgraça são duas irmãs gêmeas
que crescem ao mesmo tempo ou, como sucede convosco, que ao mesmo tempo ficam
pequenas! (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.176)
371 — Nós, os
incompreensíveis — Reclamamos, alguma vez, de sermos mal compreendidos,
desconhecidos, confundidos, caluniados, mal ouvidos ou ignorados? Eis nosso
destino — e por muito tempo ainda!, digamos, a nossa modéstia, até o ano de
1901 — é também o nosso título de honra; não nos daríamos um respeito
considerável se desejássemos introduzir alguma modificação no caso.
Confundem-nos com outros: é que crescemos, é que não paramos de mudar, de fazer
estalar velhas cascas, de criar pele nova em todas as primaveras, de nos
tornarmos incessantemente mais novos, mais futuros, mais altos e mais fortes, e
de enterrar mais fortemente as nossas raízes nas profundezas — no mal — ao
mesmo tempo em que abraçamos o céu de uma forma mais apaixonada, mais vasta, e
aspiramos à sua luz — com todos os nossos ramos, com todas as nossas folhas —
mais avidamente. Crescemos como a árvore cresce — algo difícil de compreender,
como toda e qualquer vida! — não cresceremos apenas em um só lugar, mas por
todos os lados, não em um sentido, mas em todos ao mesmo tempo, em cima, em
baixo, dentro, fora, a nossa força cresce ao mesmo tempo no tronco, nos ramos e
nas raízes, já não temos liberdade de fazer nada separadamente, de ser nada
separadamente... Assim é o nosso destino, como já disse: crescemos até às
alturas e, mesmo admitindo que talvez seja para nossa desgraça — pois nos
aproximamos sempre mais dos raios! — nem assim deixamos de tirar a glória
disso; é apesar de tudo um destino que não partilhamos, que não queremos
partilhar, é o destino das alturas, nossa fatalidade... (NIETZSCHE, A Gaia
Ciência, 2012, p.219)
Amor fati
(...) vou dizer qual é o pensamento que
deve tornar-se a razão, a garantia e a doçura de toda a existência que ainda
terei! Desejo aprender cada vez mais a ver o belo na
necessidade das coisas: é assim que serei sempre daqueles que tornam as coisas belas. Amor
fati (amor ao destino): seja assim, de agora em diante, o meu amor. Não
pretendo fazer a guerra ao que é feio. Não pretendo acusar, nem mesmo os
acusadores. Desviarei o meu olhar, será essa, de agora em diante, a minha única
negação! E, em uma palavra, portanto: não quero, a partir de hoje, ser outra
coisa senão uma pessoa que diz Sim! (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012,
p.142-143)
A vida de todos os dias, de todas as horas, parece apenas que
procura nos provar sem cessar essa tese; seja como for, bom ou mau tempo, perda
de amigos, doença, calúnia, carta que não chega, esfoladela, simples olhar que se
lança a uma loja, argumento que outra pessoa vos opõe, livro que se abre,
sonho, duplicidade... tudo, tudo se revela a breve prazo ou imediatamente como
uma dessas coisas que "tinha de acontecer"... tudo está carregado de
um sentido, profundo, de uma profunda utilidade; e isso precisamente para nós!
(...) Não pensemos também muito
bem da destreza da nossa sabedoria se nos acontece, por momentos, ser
surpreendidos pela maravilhosa harmonia que nasce do toque do nosso
instrumento, demasiado bela para que ousemos atribuir-nos o seu mérito. Alguém vem, com efeito, às vezes, tocar conosco...é o nosso querido acaso: guia-nos as
mãos fortuitamente, e a mais sábia providência não poderia imaginar mais bela
música do que esta que nasce então sob a nossa louca mão. (NIETZSCHE, A Gaia
Ciência, 2012, p.143-144)
Eterno retorno
341 — O peso mais pesado —
E se um dia ou uma noite, um demônio se introduzisse na tua suprema solidão e
te dissesse: "Esta existência, tal como a levas e a levaste até aqui,
vai-te ser necessário recomeçá-la sem cessar, sem nada de novo, ao contrário, a
menor dor, o menor prazer, o menor pensamento, o menor suspiro, tudo o que
pertence à vida voltará ainda a repetir-se, tudo o que nela há de
indizivelmente grande ou pequeno, tudo voltará a acontecer, e voltará a
verificar-se na mesma ordem, seguindo a mesma impiedosa sucessão, esta aranha
também voltará a aparecer, este lugar entre as árvores, e este instante, e eu
também! A eterna ampulheta da vida será invertida sem descanso, e tu com ela,
ínfima poeira das poeiras!"... Não te lançarias por terra, rangendo os
dentes e amaldiçoando esse demônio? Ou já vivestes um instante prodigioso, e
então lhe responderias: "Tu és um deus; nunca ouvi palavras tão
divinas!". Caso este pensamento te dominasse, talvez te transformasse e
talvez te aniquilasse; perguntarias a propósito de tudo: "Queres isto
outra vez e por repetidas vezes, até o infinito?". E pesaria sobre tuas ações
com um peso decisivo e terrível! Ou então, como seria necessário que amasse a
ti mesmo e que amasse a vida para nunca mais desejar nada além dessa suprema
confirmação! (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.179)
Quem,
semelhante a mim, com algum desejo enigmático, se esforçou longamente por
pensar a fundo o pessimismo e salvá-lo da estreiteza e da simplicidade meio
cristã (...); quem realmente olhou ao menos uma vez um olho asiático e mais que
asiático para o interior e para o fundo desse modo de pensar que, dentre todos
os modos de pensar possíveis, é o que mais nega o mundo – além do bem e do mal,
e não mais, como Buda e Schopenhauer, sob o encanto e na ilusão da moral –,
essa talvez tenha, precisamente com isso, sem que propriamente o quisesse,
aberto os olhos para o ideal contrário: para o ideal do homem mais pleno de alegria,
mais vivo mais afirmador do mundo, que não somente aprendeu a contentar-se e
suportar aquilo que foi e que é, mas que o quer novamente tal como foi e é, por toda a eternidade, exclamando insaciavelmente
da capo [do início], não apenas para si, mas para a peça e o espetáculo inteiros, e não
somente para um espetáculo, mas no fundo para aquele que justamente precisa
desse espetáculo – e faz com que ele seja preciso: pois ele sempre
precisa de si outra vez – e faz com que seja
preciso — O quê? E isto não seria – circulus vitiosus [círculo vicioso] deus? (NIETZSCHE,
Além do bem e do mal, 2010, p. 81)
Felicidade
Algumas teses. — Ao indivíduo, enquanto
busca sua felicidade, não se deve dar prescrições sobre o caminho para a
felicidade: pois a felicidade individual brota de leis próprias, desconhecidas
de todos, e preceitos externos podem apenas inibi-la, impedi-la. — Os preceitos
chamados de "morais" são, na verdade, dirigidos contra os indivíduos,
e não querem absolutamente a sua felicidade. Tampouco referem-se eles à
"felicidade e bem-estar da humanidade" — palavras a que não é
possível ligar conceitos rigorosos, e menos ainda usar como estrelas-guia no
escuro oceano dos empenhos morais. — Não é verdade que a moralidade, como quer
o preconceito, seja mais propícia ao desenvolvimento da razão que a
imoralidade. — Não é verdade que o objetivo inconsciente, no
desenvolvimento de todo ser consciente (bicho, homem, humanidade, etc.), seja
sua "felicidade suprema": trata-se antes de alcançar, em todos os
estágios do desenvolvimento, uma felicidade particular e incomparável, nem
superior nem inferior, mas simplesmente peculiar. Desenvolvimento não busca
felicidade, mas desenvolvimento e nada mais. — Apenas se a humanidade tivesse
um objetivo geralmente reconhecido poderia alguém propor: "De tal e
tal modo deve-se agir"; atualmente não há esse objetivo. Logo, não
se deve relacionar as exigências da moral à humanidade, o que é insensatez e
diversão. — Recomendar à humanidade um objetivo é algo bem diferente:
então ele é concebido como algo que está ao nosso bel-prazer; supondo
que agradasse à humanidade a proposta, ela poderia então dar-se uma lei
moral, igualmente a partir de seu bel-prazer. Mas até agora a lei moral devia
estar acima do bel-prazer: não queríamos propriamente dar-nos essa
lei, e sim toma-la de alguma parte, ou achá-la em algum lugar, ou
deixá-la impor-se de alguma parte. (NIETZSCHE,
Aurora, 2016, p.73)
Louvor e censura. — Se uma guerra tem
desenlace infeliz, pergunta-se pelo "culpado" da guerra; se termina
com vitória, elogia-se quem a instigou. Sempre é buscada a culpa quando há um
fracasso, pois este traz consigo um mau humor a que se aplica automaticamente um
único remédio: uma nova excitação do sentimento de poder — e esta se
acha na condenação do "culpado". Esse culpado não é um bode
expiatório da culpa de outros: é a vítima dos fracos, humilhados, abatidos, que
de algum modo querem provar a si mesmos que ainda têm força. Também condenar a
si próprio pode ser um meio de readquirir o sentimento de força após a derrota.
— Já a glorificação do instigador é, com frequência, o resultado
igualmente cego de outro impulso que procura sua vítima — e desta vez o
sacrifício é doce e convidativo até para a vítima —: quando o sentimento de
poder de um povo, uma sociedade, está saturado em virtude de um grande,
fascinante êxito, e sobrevêm um cansaço do triunfo, uma parte do
orgulho é abandonada; avulta o sentimento da devoção, que busca seu
objeto. — Ao sermos louvados ou censurados, nisto somos
geralmente oportunidades, e com frequência oportunidades agarradas
arbitrariamente, para nossos próximos descarregarem o impulso de louvor ou
censura neles acumulado: nos dois casos lhes prestamos um benefício, no qual
não temos mérito e pelo qual não têm gratidão. (NIETZSCHE,
Aurora, 2016, p.101-102)
NIETZSCHE – SOBRE A MORAL
TRECHOS DAS OBRAS DE NIETZSCHE – SOBRE A MORAL
Não há quaisquer fenômenos morais, mas apenas uma interpretação moral de fenômenos..... (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 97)
“(..) a história da luta da moral contra os instintos fundamentais da vida é a maior imoralidade que até hoje existiu sobre a terra...” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.274)
Chamo um animal, uma espécie, um indivíduo de corrompidos quando eles perdem os seus instintos, quando escolhem, quando preferem o que lhes é prejudicial. Uma história dos "sentimentos superiores", dos "ideais da humanidade" – e é possível que eu tenha de narrá-la – também seria quase a explicação de por que o homem está tão corrompido.
Considero a própria vida como instinto de crescimento, de duração, de acumulação de forças, como instinto para o poder, onde falta a vontade de poder, ocorre declínio. Minha tese é a de que todos os valores supremos da humanidade carecem dessa vontade – que sob os nomes mais sagrados há valores de declínio, valores niilistas no comando. (NIETZSCHE, O Anticristo, 2016, p.18)
Os animais e a moral — As práticas que são requeridas na sociedade refinada: evitar cuidadosamente o ridículo, o chamativo, o pretensioso, relegar tanto suas virtudes como suas veementes cobiças, mostrar-se como igual, inserir-se, diminuir-se — tudo isso que é a moral social encontra-se, grosso modo, em toda parte, até na profundeza do mundo animal, — e apenas nessa profundeza enxergamos a intenção por trás dessas gentis precauções: quer-se escapar aos perseguidores e ser favorecido na busca da presa. Por isso os animais aprendem a se dominar e a dissimular de tal modo que alguns, por exemplo, adéquam suas cores à cor do ambiente (mediante a chamada "função cromática"), fazem-se de mortos ou assumem as formas e cores de outro animal ou de areia, folhas, liquens, fungos (aquilo que os pesquisadores ingleses designam por mimicry [mimetismo]). Dessa maneira o indivíduo se esconde na generalidade do conceito "homem" ou na sociedade, ou se adéqua a governantes, classes, partidos, opiniões da época ou do ambiente: e para todas as sutis maneiras de nos pormos felizes, gratos, fortes, enamorados, encontra-se facilmente o símile animal. Também o sentido para a verdade, que é, no fundo, o sentido para a segurança, o homem tem em comum com os animais: não queremos nos deixar enganar, não queremos induzir a nós próprios em erro, ouvimos desconfiados a conversa de nossas próprias paixões, contemo-nos e ficamos à espreita de nós mesmos; tudo isso o animal entende como o homem, também nele o autodomínio nasce do sentido para o real (da prudência). E igualmente observa os efeitos que produz na noção que têm os outros animais, aprende a olhar de volta para si a partir dela, a apreender-se "objetivamente", tem seu grau de autoconhecimento. O animal julga os movimentos de seus rivais e amigos, memoriza as peculiaridades deles, orienta-se por elas: no tocante a indivíduos de determinada espécie renuncia definitivamente à luta, e também percebe, na aproximação de algumas variedades de animais, a intenção de paz e de acordo. Os primórdios da justiça, assim como da prudência, da moderação, da valentia — em suma, tudo aquilo que designamos pelo nome de virtudes socráticas é animal: uma consequência dos impulsos que ensinam a procurar alimento e escapar aos inimigos. Se considerarmos que também o homem superior apenas se elevou e refinou no tipo da alimentação e na ideia do que lhe é hostil, será lícito caracterizar todo o fenômeno da moral como animal. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.28-29)
Durante a mais longa época da história humana – a chamada época pré-histórica –, o valor ou o desvalor de uma ação era derivado de suas consequências (...) Chamamos esse período de período pré-moral da humanidade: o imperativo ‘conhece-te a ti mesmo!’ ainda era desconhecido naquele tempo. Nos dez últimos milênios, entretanto, em algumas grandes regiões da Terra se chegou passo a passo ao ponto de deixar a origem da ação, e não mais as consequências, decidir acerca de seu valor (...) a origem de uma ação foi interpretada no mais preciso sentido de origem a partir de uma intenção; chegou-se à crença unânime de que o valor de uma ação reside no valor de sua intenção. A intenção como a inteira origem e pré-história de uma ação: sob este preconceito se louvou, repreendeu, condenou e também se filosofou moralmente sobre a Terra quase até a época moderna. – Não teríamos hoje, porém, chegado à necessidade de mais uma vez nos decidirmos acerca de uma inversão e de um deslocamento radical dos valores, graças a uma repetida autorreflexão e aprofundamento do homem – não estaríamos no limiar de um período que, negativamente, poderia ser designado em primeiro lugar de extramoral: hoje, quando pelo menos entre nós, imoralistas, se faz sentir a suspeita de que precisamente naquilo que não é intencional numa ação reside o seu valor decisivo, e de que toda a sua intencionalidade, tudo que dela pode ser visto, sabido, ‘conhecido’, ainda pertence à sua superfície e epiderme – a qual, como toda epiderme, revela algo, mas oculta muito mais? Em suma, acreditamos que a intenção é apenas um sinal e um sintoma que primeiro precisa de interpretação, um sinal, além disso, que significa coisas demais e, por conseguinte, não significa quase nada por si mesmo – que a moral, no sentido em que ela foi entendida até agora, portanto, como moral de intenções, foi um preconceito, uma precipitação, uma provisoriedade talvez, uma coisa mais ou menos da categoria e da alquimia, mas em todo caso algo que precisa ser superado. (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 57-58-59)
A refinada crueldade como virtude. — Eis uma moralidade que se baseia inteiramente no impulso para a distinção — não pensem muito bem dela! Pois que impulso é esse e qual o pensamento por trás dele? Queremos que a nossa simples vista cause dor ao outro e desperte sua inveja, o sentimento de impotência e de declínio; queremos fazê-lo saborear a amargura de seu fado, ao deixar-lhe na língua uma gota de nosso mel e fixá-lo nos olhos agudamente e com maldosa alegria, ante o suposto benefício. Esse tornou-se humilde e perfeito em sua humildade — procurem aqueles que há muito ele quer assim torturar! já os encontrarão! Aquele mostra-se piedoso com os animais e é admirado por isso — mas há certas pessoas nas quais, justamente com isso, ele quis dar livre curso à sua crueldade. Ali está um grande artista: a volúpia que antecipadamente sentiu com a inveja dos rivais derrotados não deixou sua energia esmorecer, até ele tornar-se grande — quantos instantes amargos a sua grandeza não custou a outras almas! A castidade da freira: que olhares castigadores ela não lança ao rosto das mulheres que vivem de outra forma! quanto prazer da vingança há nesses olhos! — O tema é breve, as variações em torno dele podem ser inúmeras, mas dificilmente tediosas — pois é ainda uma novidade paradoxal e quase dolorosa que a moralidade da distinção seja, em última instância, o prazer na crueldade refinada. Em última instância — isto significa aqui: sempre na primeira geração. Pois quando o hábito de uma ação que distingue é herdado, o pensamento por trás dela não é herdado (apenas sentimentos são hereditários, não pensamentos): e, desde que a educação não o introduza novamente, na segunda geração não há mais prazer na crueldade; e sim apenas prazer no hábito como tal. Esse prazer, porém, é o primeiro estágio do "bem". (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.30-31)
Simulação como dever. — Na maioria das vezes, a bondade foi desenvolvida pela demorada simulação que buscava parecer bondade: em todo lugar onde existiu grande poder, viu-se a necessidade de justamente esse tipo de simulação — ela infunde certeza e confiança, e centuplica a verdadeira soma de poder físico. A mentira é, se não a mãe, certamente a ama de leite da bondade. Também a honradez foi cultivada sobretudo pela demanda de uma aparência de honradez e probidade: nas aristocracias hereditárias. O que é simulado por longo tempo torna-se enfim natureza: a simulação acaba por suprimir a si mesma, e órgãos e instintos são os inesperados frutos do jardim da hipocrisia. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.158)
(...) a história dos sentimentos morais é muito diferente da história dos conceitos morais. Aqueles são poderosos antes da ação, estes depois da ação, em vista da necessidade de pronunciar-se sobre ela. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.33)
Com seus princípios, quer-se tiranizar ou justificar ou honrar ou insultar ou ocultar seus hábitos: – é provável que dois homens com princípios idênticos queiram com eles algo fundamentalmente diferente. (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 93)
Há uma desmedida alegria da bondade que se parece com maldade. (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 107)
Contra os caluniadores da natureza — Que seres desagradáveis estas pessoas em que toda tendência natural se torna rapidamente doença, algo deformante ou mesmo ignomínia! São elas que nos fazem acreditar que as inclinações naturais, os instintos do homem são maus; são elas a causa da nossa injustiça para com a nossa natureza, para com toda a natureza! Não faltam pessoas que teriam o direito de se abandonar às suas inclinações com graça, com despreocupação: mas não o fazem, com receio desta "má essência" imaginária da natureza! (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.152)
“Crítica da moral da décadence. – Uma moral "altruísta", uma moral em que o egoísmo definha, é, de qualquer maneira, um mau sinal. Isso vale para o indivíduo, isso vale sobretudo para povos. Falta o melhor quando começa a faltar egoísmo. Escolher instintivamente o que é danoso para si, ser atraído por motivos "desinteressados", é quase a fórmula da décadence. "Não buscar o seu benefício" — isso é apenas a folha de parreira moral que encobre um fato muito diferente, a saber, um fato fisiológico: "Não sei mais encontrar o meu benefício"... Desagregação dos instintos! — Quando o homem se torna altruísta, é o seu fim. — Em vez de dizer, ingenuamente, "Eu não valho mais nada", a mentira moral na boca do décadent diz: "Nada tem valor — a vida não vale nada"...” (NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos, 2010, p.103)
A vingança sobre o espirito e outros subentendidos da moral — A moral — onde acreditais que possa ter os seus mais perigosos e pérfidos advogados?... Eis aqui um homem que não teve bom êxito, que não tem espírito o bastante para dele se alegrar e que recebeu a cultura exata apenas para dar-se conta disso; aborrece-se, enjoa-se, despreza-se; privado, por uma pequena herança que recebeu, da última consolação, a "bênção do trabalho", do esquecimento de si na "tarefa cotidiana"; é um ser que, no fundo, tem vergonha da sua existência — talvez, ainda por cima, mantenha alguns pequenos vícios no fundo da alma; por outro lado, não pode impedir-se de se corromper cada vez mais, de se tornar cada vez mais irritável e vaidoso em virtude de leituras a que não tem direito, ou a frequências demasiado intelectuais para as suas capacidades digestivas: envenenado até à medula — pois para um malogrado desta natureza o espírito torna-se veneno, e veneno a cultura, a solidão e a higiene — prostra-se finalmente em um estado de rancor, em uma vontade crônica de se vingar... O que pensais que tenha necessidade, que tenha absolutamente necessidade para conservar diante dele mesmo uma aparência de superioridade sobre espíritos mais fortes do que o seu, para se dar, pelo menos em imaginação, a volúpia da vingança satisfeita? A moralidade, sempre ela; pode pôr-se a mão no fogo, precisa das grandes frases da moral, do grande tambor da justiça, da sabedoria, da santidade, da virtude; tem necessidade do estoicismo, da atitude (oh, estoicismo, como escondes bem o que não tem!...), precisa da capa do silêncio superior, da afabilidade, da suavidade, e outros envoltórios idealistas sob os quais vemos caminhar os contempladores incuráveis deles próprios, que são também os incuráveis vaidosos. Não me entendam mal: acontece, às vezes, que estes inimigos natos do espírito dão nascença às extraordinárias amostras humanas que o povo honra com o nome de santos e de sábios; são eles que produzem os monstros da moral que fazem barulho, que fazem história: um Santo Agostinho, por exemplo. (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.206)
(...) moralidade não é outra coisa (e, portanto, não mais!) do que obediência a costumes, não importa quais sejam; mas costumes são a maneira tradicional de agir e avaliar. Em coisas nas quais nenhuma tradição manda não existe moralidade; e quanto menos a vida é determinada pela tradição, tanto menor é o círculo da moralidade. O homem livre é não moral, porque em tudo quer depender de si, não de uma tradição: em todos os estados originais da humanidade, "mau" significa o mesmo que "individual", "livre", "arbitrário", "inusitado", "inaudito", "imprevisível". Sempre conforme o padrão desses estados originais: se uma ação é realizada não porque a tradição ordena, mas por outros motivos (a utilidade individual, por exemplo), mesmo por aqueles que então fundaram a tradição, ela é considerada imoral e assim tida mesmo por seu ator: pois não foi realizada em obediência à tradição. O que é a tradição? Uma autoridade superior, a que se obedece não porque ordena o que nos é útil, mas porque ordena. — O que distingue esse sentimento ante a tradição do sentimento do medo? Ele é o medo ante um intelecto superior que manda, ante um incompreensível poder indeterminado, ante algo mais do que pessoal — há superstição nesse medo. — Originalmente fazia parte do domínio da moralidade toda a educação e os cuidados da saúde, o casamento, as artes da cura, a guerra, a agricultura, a fala e o silêncio, o relacionamento de uns com os outros e com os deuses: ela exigia que alguém observasse os preceitos sem pensar em si como indivíduo. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.17)
“Em todas as épocas se quis "melhorar" os homens: isso, sobretudo, foi chamado de moral. (...) Chamar a domesticação de um animal de "melhoramento" soa aos nossos ouvidos quase como uma piada. Quem sabe o que acontece nas exposições de feras duvida que nelas a besta seja "melhorada". Ela é enfraquecida, tornada menos daninha, transformada numa besta doentia através do afeto depressivo do medo, através da dor, dos ferimentos, da fome. — Não é diferente com o homem domesticado que o sacerdote "melhorou"”. (NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos, 2010, p.60-61)
A moral ensina ao homem a ser função do rebanho, e a se atribuir valor somente como função. Uma vez que as condições de conservação eram muito diferentes de uma comunidade para outra, resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transformações essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades são ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haverá ainda morais muito divergentes. Moralidade é o instinto gregário no indivíduo. (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.111)
“... Não podemos hoje imaginar a degenerescência moral separada da degenerescência fisiológica: a primeira nada mais é que o conjunto de sintomas da segunda: somos necessariamente maus, como somos necessariamente doentes... Mau: a palavra exprime aqui certas incapacidades que são fisiologicamente ligadas ao tipo da degenerescência: por exemplo, a fraqueza da vontade, a incerteza e até a multiplicidade da "pessoa", a impotência para suprimir a reação a uma excitação qualquer e de "dominar-se", o constrangimento diante de toda espécie de sugestão de uma vontade estranha. O vício não é a causa; o vício é a consequência.”(NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.269)
“A moral religiosa — A emoção, o grande desejo, as paixões do poder, do amor, da vingança, da posse: os moralistas querem extingui-los, arrancá-los, para ‘purificar’ a alma.
É a mesma lógica que diz: ‘Se teu membro te escandaliza, arranca-o’.
Sua conclusão é sempre: somente o homem castrado pode tornar-se um homem bom.” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.306-307)
“A partir de todas as idiossincrasias [características peculiares] morais, vejo uma avaliação fundamentalmente diferente: não conheço essas separações absurdas entre o gênio e o mundo da vontade moral e imoral. O homem moral é de uma espécie inferior ao homem imoral, de uma espécie mais fraca; é um tipo segundo a moral, não é porém seu próprio tipo; é uma cópia, uma boa cópia ao rigor — a medida de seu valor reside fora dele. Estimo o homem pela quantidade de potência e pela plenitude de sua vontade; e não conforme o enfraquecimento e a purificação da vontade; considero uma filosofia que ensina a negação da vontade como uma doutrina de aviltamento e de calúnia... Julgo a potência de uma vontade segundo o grau de resistência, de dor, de tortura que ela suporta para convertê-las em seu favor; não censuro à existência seu caráter mau e doloroso, mas espero que esse caráter se tornará um dia mais mau e mais doloroso ainda...” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.475)
“O constrangimento da vontade era tido como o que dava ao ato valor superior: Deus era considerado então o autor...
Vem o contramovimento: o dos moralistas, sempre com o mesmo preconceito, o de crer que somos responsáveis pelos menores acontecimentos, se os quisermos. O valor do homem está fixado como valor moral: portanto, seu valor deve ser causa prima; logo, deve haver aí um princípio no homem, o "livre-arbítrio", que seria a causa prima. Há sempre a segunda intenção: se o homem não é a causa prima enquanto vontade, é irresponsável, consequentemente, não é da competência da moral. A virtude e o vício serão então automáticos e inconscientes.” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.266)
“O erro do livre-arbítrio. — (...) Em todo lugar onde se procura responsabilidades, costuma ser o instinto de querer punir e julgar que está a procura delas. O devir foi despido de sua inocência quando se busca explicar pela vontade, pelas intenções ou por atos de responsabilidade alguma maneira de ser: a doutrina da vontade foi inventada essencialmente com a finalidade de punir, ou seja, de querer encontrar culpados. (...) O cristianismo é uma metafísica de carrasco...
(...) Fomos nós que inventamos a noção de "finalidade": a finalidade está ausente da realidade... Somos necessários, somos um fragmento de destino, pertencemos ao todo, estamos no todo — não há nada que possa julgar, medir, comparar e condenar o nosso ser, pois isso significaria julgar, medir, comparar e condenar o todo... Mas não há nada fora do todo!” (NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos, 2010, p.57-59)
Há dois tipos de negadores da moralidade. — "Negar a moralidade" — isso pode significar, primeiro: negar que os motivos morais que as pessoas alegam tenham-nas realmente impelido a seus atos — ou seja, a afirmação de que a moralidade consiste em palavras e é parte dos embustes grosseiros ou sutis (embustes de si mesmo, em especial) dos seres humanos, e talvez principalmente dos mais famosos pela virtude. Depois pode significar: negar que os juízos morais repousem sobre verdades. Nesse caso se admite que são realmente motivos da ação, mas que, dessa forma, são os erros, fundamento de todo juízo moral, que impelem os indivíduos a suas ações morais. Este é o meu ponto de vista; mas seria o último a ignorar que em muitíssimos casos a sutil desconfiança do primeiro ponto de vista, ou seja, no espírito de La Rochefoucauld, é também justificada e, certamente, de grande utilidade geral. — Assim, nego a moralidade como nego a alquimia, ou seja, nego os seus pressupostos; mas não que tenha havido alquimistas que acreditaram nesses pressupostos e agiram de acordo com eles. — Também nego a imoralidade: não que inúmeras pessoas sintam-se imorais, mas que haja razão verdadeira para assim sentir-se. Não nego, como é evidente — a menos que eu seja um tolo —, que muitas ações consideradas imorais devem ser evitadas e combatidas; do mesmo modo, que muitas consideradas morais devem ser praticadas e promovidas — mas acho que, num caso e no outro, por razões outras que as de até agora. Temos que aprender a pensar de outra forma — para enfim, talvez bem mais tarde, alcançar ainda mais: sentir de outra forma. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.69-70)
O problema que com isso coloco não se refere ao que deve substituir a humanidade na sucessão dos seres (o homem é um final), mas ao tipo de homem que se deve cultivar, se deve querer como sendo o de mais alto valor, mais digno de vida, mais seguro de futuro.
Esse tipo de alto valor já existiu com bastante frequência: mas como um acaso feliz, uma exceção, jamais como algo desejado. Pelo contrário, precisamente ele foi o mais temido, foi até agora quase o temível; – e foi por temor que se quis, se cultivou, se alcançou o tipo contrário: o animal doméstico, o animal de rebanho, o animal doente homem – o cristão... (NIETZSCHE, O Anticristo, 2016, p.15)
domingo, 9 de abril de 2017
NIETZSCHE - VONTADE DE PODER
Trechos das obras sobre vontade de poder
“O prazer e o desprazer são simples
consequências, simples fenômenos secundários. O que o homem quer, o que a menor
parcela de organismo vivo quer, é um plus de potência. Na aspiração para um
fim, há tanto prazer quanto desprazer; daquela vontade o homem busca a
resistência, tem necessidade de algo que se lhe oponha... O desprazer,
obstáculo da vontade de potência, é, portanto, um fato normal, o ingrediente
normal de todo fenômeno orgânico; o homem não o evita, ao contrário, tem
contínua necessidade dele: qualquer vitória, qualquer sentimento de prazer,
qualquer acontecimento pressupõe uma resistência vencida. (...) O que chamamos
nutrição é simplesmente a
consequência, a aplicação dessa vontade primitiva de tornar-se mais forte.
Logo, o desprazer não é acompanhado de
uma diminuição de nosso sentimento de potência; tão de somenos é esse o caso que,
geralmente, trata-se de uma excitação dessa vontade de potência – o obstáculo é
o stimulus da vontade de potência.” (NIETZSCHE, Vontade de potência, 2011, p.388)
“Os fisiólogos deveriam refletir ao estabelecer o impulso de autoconservação com o impulso cardinal de um ser orgânico.
Algo que é vivo quer sobretudo dar vazão à sua força – a vida mesma é
vontade de poder –: a autoconservação é apenas uma das consequências indiretas e mais frequentes disso. (...)” (NIETZSCHE,
Além do bem e do mal, 2010, p. 35)
“Todo sentimento que leva a superação é ‘saudável’
e todo sentimento que retrai e faz querer destruir algo é ‘doentio’.
(...)
O prazer é um sentimento da potência: quando se excluem as paixões, excluem-se
as condições que provocam o sentimento de potência ao mais alto
grau, e consequentemente o prazer. A mais alta "razoabilidade" é um
estado frio e claro que está longe de provocar aquele sentimento
de felicidade que traz consigo toda espécie de embriaguez...” (NIETZSCHE, Vontade de potência, 2011, p.322)
“(...) o prazer é apenas um
sintoma do sentimento de que a potência foi atingida, é a percepção
de uma diferença (não se aspira ao prazer: este produz-se desde que se
atinge ao que se aspirava: o prazer acompanha, ele não põe em movimento);
que toda a força é vontade de potência, que não há outra força física,
dinâmica ou psíquica...”(NIETZSCHE, Vontade
de potência, 2011, p.386)
“Sobre a doutrina do sentimento de
poder — Ao fazer o bem e mal aos outros exercitamos o nosso poder sobre
eles — é, nesse caso, o que queremos! Fazemos mal a quem devemos fazer sentir
nosso poder, pois o sofrimento é um meio muito mais sensível, para esse fim, do
que o prazer: o sofrimento procura sempre a sua causa enquanto o prazer mostra
inclinação para se bastar a si próprio e a não olhar para trás. Ao fazer bem ou
ao desejarmos o bem exercemos o nosso poder sobre aqueles que, de alguma forma,
já estão na nossa dependência (quer dizer que se habituaram a pensar em nós
como suas causas); queremos aumentar o seu poder porque assim aumentamos o
nosso, ou queremos mostrar-lhes a vantagem que há em estar em nosso poder;
(...) mesmo se arriscarmos a nossa vida,
como o mártir [pessoa que sofreu torturas, ou mesmo morte, por não renunciar a qualquer
outra crença] pela sua igreja, é um sacrifício que fazemos à nossa
necessidade de poder, ou com a finalidade de conservar o nosso sentimento de
poder. Quando se sente profundamente que se "possui o verdadeiro",
quantas outras posses não se abandonariam para conservar este sentimento! O que
não se lança pela borda afora para continuar à superfície, ou seja, continuar
"por cima" daqueles que carecem da verdade! Indubitavelmente, é raro
que o estado que acompanha o gesto de fazer mal seja tão agradável, tão
puramente agradável, como aquele que acompanha o gesto de fazer bem; trata-se
de um sinal que revela que ainda nos falta poder ou que trai o nosso desgosto
diante desta pobreza, anunciando novos perigos e novas incertezas para o nosso
capital de poder, mantendo o nosso horizonte velado por perspectivas de
vingança, escárnio, punição, malogro. Somente para os homens mais irritáveis,
para pessoas mais ávidas do sentimento de poder, pode haver algum prazer em
imprimir ao recalcitrante [aquele que demonstra resistência em obedecer] o selo do seu domínio; para aqueles que só veem nisso
aborrecimento, é um desprazer o espetáculo de um ser já submetido (tornado
objeto de benevolência). Trata-se de saber como o homem acostumou-se a temperar
sua vida; é sempre uma questão de gosto: quer que o crescimento de poder
seja lento ou brusco, seguro ou perigoso e temerário? Procura-se esta ou aquela
especiaria conforme a inclinação do nosso temperamento. Uma presa fácil, para
as naturezas orgulhosas, é algo de desprezível; só experimentam um sentimento
de bem-estar diante de homens íntegros que poderiam tornar-se seus inimigos, e
diante de todas as posses dificilmente acessíveis; muitas vezes duras, para
aquele que sofre, porque não o julgam digno do seu esforço e da sua altivez,
mas mostram-se tanto mais corteses para com os seus semelhantes com os quais a
luta seria certamente honrosa, se aparecesse ocasião para isso. Foi sob o
efeito do sentimento de bem-estar que lhe dava esta perspectiva que os homens
da casta cavalheiresca se acostumaram a usar uns para com os outros de uma
delicadeza requintada. A piedade é o sentimento mais agradável para aqueles que
são pouco orgulhosos e que não têm possibilidades de fazer grandes conquistas:
a presa fácil — qualquer ser sofredor é presa fácil — é coisa que os encanta.
Louva-se a piedade como sendo a virtude das mulheres de vida alegre.
(NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.45-46)
“As
funções animais são mil vezes mais importantes que os belos estados de alma e
os ápices da consciência: estes últimos são um excedente enquanto não devem ser
instrumentos para essas funções animais. Toda a vida consciente, o
espírito assim como a alma e o coração, a bondade assim como a virtude, a
serviço de quem elas trabalham? A serviço de um aperfeiçoamento, tão
grande quanto possível, das funções animais essenciais (os meios de nutrição,
de aumento de energia): antes de tudo, a serviço do aumento
da vida.
O
que chamamos "corpo" e "carne" tem muito mais importância:
o resto é um pequeno acessório. Continuar a tecer a tela da vida, de maneira
que o fio se torne cada vez mais potente, eis a tarefa.
(...)
A consciência é simplesmente um meio;
os sentimentos agradáveis ou desagradáveis também não são mais
que meios! De acordo com que avaliamos objetivamente o valor? Somente de acordo
com a quantidade de potência aumentada e organizada.” (NIETZSCHE, Vontade
de potência, 2011, p.396)
“(...)
a vontade não é apenas um complexo de sentir e pensar, mas antes de tudo, ainda
um afeto (...). Um homem que quer – ordena a um algo em si que
obedece ou que ele acredita que obedece. (...) na medida em que no caso dado
somos ao mesmo tempo os mandantes e os obedecentes, e, como obedecentes,
conhecemos as sensações de coação, insistência, pressão, resistência, movimento,
que costumam iniciar imediatamente após
o ato de vontade; na medida em que por outro lado, temos o hábito de não
fazer caso, de nos enganar acerca dessa dualidade graças ao conceito sintético
‘eu’, prendeu-se ao querer ainda toda uma cadeia de
conclusões errôneas e, por conseguinte, de falsas valorações da própria
vontade — de tal modo que o querente [que quer] acredita de boa-fé que o querer basta para a ação. (...) a aparência se traduziu na sensação
de que aí haveria uma necessidade do efeito; em suma, o querente
acredita, com um razoável grau de certeza, que vontade e ação, de algum modo, são uma só coisa – ele atribui o êxito, a
execução do querer, à própria vontade, gozando com isso de um aumento daquela
sensação de poder que todo êxito traz consigo. ‘Livre-arbítrio’ – essa é a expressão para aquele multiforme estado de
prazer do querente que ordena e ao mesmo tempo se funde num só com o executante
– que, como tal, goza conjuntamente o triunfo
sobre as resistências, mas julga consigo mesmo que foi sua própria vontade que
verdadeiramente superou as resistências.” (NIETZSCHE, Além do bem e do mal,
2010, p. 40-41)
“O que é bom? – Tudo o que eleva a
sensação de poder, a vontade de poder, o próprio poder no homem.
O que é ruim? – Tudo o que provém da fraqueza.
O que é a felicidade? – A sensação de que o poder cresce, de que
uma resistência é superada.
Não o contentamento, porém mais poder; acima de tudo não a paz,
mas a guerra; não a virtude, mas a excelência (virtude no estilo da
Renascença, virtù, virtude sem moralina).
Os fracos e os malogrados [frustrado] devem sucumbir: primeira tese de nosso amor à humanidade. E ainda
devem ser ajudados nisso.
O que é mais danoso do que qualquer vício? - A compaixão ativa por
todos os malogrados e fracos – o cristianismo...” (NIETZSCHE, O Anticristo,
2016, p.14)
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
MAQUIAVEL
CAPÍTULO XVII
Da crueldade e da piedade e se é melhor ser amado ou temido
(...) cada Príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não
como cruel: apesar disso, deve cuidar de empregar convenientemente essa
piedade. (...) Não deve, portanto, importar ao Príncipe a qualificação de
cruel para manter seus súditos unidos e leais, porque, com raras exceções, é
ele mais piedoso do que aqueles que por muita clemência deixam acontecer
desordens, das quais podem nascer assassínios ou rapinagem.
(...) será melhor ser amado que temido ou vice-versa.
Responder-se-á que se desejaria ser uma e outra coisa; mas como é difícil
reunir ao mesmo tempo as qualidades que dão aqueles resultados, é muito mais
seguro ser temido que amado, quando se tenha de falhar em uma das duas. E que
os homens geralmente são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ambiciosos
de dinheiro, e, enquanto lhes fizeres bem, todos estarão contigo, oferecendo-te
sangue, bens, vida, filhos, como disse acima, desde que a necessidade esteja
longe de ti. Mas, quando ela se avizinha, voltam-se para outra parte. E o
Príncipe, que se confiou plenamente em palavras e não tomou outras precauções,
está arruinado. Pois as amizades conquistadas por interesse, e não por grandeza
e nobreza de caráter, são compradas, mas não se pode contar com elas no momento
necessário. E os homens hesitam menos em ofender aos que se fazem amar do que
aos que se fazem temer, porque o amor é mantido por um vínculo de obrigação, o
qual, em virtude de serem os homens maus, é rompido sempre que lhe aprouver, ao
passo que o temor que se infunde é alimentado pelo receio de castigo, que é um
sentimento que não se abandona nunca. Deve, portanto, o Príncipe fazer-se temer
de maneira que, se não se fizer amado, pelo menos evite o ódio, pois é fácil
ser ao mesmo tempo temido e não odiado, o que sucederá uma vez que se abstenha
de se apoderar dos bens e das mulheres de seus cidadãos e de seus súditos, e,
mesmo sendo obrigado a atingir a família de alguém, poderá fazê-lo quando
houver justificativa conveniente e causa manifesta. Deve, sobretudo, abster-se
de se aproveitar dos bens dos outros, porque os homens esquecem mais depressa a
morte do pai do que a perda de seu patrimônio.
Mas quando o Príncipe está em campanha e tem sob seu comando
grande número de soldados, então é absolutamente necessário não se importar com
a fama de cruel, porque, sem ela, não se conseguiria nunca manter um exército
unido e disposto a qualquer ação.
CAPÍTULO XVIII
De que forma os
Príncipes devem manter a palavra
Todos compreendem o quanto seja louvável a um Príncipe
manter a palavra e viver com integridade, não com astúcia; contudo, observa-se,
pela experiência, em nosso tempo, que houve Príncipes que fizeram grandes
coisas, mas em pouca conta tiveram a palavra dada, e souberam, pela astúcia,
iludir os homens, superando, enfim, os que foram leais.
(...) um Príncipe prudente não pode nem deve guardar a
palavra dada quando isso se lhe torne prejudicial e quando as causas que o
determinaram cessem de existir. Se os homens todos fossem bons, esse preceito
seria mau. Mas, dado que são maus e que não a observariam a teu respeito,
também não és obrigado a cumpri-la para com eles. Jamais faltaram aos Príncipes
razões legítimas para dissimular o descumprimento da palavra empenhada.
(...) É que os homens, em geral, julgam mais pelos olhos do que
pelas mãos, pois todos podem ver, mas poucos são os que sabem sentir. Todos
veem o que tu pareces, mas poucos o que és realmente, e estes poucos não têm a
audácia de contrariar a opinião dos que têm por si a majestade do Estado. Nas
ações de todos os homens, principalmente dos Príncipes, onde não há tribunal
para recorrer, o que importa são os fins. Procure, pois, um Príncipe, vencer e
conservar o Estado. Os meios que empregar serão sempre julgados honrosos e
louvados por todos, porque o vulgo é levado pelas aparências e pelos resultados
dos fatos consumados, e o mundo é constituído pelo vulgo, e não haverá lugar
para a minoria se a maioria tem onde se apoiar.
CAPÍTULO XXV
De quanto pode a
fortuna nas coisas humanas e de que modo se deve resistir-lhe
Não me é desconhecido que muitos têm tido e têm a opinião de que
as coisas do mundo são governadas pela fortuna e por Deus, de sorte que a
prudência dos homens não pode corrigi-las, e mesmo não lhes traz remédio algum.
Por isso, poder-se-ia julgar que não deve alguém incomodar-se muito com elas,
mas deixar-se governar pela sorte. Essa opinião é grandemente
aceita em nosso tempo pela grande variação das coisas, o que se vê todo dia,
fora de toda conjetura humana. Às vezes, pensando nisso, tenho me inclinado a
aceitá-la. Não obstante, e para que nosso livre-arbítrio não desapareça, penso
poder ser verdade que a fortuna seja arbitra de metade de nossas ações, mas
que, ainda assim, ela nos deixe governar quase a outra metade. Comparo-a a um
desses rios impetuosos que, quando se encolerizam, alagam as planícies,
destroem as árvores, os edifícios, arrastam montes de terra de um lugar para
outro: tudo foge diante dele, tudo cede a seu ímpeto, sem poder obstar-lhe. E,
se bem que as coisas se passem assim, não é menos verdade que os homens, quando
volta a calma, podem fazer reparos e barragens, de modo que, em outra cheia,
aqueles rios correrão por um canal, e seu ímpeto não será tão livre nem tão
danoso. Do mesmo modo acontece com a fortuna; seu poder é manifesto onde não
existe resistência organizada, dirigindo ela sua violência só para onde não se
fizeram diques e reparos para contê-la.
(...) um Príncipe se apoia totalmente na fortuna,
arruína-se segundo as variações daquela. Também julgo feliz aquele que combina
seu modo de proceder com as particularidades dos tempos, e infeliz o que faz
discordar dos tempos sua maneira de proceder. (...) tendo alguém
prosperado em um caminho, não pode resignar-se a abandoná-lo. Ora, o homem
circunspecto, quando chega a ocasião de ser impetuoso, não o sabe ser, e por
isso se arruína, porque, se mudasse de natureza, conforme o tempo e as coisas,
não mudaria de sorte.
(...) Estou convencido de que é melhor ser impetuoso
do que circunspecto, porque a sorte é mulher e, para dominá-la, é preciso
bater-lhe e contrariá-la. E é geralmente reconhecido que ela se deixa dominar
mais por estes do que por aqueles que procedem friamente. A sorte, como mulher,
é sempre amiga dos jovens, porque são menos circunspectos, mais ferozes e com
maior audácia a dominam.
sexta-feira, 21 de outubro de 2016
Karl Marx e o materialismo histórico e dialético
O filosofo Karl Max é um materialista. Os filósofos desta concepção consideram que não
existe uma verdade que se revela a todos nesse mundo. Tudo é uma questão de
perspectiva e por isso não se pode entender o mundo como ele realmente é.
Mas em oposição aos materialistas é
encontrada a concepção idealista,
com a pretensão de criar uma imagem universal, até mesmo sobre os indivíduos, apesar
das diferenças. O idealista é apegado a ideia, onde se coloca tudo em categorias
compreensíveis, considerando que todos podem compartilhar da verdade ideal.
No materialismo o que passa pela cabeça de
uma pessoa tem a ver com os sentimentos que ela tem, porque o corpo é
importante e é o contato com o mundo que produz sentimentos. Então, nessa
primeira ideia, começa a ficar claro que a produção material de uma sociedade
afeta o pensamento, por estar em relação com o corpo, produzindo sentimentos
que movem o indivíduo.
Um problema para a filosofia está ligado a
essa ideia de circunstâncias. O pensamento sobre o futuro está preso as
circunstâncias materiais do agora. Então, como criar uma filosofia
revolucionária, sendo que o pensamento é influenciado pelo mundo material a
cada instante?
Para entender melhor essa dificuldade da
revolução do pensamento, dentro de uma sociedade, é importante analisar a infraestrutura e superestrutura que formam a sociedade. Essa análise é a ciência do materialismo histórico.
Sociedade = infraestrutura + superestrutura
Infraestrutura
Os sentimentos que o indivíduo tem não
poderiam ser outros, porque assim as circunstâncias determinam. A sociedade
também é organizada politicamente, moralmente, religiosamente e tudo mais, da
maneira que atenda a necessidade material econômica, porque é o material que
influencia o pensamento e consequentemente a ação.
A infraestrutura está
relacionada a produção de bens materiais: as condições materiais de sua produção, as
relações entre as pessoas na produção de bens, ao trabalho, ao processo de
produção, etc. A infraestrutura é resumida como sendo os modos de produção.
Infraestrutura = modos de produção
Modos de produção
Os modos de produção
econômica fazem parte da infraestrutura. Existem seis
modos de produção: Primitivo, Asiático, Escravista, Feudal, Capitalista, Socialista.
Existem dois elementos fundamentais nos modos
de produção: forças produtivas e relações de produção.
Modos de produção = forças produtivas +
relações de produção.
Forças produtivas
As forças produtivas são o conjunto de
dois elementos que impulsionam o processo produtivo:
1º Os meios
de produção: ferramentas, matéria-prima e matéria-bruta. Por ferramentas
entende-se tudo instrumento usado para transformar um objeto; a matéria-prima é
um objeto que já foi modificado pelo trabalho, mas inda não é produto; matéria-bruta
é um objeto que não foi trabalhado, por isso está distante de ser um produto.
2º A força
de trabalho: é a energia muscular e cerebral, usada sempre em conjunto com
os meios de produção, para produzir um produto.
Forças produtivas = meios de produção + força de
trabalho
O trabalho
dá utilidade a algo, mas é importante lembrar que hoje em dia a utilidade tem
outro sentido. Muitos produtos são desnecessários, cridos para o luxo.
Em resumo, o trabalho transforma o objeto em produto e a força de trabalho é a energia necessária para a transformação. Dependendo
do meio de trabalho, se gastará mais ou menos energia para produzir um produto.
No
capitalismo não se remunera o trabalho e sim a força de trabalho. Isso
significa que o salário é para recuperar a energia. O que se produz com o
trabalho não afeta na remuneração, porque o importante é o tempo, a força
física e mental usada para produzir. Isso sofreu algumas alterações nos últimos
anos com as gratificações por resultado, mas isso não acontece em todo o
sistema e nem representa uma mudança significativa para o sistema de exploração
do trabalho.
Os meios de produção são fundamentais, porque
eles determinam a quantidade de força necessária para a transformação de um
objeto em produto.
Relações
de produção
As relações de produção são
as relações estabelecidas entre os seres humanos para produzir. Em outras palavras, é o acordo necessária
entre os seres humanos para realizar o processo produtivo.
Na nossa sociedade, a propriedade privada dos meios de produção dita a relação das duas
classes fundamentais para a produção: proletários (não proprietários) e
burgueses (proprietários). Essas são as classes mais importantes da sociedade
capitalista: o burguês é o dono dos meios
de produção e o proletário é o trabalhador, o detentor da força de trabalho. Os proprietários dos
meios de produção se apropriam do
produto do trabalho dos não proprietários, gerando desigualdade social e
conflito entre as classes.
Superestrutura
Todas as ideias de uma sociedade sobre o
mundo e sobre as coisas é resultado da luta de classes. A superestrutura são essas
ideias, hábitos e campos sociais que
formam a sociedade, mas não fazem parte da infraestrutura, como: educação,
leis, marketing, Estado, medicina, estilos de vida etc.
Várias formas de superestrutura são possíveis em uma mesma
infraestrutura. A superestrutura nunca para de mudar,
por isso é difícil defini-la. Por exemplo, a internet não existia a alguns anos
atrás.
Materialismo
histórico
O materialismo histórico é uma
forma cientifica de analisar a história e as sociedades. Em nossa sociedade temos duas classes
fundamentais: proletários e burgueses. Os proletários alienados, junto com seus
herdeiros e lacaios dos burgueses, defendem as relações vigentes de produção. As duas classes são parte da
infraestrutura. A política, a educação, o direito, a moral, a mídia, entre
outros, fazem parte da superestrutura.
O materialismo histórico revela que a
organização social está em dois níveis: infraestrutura econômica e superestrutura
ideológica. Ao se entender a produção de bens (infraestrutura) de uma
sociedade, é possível entender a ideologia que comanda a sociedade. Em outras
palavras, quanto melhor se conhece a produção de bens materiais, melhor se
conhece o resto da sociedade (superestrutura).
Conflito
entre classes
As pessoas consideradas de esquerda lutam
sempre contra o interesse da classe dominante, que é a burguesia. Os
verdadeiros interessados na manutenção das ideias de direita são os donos da
produção, os conservadores. Não é o proprietário do carro que é interessado nas
propostas conservadoras e sim o dono da fábrica de veículos. Para Marx, o importante no capitalismo é a
propriedade dos meios de produção e não o produto. A maneira como se procede as
forças de produção de bens materiais
define a relações de produção.
Os burgueses defendem a propriedade privada dos meios
de produção e o proletário busca novas formas de relações de produção. Devido a esse conflito de interesses, existe
uma luta entre as duas classes. Há um abismo que separa as classes, mas poucos
tem consciência de classe, sem essa
consciência não existe revolução. O
desejo por lucro faz com que os burgueses, donos dos meios de produção, se
aproveitem do trabalhador, criando uma situação de exploração que não muda.
Materialismo dialético
O materialismo dialético diz respeito a essa luta de classes: proletária e burguesa. A desarmonia entre as forças de produção e as relações
de produção produz a história da nossa sociedade capitalista, mas essa história é resultado da dialética das classes envolvidas nos modos de produção.
O conflito fica evidente quando os proprietários dos meios de produção
não conseguem agradar o trabalhador, que exige uma mudança nas relações de produção, mas esta nunca
acontece. Por exemplo, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) que
luta pela distribuição de terras, que são parte dos meios necessários para a
produção, sendo a terra parte da infraestrutura.
É normal que alguns grupos se unam contra os
trabalhadores para conservar a propriedade
privada dos meios de produção, impedindo uma transformação. A classe conservadora
luta contra a classe que deseja mudanças na relação de produção, porque essa mudança é uma revolução considerada subversiva
pelos conservadores.
Liberalismo
O filósofo John Locke, do século XVII, era
defensor do liberalismo. Ele via o trabalho como fundamento da propriedade
privada.
Podemos dizer que o trabalho de seu corpo e a obra produzida por suas
mãos são propriedade sua. Sempre que ele tira um objeto do estado em que a
natureza o colocou e deixou, mistura nisso o seu trabalho e a isso acrescenta
algo que lhe pertence, por isso o tornando sua propriedade. Ao remover este
objeto do estado comum em que a natureza o colocou, através do seu trabalho
adiciona-lhe algo que excluiu o direito comum dos outros homens. Sendo este
trabalho uma propriedade inquestionável do trabalhador, nenhum homem, exceto
ele, pode ter o direito ao que o trabalho lhe acrescentou (LOCKE, Segundo
tratado Sobre O Governo, capitulo V, p.42)
Para Locke, é garantindo o direito à
propriedade de algo quando se trabalha nela e a transforma. O direito à
propriedade é a recompensa pelo trabalho transformador. Mas no capitalismo o
trabalho é apenas mais uma mercadoria, que é vendida e usada para a produção. O
que é produzido pelo trabalho não pertence ao trabalhador, pertence aos donos
dos meios de produção que comprou o
trabalho.
Em contrapartida, o filósofo Adam Smith, do
século XVIII, dizia que o trabalho deveria ser a medida do valor de troca das
mercadorias. Mas no capitalismo o valor de troca da mercadoria não tem a ver
com o valor pago pelo trabalho. A mercadoria ganha um valor muito superior em
comparação ao valor pago pelo trabalho que a produziu. Por isso, é importante
entender o conceito de trabalho para entender as relações de produção.
Mais-valia
A mais-valia
é o lucro retido pelo capitalista,
resultante da diferença entre o que ele paga pela mão de obra e o valor que ele
cobra pela mercadoria produzida por essa força
de trabalho (o trabalho vale menos que a mercadoria). Em outras palavras, o
trabalhador recebe um valor muito inferior ao valor produzido e é assim que o
burguês consegue o lucro. Essa exploração é chamada de mais-valia.
Existe uma abundância de trabalhadores na
sociedade. E quanto mais cresce a quantidade de trabalhadores mais a mão de
obra se desvaloriza. A força de trabalho perde seu valor quanto mais fácil for encontrá-la.
E sempre haverá aqueles trabalhadores que se submetem a trabalhar mais por um
salário um pouco maior perdendo mais de si, ou aceita trabalhar por menos para
ter um emprego, desvalorizando os trabalhadores como um todo. Um jeito de
ganhar mais é ter uma boa formação, porque quanto melhor for a formação do
trabalhador maior será sua raridade no mercado, proporcionando um salário
melhor.
Por causa do burguês ser o dono dos meios de produção, ele pode controlar
como, onde, quando, por que e com que frequência o trabalhador poderá vender
sua força de trabalho. Durante a
produção, o trabalhador perde a consciência da produção como um todo, por isso
ele é facilmente explorado. A sociedade capitalista se desenvolve com mais
facilidade quanto menor for a consciência do trabalhador.
Alienação
Alienação é o processo em que o ser humano se afasta de sua real
natureza, torna-se estranho a si mesmo, pois os objetos que produz passam a
adquirir existência independente do seu poder e antagônica aos seus interesses.
Alienação
devido a produção
No capitalismo a alienação começa no processo de
produção onde o indivíduo tem o trabalho segmentado para não se ter consciência
da totalidade do processo de produção. Existe uma cooperação complexa onde os
trabalhadores fazem funções diferentes para gerar um produto, perdendo toda a
noção da totalidade do processo produtivo. Na cooperação complexa, existe os trabalhadores
que vão trabalhar com a matéria-bruta e trabalhadores que vão dar continuidade
ao trabalho dos primeiros, até a produção final que é o produto pronto para o consumo,
chamado de mercadoria. Esse trabalho coletivo é um estágio do sistema
capitalista, onde o trabalhador se torna alienado, perdendo a noção dos custos
e quantidade de produção de bens. Quanto
mais for elaborado o sistema de produção maior é a alienação do trabalhador.
Existe três tipos de
proprietários dos meios de produção:
1º O proprietário é um trabalhador
direto, por utilizar seus próprios meios
de produção para produzir, sendo isso mais normal em sistemas rudimentares
de produção, como no artesanato.
2º O proprietário é um
trabalhador indireto, por administrar o processo produtivo.
3º O proprietário é um não
trabalhador, porque ele está distante do processo produtivo. E quanto mais um
sistema capitalista se desenvolve, mais distante o proprietário dos meios de produção fica do processo produtivo.
Em uma sociedade
capitalista, podemos dividir os envolvidos na produção em duas categorias:
proprietários e não proprietários. Essa divisão gera três outras categorias na
sua relação capitalistas: explorados, não explorados e cooperadores (capangas
da burguesia).
Existem três sistemas de
exploração:
1º
O escravismo: onde o dono dos meios de produção é dono da produção e do trabalhador.
2º
O serviçal: onde o dono dos meios de produção é dono da produção, mas não é dono do
trabalhador. O servo tem liberdade de ir e vir e ganha um pouco de recursos,
para sobreviver e sustentar sua família se necessário.
3º
O assalariado: onde o dono dos meios de produção é dono da produção, mas é o trabalhador que vende
sua força de trabalho. O assalariado tem maior liberdade do que o servo, por
dois motivos: ele tem o direito de receber os recursos para obter os próprios
bens em troca da força de trabalho;
também pode não vender a força de
trabalho, caso não tenha interesse no que o burguês lhe oferece.
No capitalismo, o
trabalhador é explorado porque o burguês dita a venda da força de trabalho e o valor do trabalho. O trabalhador alienado não
percebe a desigualdade do sistema. O trabalhador vende seu trabalho como uma
mercadoria e quanto mais mercadorias esse trabalho produz menos ele vale no
mercado.
A mercadoria ganha
independência em relação ao trabalhador. Quanto mais esse trabalhador gasta de
si no trabalho, mais o trabalho se torna estranho ao trabalhador, que perde
mais de si mesmo, tornando-se mais pobre com o tempo. Em outras palavras, o
trabalhador se torna menos pessoa e menos valorizado na medida em que produz
mais.
O sistema exige que o
trabalhador fique cada vez mais produtivo, eficiente e alienado, resultando na
desvalorização da sua força de trabalho. Quanto mais se produz menos se é. Essa
é a alienação do trabalhador frente ao objeto de trabalho que não lhe pertence
mais. Para Marx, a alienação significa essa autonomia do trabalho em relação ao
trabalhador. Quando se vende o trabalho ele não pertence mais ao trabalhador,
ele fica fora do trabalhador.
Ideologia
Ideologia é a totalidade das formas de consciência social, o que
abrange o sistema de ideias que legitima o poder econômico da classe dominante
(burguesia).
A ideologia é manifestada na superestrutura, que é o fluir ou consequência da infraestrutura. Em outras palavras, a superestrutura é uma articulação de
indivíduos que pensam sobre o mundo, tomando como referência a infraestrutura da sociedade para se
estabelecer parâmetros. A ideologia é
tudo que faz a sociedade ser e continuar a ser o que é, por permitir a
manutenção da dominação de classe. Como a ideologia sustenta o sistema, os
maiores interessados e beneficiados pela ideologia é a burguesia (classe
dominante).
Toda a ideologia é uma ideia sobre como o
mundo deveria ser e como deveria ser pensado. Não se trata de um mundo verdadeiro
ou falso. A ideologia não é uma análise da realidade, ela é uma suposição de
como deveria ser a vida humana. Por isso, não se pode fazer ideologia a partir
da natureza, porque a natureza nunca é diferente, ela é o que é, mas o ser
humano sempre pode ser diferente.
A ideologia é mais sofisticada quando deixa
de ser apenas uma ideia e passa a ser um conjunto de hábitos e condutas a se
ter. De repente, aquilo que o ser humano pensa e procura alcançar na sociedade
é resultado de uma dominação de classe por meio da ideologia. Porque a
ideologia do proletário é a ideologia burguesa. Não existe uma ideologia do
proletário e sim uma ideologia burguesa que toma conta das ideias do
proletário, que passa a querer se tornar burguês. O proletário vive em um mundo
criado pelos donos dos meios de produção. Sempre que o proletário quer se sair
bem no sistema, ele faz o que é do interesse da classe burguesa. Não existe rival
para a ideologia burguesa, porque todos têm uma noção parecida de como o mundo
deveria ser. Isso é globalização: uma única ideia compartilhada. Geralmente,
uma ideia começa a parecer correta quando ela vem de todos, parece não existir
pessoas dominadas. Essa é a sutileza da ideologia – dominar sem aparentar,
eliminando as chances de qualquer revolução.
A burguesia governa principalmente com a
ideologia, mas quando necessário, ela usa da força física da polícia e do
exército, que são patrocinados por ela, para manter a ordem burguesa. A
ideologia somente desaparece quando o sonho se tornar realidade, mas pode haver
uma crise, o sonho pode não ser bom. Quando o sonho não é bom, o que restar é
voltar a sonhar, criando uma nova ideologia.
Os desejos humanos foram cobertos pelas
ilusões da classe dominante. Desejar é natural, mas se deseja segundo tendências
capitalistas, como gostar do que se pode ser descartado, da quantidade ao invés
da qualidade, da raridade e do prático.
Mas não é a classe burguesa quem cria e cuida
da ideologia dominadora, o próprio sistema econômico proporciona seu
surgimento. A ideologia se forma devido as características dos modos de produção, mantendo até mesmo o
burguês tão alienado quanto o proletário, mas essa primeira classe acaba sendo
beneficiada. A burguesia também é exposta aos mesmos processos de dominação
ideológica que o proletário: a mídia, a escola, a igreja, entre outros. Por
exemplo, na novela o rico sofre e o pobre é feliz, recebe até café da manhã na
cama, servido pela sua esposa que é interpretada por uma atriz linda.
A
ideologia da mídia
A mídia faz parte da superestrutura,
patrocinada pela burguesia e promovendo os interesses da classe burguesa.
Diverte a classe operária, mantendo a alienação. É feita por burgueses para
proletários. Por exemplo, os jornais gastam muitas páginas falando da queda de
um avião como o da Air France em 2009, porque morreram “pessoas que importam”,
os proletários principalmente da classe média. Em São Paulo, existe várias
tragédias acontecendo na periferia a todo momento, mas as pessoas da periferia
não merecem a atenção da mídia, porque a vida dessas pessoas tem um outro valor
social.
Cria-se heróis e vilões na mídia, que podem
variar entre pessoas, partidos, instituições, produtos, etc., que servem como
bode expiatório para desviar a atenção dos processos de dominação e exploração.
A condenação dos vilões purifica e torna os trabalhadores mais dóceis. Por
exemplo, a mídia faz todos acreditarem que tudo de ruim está no setor público, oferecendo
ótimos argumentos para os defensores da privatização.
Graças a mídia, o proletário passa a ter como
preocupação os valores que favorecem a classe dominante, impedindo uma revolta
em massa. A ideologia é a maneira mais limpa, fácil e segura de dominação.
Antigamente era comum a dominação pela força física, mas isso era custoso e
agora é melhor o uso da ideologia.
O erro de Karl Marx, foi achar que a mídia
iria contribuir para uma revolução,
quando o número de proletários fosse muito mais numeroso do que de burgueses. Um
pensador marxista de hoje não analisa a mídia pela mídia, mas a partir da luta
de classe. A mídia dissimula o que realmente importa. Por exemplo, o programa A Grande Família, onde é mostrado uma
família de classe média, uma classe resistente a mudanças e apegada aos seus
pequenos ganhos. O personagem principal, Lineu, é um homem honesto, mas é
porta-voz de uma moral conservadora, reacionária, ortodoxa e garantidora da
manutenção do sistema.
É na superestrutura que se esconde a
realidade da dominação. A mídia é conservadora como tudo mais na superestrutura.
A
ideologia nos campos sociais
Para se conhecer é necessário saber a classe
que se pertence. Para ficar mais fácil ainda de se conhecer, é importante
estudar o campo social em que se vive. Existe o campo jurídico, acadêmico,
jornalístico, político, religioso, etc. A ideologia de cada campo é flexível.
Por exemplo, a ideologia do campo acadêmico poderia mudar constantemente, mas,
ainda sim, mudaria para formas que continuam a favorecer os interesses da
classe dominante.
A sociedade adestra os seres humanos com a
ideologia. Certos comportamentos tornam-se aceitáveis e outros não, em um
determinado campo social. Quando se senti vergonha por algum comportamento, é
porque foi transgredido o protocolo ideal de uma esfera social, e o corpo reage
em contato com esse mundo que o condena, produzindo a vergonha no indivíduo que
não se enquadra. A ideologia determina o mundo em que se vive. Por isso, a
ideologia controla os sentimentos e se ela controla os sentimentos, ela
controla os indivíduos.
Apesar das particularidades dos campos
sociais, todas as ideologias existentes, têm como objetivo legitimar os
interesses da classe dominadora. Em outras palavras, todas as ideologias dos
campos sociais servem a uma maior proposta ideológica, aquela que favorece a
classe dominadora. A ideologia burguesa é mascarada por diversas propostas nos
vários campos, mas é sempre ela a referência para qualquer outra ideologia.
A homologia (união das partes) é o último
estágio para se entender a legitimação de um porta-voz dos interesses da classe
dominante. Essa homologia é a união dos campos sociais para legitimar uma nova
maneira de ser da ideologia. Um campo social aprova o outro de alguma maneira
ou o ajuda. Uma nova maneira de ser da ideologia, é uma nova maneira de
esconder os interessas da classe dominante, com uma capa ideológica nova.
Para entender o materialismo:
·
Burguês é o dono
dos meios de produção.
·
Proletário é o trabalhador, o detentor da força de trabalho.
Considerações:
1º Existe uma desigualdade (o burguês é o dono da bola).
2º O burguês decide o quanto vai pagar. O conceito mais-valia refere-se ao
preço da mercadoria e a exploração do trabalho. A mais-valia é o lucro retido
pelo capitalista, resultante da diferença entre o que ele paga pela mão de obra
e o valor que ele cobra pela mercadoria produzida por essa força de trabalho (o
trabalho vale menos que a mercadoria).
3º A luta de classe ou dominação de classe (porque o burguês ganha sempre).
4º No capitalismo o capital se concentra (a classe burguesa diminui e os poucos que
sobram são os maiores detentores dos meios de produção). O capitalismo
patrocina uma proletarização progressiva das relações de produção.
5º Marx antecipa uma revolução que aconteceu onde ele não previu, na
Rússia que era
czarista (Praticamente um absolutismo que foi substituído por uma monarquia
constitucional, incluindo um parlamento) e não passou pela fase capitalista.
6º A revolução não aconteceu do modo esperado por causa da dominação
ideológica ou simbólica que produz alienação. A classe dominante produz ideologias que
alienam a classe trabalhadora, permitindo uma dominação pacífica. As duas
maiores ferramentas de alienação é a religião e a mídia. Por exemplo: o padre
Marcelo é um instrumento que potencializa as duas.
7º A sociedade se explica pelas relações econômicas. Existe a infraestrutura de uma sociedade
está relacionada direta ou indiretamente com a produção de bens materiais, bens
tangíveis. A superestrutura de uma sociedade é tudo que está ao alcance dos
sentidos, é o resto da produção que não faz parte da infraestrutura: sistema de ideias e sentimentos, instituições
jurídicas e políticas, e manifestações culturais que constituem a consciência
social. Nenhuma produção superestrutural é explica sem uma análise da
infraestrutura da sociedade. Por exemplo: não posso entender o sucesso do padre
Marcelo sem entender como a sociedade que ele vive produz bens materiais.
Crítica ao capitalismo
“O trabalhador fica mais pobre à medida que produz mais riqueza” Karl
Marx.
Quanto mais se trabalha, mais pobre se fica. É a escassez da força
de trabalho e da produção que valoriza o trabalhador. Onde existe uma
grande produção e sobra da força de trabalho, não se valoriza o trabalhador.
Toda a produção ganha independência do trabalhador. A produção passa a ter o valor
estipulado pelo burguês, que é superior ao valor pago pela força de trabalho.
Caso o trabalhador deseje consumir a mercadoria que ele produziu, deverá ser
pago um valor superior ao pagamento que se recebeu para produzir a mercadoria.
Quanto mais o trabalhador produz em quantidade e volume, mais
desvalorizado se torna o trabalhador, porque ele se torna uma mercadoria
vendida a um preço mais baixo tanto quanto mais produz mercadorias.
Referências biográficas:
BARROS, Clóvis de; DAINEZI, Gustavo Fernandes. Devaneios sobre a atualidade do capital. Porto Alegre: CDG, 1ª edição, 2014.
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