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segunda-feira, 15 de maio de 2017

NIETZSCHE – SOBRE FELICIDADE


TRECHOS DA OBRA DE NIETZSCHE – SOBRE FELICIDADE

Sofrimento

(...) o estreito caminho do nosso próprio céu passa sempre pela volúpia do nosso próprio inferno. (...) felicidade e desgraça são duas irmãs gêmeas que crescem ao mesmo tempo ou, como sucede convosco, que ao mesmo tempo ficam pequenas! (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.176)

371 Nós, os incompreensíveis — Reclamamos, alguma vez, de sermos mal compreendidos, desconhecidos, confundidos, caluniados, mal ouvidos ou ignorados? Eis nosso destino — e por muito tempo ainda!, digamos, a nossa modéstia, até o ano de 1901 — é também o nosso título de honra; não nos daríamos um respeito considerável se desejássemos introduzir alguma modificação no caso. Confundem-nos com outros: é que crescemos, é que não paramos de mudar, de fazer estalar velhas cascas, de criar pele nova em todas as primaveras, de nos tornarmos incessantemente mais novos, mais futuros, mais altos e mais fortes, e de enterrar mais fortemente as nossas raízes nas profundezas — no mal — ao mesmo tempo em que abraçamos o céu de uma forma mais apaixo­nada, mais vasta, e aspiramos à sua luz — com todos os nossos ramos, com todas as nossas folhas — mais avidamente. Crescemos como a árvore cresce — algo difícil de compreender, como toda e qualquer vida! — não cresceremos apenas em um só lugar, mas por todos os lados, não em um sentido, mas em todos ao mesmo tempo, em cima, em baixo, dentro, fora, a nossa força cresce ao mesmo tempo no tronco, nos ramos e nas raízes, já não temos liberdade de fazer nada separadamente, de ser nada separadamente... Assim é o nosso destino, como já disse: crescemos até às alturas e, mesmo admitindo que talvez seja para nossa desgraça — pois nos aproxi­mamos sempre mais dos raios! — nem assim deixamos de tirar a glória disso; é apesar de tudo um destino que não partilhamos, que não queremos partilhar, é o destino das alturas, nossa fatalidade... (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.219)

Amor fati

(...) vou dizer qual é o pensamento que deve tornar-se a razão, a garantia e a doçura de toda a existência que ainda terei! Desejo aprender cada vez mais a ver o belo na necessidade das coisas: é assim que serei sempre daqueles que tornam as coisas belas. Amor fati (amor ao destino): seja assim, de agora em diante, o meu amor. Não pretendo fazer a guerra ao que é feio. Não pretendo acusar, nem mesmo os acusadores. Desviarei o meu olhar, será essa, de agora em diante, a minha única negação! E, em uma palavra, portanto: não quero, a partir de hoje, ser outra coisa senão uma pessoa que diz Sim! (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.142-143)

A vida de todos os dias, de todas as horas, parece apenas que procura nos provar sem cessar essa tese; seja como for, bom ou mau tempo, perda de amigos, doença, calúnia, carta que não chega, esfoladela, simples olhar que se lança a uma loja, argumento que outra pessoa vos opõe, livro que se abre, sonho, duplicidade... tudo, tudo se revela a breve prazo ou imediatamente como uma dessas coisas que "tinha de acontecer"... tudo está carregado de um sentido, profundo, de uma profunda utilidade; e isso precisamente para nós! (...) Não pensemos também muito bem da destreza da nossa sabedoria se nos acontece, por momentos, ser surpreendidos pela maravilhosa harmonia que nasce do toque do nosso instrumento, demasiado bela para que ousemos atribuir-nos o seu mérito. Alguém vem, com efeito, às vezes, tocar conosco...é o nosso querido acaso: guia-nos as mãos fortuitamente, e a mais sábia providência não poderia imaginar mais bela música do que esta que nasce então sob a nossa louca mão. (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.143-144)

Eterno retorno

341 O peso mais pesado — E se um dia ou uma noite, um demônio se introduzisse na tua suprema solidão e te dissesse: "Esta exis­tência, tal como a levas e a levaste até aqui, vai-te ser necessário recomeçá-la sem cessar, sem nada de novo, ao contrário, a menor dor, o menor prazer, o menor pensamento, o menor suspiro, tudo o que pertence à vida voltará ainda a repetir-se, tudo o que nela há de indizivelmente grande ou pequeno, tudo voltará a acontecer, e voltará a verificar-se na mesma ordem, seguindo a mesma impiedosa sucessão, esta aranha também voltará a aparecer, este lugar entre as árvores, e este instante, e eu também! A eterna ampulheta da vida será invertida sem descanso, e tu com ela, ínfima poeira das poei­ras!"... Não te lançarias por terra, rangendo os dentes e amaldi­çoando esse demônio? Ou já vivestes um instante prodigioso, e então lhe responderias: "Tu és um deus; nunca ouvi palavras tão divinas!". Caso este pensamento te dominasse, talvez te transfor­masse e talvez te aniquilasse; perguntarias a propósito de tudo: "Queres isto outra vez e por repetidas vezes, até o infinito?". E pesaria sobre tuas ações com um peso decisivo e terrível! Ou então, como seria necessário que amasse a ti mesmo e que amasse a vida para nunca mais desejar nada além dessa suprema confirmação! (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.179)

Quem, semelhante a mim, com algum desejo enigmático, se esforçou longamente por pensar a fundo o pessimismo e salvá-lo da estreiteza e da simplicidade meio cristã (...); quem realmente olhou ao menos uma vez um olho asiático e mais que asiático para o interior e para o fundo desse modo de pensar que, dentre todos os modos de pensar possíveis, é o que mais nega o mundo – além do bem e do mal, e não mais, como Buda e Schopenhauer, sob o encanto e na ilusão da moral –, essa talvez tenha, precisamente com isso, sem que propriamente o quisesse, aberto os olhos para o ideal contrário: para o ideal do homem mais pleno de alegria, mais vivo mais afirmador do mundo, que não somente aprendeu a contentar-se e suportar aquilo que foi e que é, mas que o quer novamente tal como foi e é, por toda a eternidade, exclamando insaciavelmente da capo [do início], não apenas para si, mas para a peça e o espetáculo inteiros, e não somente para um espetáculo, mas no fundo para aquele que justamente precisa desse espetáculo e faz com que ele seja preciso: pois ele sempre precisa de si outra vez e faz com que seja preciso — O quê? E isto não seria – circulus vitiosus [círculo vicioso] deus? (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 81)

Felicidade

Algumas teses. — Ao indivíduo, enquanto busca sua felicidade, não se deve dar prescrições sobre o caminho para a felicidade: pois a felicidade individual brota de leis próprias, desconhecidas de todos, e preceitos externos podem apenas inibi-la, impedi-la. — Os preceitos chamados de "morais" são, na verdade, dirigidos contra os indivíduos, e não querem abso­lutamente a sua felicidade. Tampouco referem-se eles à "feli­cidade e bem-estar da humanidade" — palavras a que não é possível ligar conceitos rigorosos, e menos ainda usar como estrelas-guia no escuro oceano dos empenhos morais. — Não é verdade que a moralidade, como quer o preconceito, seja mais propícia ao desenvolvimento da razão que a imoralidade. — Não é verdade que o objetivo inconsciente, no desenvolvimento de todo ser consciente (bicho, homem, humanidade, etc.), seja sua "felicidade suprema": trata-se antes de alcançar, em todos os estágios do desenvolvimento, uma felicidade particular e in­comparável, nem superior nem inferior, mas simplesmente pe­culiar. Desenvolvimento não busca felicidade, mas desenvolvi­mento e nada mais. — Apenas se a humanidade tivesse um objetivo geralmente reconhecido poderia alguém propor: "De tal e tal modo deve-se agir"; atualmente não há esse objetivo. Logo, não se deve relacionar as exigências da moral à humanidade, o que é insensatez e diversão. — Recomendar à humanidade um objetivo é algo bem diferente: então ele é concebido como algo que está ao nosso bel-prazer; supondo que agradasse à humanida­de a proposta, ela poderia então dar-se uma lei moral, igualmen­te a partir de seu bel-prazer. Mas até agora a lei moral devia estar acima do bel-prazer: não queríamos propriamente dar-nos essa lei, e sim toma-la de alguma parte, ou achá-la em algum lugar, ou deixá-la impor-se de alguma parte. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.73)

Louvor e censura. — Se uma guerra tem desenlace infeliz, pergunta-se pelo "culpado" da guerra; se termina com vitória, elogia-se quem a instigou. Sempre é buscada a culpa quando há um fracasso, pois este traz consigo um mau humor a que se aplica automaticamente um único remédio: uma nova excitação do sentimento de poder — e esta se acha na condenação do "culpado". Esse culpado não é um bode expiatório da culpa de outros: é a vítima dos fracos, humilhados, abatidos, que de algum modo querem provar a si mesmos que ainda têm força. Também condenar a si próprio pode ser um meio de readquirir o sentimento de força após a derrota. — Já a glorificação do instigador é, com frequência, o resultado igualmente cego de outro impulso que procura sua vítima — e desta vez o sacrifício é doce e convidativo até para a vítima —: quando o sentimento de poder de um povo, uma sociedade, está saturado em virtude de um grande, fascinante êxito, e sobrevêm um cansaço do triun­fo, uma parte do orgulho é abandonada; avulta o sentimento da devoção, que busca seu objeto. — Ao sermos louvados ou censu­rados, nisto somos geralmente oportunidades, e com frequência oportunidades agarradas arbitrariamente, para nossos próximos descarregarem o impulso de louvor ou censura neles acumu­lado: nos dois casos lhes prestamos um benefício, no qual não temos mérito e pelo qual não têm gratidão. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.101-102)

NIETZSCHE – SOBRE A MORAL





TRECHOS DAS OBRAS DE NIETZSCHE – SOBRE A MORAL

Não há quaisquer fenômenos morais, mas apenas uma interpretação moral de fenômenos..... (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 97)

“(..) a história da luta da moral contra os instintos fundamentais da vida é a maior imoralidade que até hoje existiu sobre a terra...” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.274)

Chamo um animal, uma espécie, um indivíduo de corrompidos quando eles perdem os seus instintos, quan­do escolhem, quando preferem o que lhes é prejudicial. Uma história dos "sentimentos superiores", dos "ideais da humanidade" – e é possível que eu tenha de narrá-la – também seria quase a explicação de por que o homem está tão corrompido.

Considero a própria vida como instinto de cresci­mento, de duração, de acumulação de forças, como ins­tinto para o poder, onde falta a vontade de poder, ocorre declínio. Minha tese é a de que todos os valores supremos da humanidade carecem dessa vontade – que sob os no­mes mais sagrados há valores de declínio, valores niilistas no comando. (NIETZSCHE, O Anticristo, 2016, p.18)

Os animais e a moral — As práticas que são requeridas na sociedade refinada: evitar cuidadosamente o ridículo, o chamativo, o pretensioso, relegar tanto suas virtudes como suas veementes cobiças, mostrar-se como igual, inserir-se, dimi­nuir-se — tudo isso que é a moral social encontra-se, grosso modo, em toda parte, até na profundeza do mundo animal, — e apenas nessa profundeza enxergamos a intenção por trás dessas gentis precauções: quer-se escapar aos perseguidores e ser favo­recido na busca da presa. Por isso os animais aprendem a se dominar e a dissimular de tal modo que alguns, por exemplo, adéquam suas cores à cor do ambiente (mediante a chamada "função cromática"), fazem-se de mortos ou assumem as formas e cores de outro animal ou de areia, folhas, liquens, fungos (aquilo que os pesquisadores ingleses designam por mimicry [mimetismo]). Dessa maneira o indivíduo se esconde na genera­lidade do conceito "homem" ou na sociedade, ou se adéqua a governantes, classes, partidos, opiniões da época ou do ambiente: e para todas as sutis maneiras de nos pormos felizes, gra­tos, fortes, enamorados, encontra-se facilmente o símile animal. Também o sentido para a verdade, que é, no fundo, o sentido para a segurança, o homem tem em comum com os animais: não queremos nos deixar enganar, não queremos induzir a nós próprios em erro, ouvimos desconfiados a conversa de nossas próprias paixões, contemo-nos e ficamos à espreita de nós mesmos; tudo isso o animal entende como o homem, também nele o autodomínio nasce do sentido para o real (da pru­dência). E igualmente observa os efeitos que produz na noção que têm os outros animais, aprende a olhar de volta para si a partir dela, a apreender-se "objetivamente", tem seu grau de autoconhecimento. O animal julga os movimentos de seus rivais e amigos, memoriza as peculiaridades deles, orienta-se por elas: no tocante a indivíduos de determinada espécie renuncia definitivamente à luta, e também percebe, na aproximação de algumas variedades de animais, a intenção de paz e de acordo. Os primórdios da justiça, assim como da prudência, da modera­ção, da valentia — em suma, tudo aquilo que designamos pelo nome de virtudes socráticas é animal: uma consequência dos im­pulsos que ensinam a procurar alimento e escapar aos inimigos. Se considerarmos que também o homem superior apenas se elevou e refinou no tipo da alimentação e na ideia do que lhe é hostil, será lícito caracterizar todo o fenômeno da moral como animal. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.28-29)

Durante a mais longa época da história humana – a chamada época pré-histórica –, o valor ou o desvalor de uma ação era derivado de suas consequências (...) Chamamos esse período de período pré-moral da humanidade: o imperativo ‘conhece-te a ti mesmo!’ ainda era desconhecido naquele tempo. Nos dez últimos milênios, entretanto, em algumas grandes regiões da Terra se chegou passo a passo ao pon­to de deixar a origem da ação, e não mais as consequên­cias, decidir acerca de seu valor (...) a origem de uma ação foi interpretada no mais preciso sentido de origem a partir de uma intenção; chegou-se à crença unânime de que o va­lor de uma ação reside no valor de sua intenção. A intenção como a inteira origem e pré-história de uma ação: sob este preconceito se louvou, repreendeu, condenou e também se filosofou moralmente sobre a Terra quase até a época mo­derna. – Não teríamos hoje, porém, chegado à necessidade de mais uma vez nos decidirmos acerca de uma inversão e de um deslocamento radical dos valores, graças a uma repetida autorreflexão e aprofundamento do homem – não es­taríamos no limiar de um período que, negativamente, po­deria ser designado em primeiro lugar de extramoral: hoje, quando pelo menos entre nós, imoralistas, se faz sentir a suspeita de que precisamente naquilo que não é intencional numa ação reside o seu valor decisivo, e de que toda a sua intencionalidade, tudo que dela pode ser visto, sabido, ‘co­nhecido’, ainda pertence à sua superfície e epiderme – a qual, como toda epiderme, revela algo, mas oculta muito mais? Em suma, acreditamos que a intenção é apenas um sinal e um sintoma que primeiro precisa de interpretação, um sinal, além disso, que significa coisas demais e, por conseguinte, não significa quase nada por si mesmo – que a moral, no sentido em que ela foi entendida até agora, portanto, como moral de intenções, foi um preconceito, uma precipitação, uma provisoriedade talvez, uma coisa mais ou menos da categoria e da alquimia, mas em todo caso algo que precisa ser superado. (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 57-58-59)

A refinada crueldade como virtude. — Eis uma moralidade que se baseia inteiramente no impulso para a distinção — não pensem muito bem dela! Pois que impulso é esse e qual o pensamento por trás dele? Queremos que a nossa simples vista cause dor ao outro e desperte sua inveja, o sentimento de impo­tência e de declínio; queremos fazê-lo saborear a amargura de seu fado, ao deixar-lhe na língua uma gota de nosso mel e fixá-lo nos olhos agudamente e com maldosa alegria, ante o suposto benefício. Esse tornou-se humilde e perfeito em sua humilda­de — procurem aqueles que há muito ele quer assim torturar! já os encontrarão! Aquele mostra-se piedoso com os animais e é admirado por isso — mas há certas pessoas nas quais, justa­mente com isso, ele quis dar livre curso à sua crueldade. Ali está um grande artista: a volúpia que antecipadamente sentiu com a inveja dos rivais derrotados não deixou sua energia esmorecer, até ele tornar-se grande — quantos instantes amargos a sua grandeza não custou a outras almas! A castidade da freira: que olhares castigadores ela não lança ao rosto das mulheres que vivem de outra forma! quanto prazer da vingança há nesses olhos! — O tema é breve, as variações em torno dele podem ser inúmeras, mas dificilmente tediosas — pois é ainda uma novi­dade paradoxal e quase dolorosa que a moralidade da distinção seja, em última instância, o prazer na crueldade refinada. Em última instância — isto significa aqui: sempre na primeira gera­ção. Pois quando o hábito de uma ação que distingue é herdado, o pensamento por trás dela não é herdado (apenas sentimentos são hereditários, não pensamentos): e, desde que a educação não o introduza novamente, na segunda geração não há mais prazer na crueldade; e sim apenas prazer no hábito como tal. Esse prazer, porém, é o primeiro estágio do "bem". (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.30-31)

Simulação como dever. — Na maioria das vezes, a bonda­de foi desenvolvida pela demorada simulação que buscava parecer bondade: em todo lugar onde existiu grande poder, viu-se a ne­cessidade de justamente esse tipo de simulação — ela infunde certeza e confiança, e centuplica a verdadeira soma de poder físi­co. A mentira é, se não a mãe, certamente a ama de leite da bondade. Também a honradez foi cultivada sobretudo pela demanda de uma aparência de honradez e probidade: nas aristocracias he­reditárias. O que é simulado por longo tempo torna-se enfim natureza: a simulação acaba por suprimir a si mesma, e órgãos e instintos são os inesperados frutos do jardim da hipocrisia. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.158)

(...) a história dos sentimentos morais é muito diferente da história dos conceitos morais. Aqueles são poderosos antes da ação, estes depois da ação, em vista da neces­sidade de pronunciar-se sobre ela. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.33)

Com seus princípios, quer-se tiranizar ou justificar ou honrar ou insultar ou ocultar seus hábitos: – é provável que dois homens com princípios idênticos queiram com eles algo fundamentalmente diferente. (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 93)

Há uma desmedida alegria da bondade que se parece com maldade. (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 107)

Contra os caluniadores da natureza — Que seres desagradáveis estas pessoas em que toda tendência natural se torna rapidamente doença, algo deformante ou mesmo ignomínia! São elas que nos fazem acreditar que as inclinações naturais, os instintos do homem são maus; são elas a causa da nossa injustiça para com a nossa natureza, para com toda a natureza! Não faltam pessoas que teriam o direito de se abandonar às suas inclinações com graça, com despreocupação: mas não o fazem, com receio desta "má essência" imaginária da natureza! (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.152)

“Crítica da moral da décadence. – Uma moral "altruísta", uma moral em que o egoísmo definha, é, de qualquer maneira, um mau sinal. Isso vale para o indivíduo, isso vale sobretudo para povos. Falta o melhor quando começa a faltar egoísmo. Escolher instintivamente o que é danoso para si, ser atraído por motivos "desinteressados", é quase a fórmula da décadence. "Não buscar o seu benefício" — isso é apenas a folha de parreira moral que encobre um fato muito diferente, a saber, um fato fisiológico: "Não sei mais encontrar o meu benefício"... Desagregação dos instintos! — Quando o homem se torna altruísta, é o seu fim. — Em vez de dizer, ingenuamente, "Eu não valho mais nada", a mentira moral na boca do décadent diz: "Nada tem valor — a vida não vale nada"...” (NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos, 2010, p.103)

A vingança sobre o espirito e outros subentendidos da moral — A moral — onde acreditais que possa ter os seus mais perigosos e pérfidos advogados?... Eis aqui um homem que não teve bom êxito, que não tem espírito o bastante para dele se alegrar e que recebeu a cultura exata apenas para dar-se conta disso; aborrece-se, enjoa-se, despreza-se; privado, por uma pequena herança que recebeu, da última consolação, a "bênção do trabalho", do esquecimento de si na "tarefa cotidiana"; é um ser que, no fundo, tem vergonha da sua existência — talvez, ainda por cima, mantenha alguns pequenos vícios no fundo da alma; por outro lado, não pode impedir-se de se corromper cada vez mais, de se tornar cada vez mais irritável e vaidoso em virtude de leituras a que não tem direito, ou a frequências demasiado intelectuais para as suas capacidades digestivas: envenenado até à medula — pois para um malogrado desta natureza o espírito torna-se veneno, e veneno a cultura, a solidão e a higiene — prostra-se finalmente em um estado de rancor, em uma vontade crônica de se vingar... O que pensais que tenha necessidade, que tenha absolutamente necessidade para conservar diante dele mesmo uma aparência de superioridade sobre espíritos mais fortes do que o seu, para se dar, pelo menos em imaginação, a volúpia da vingança satisfeita? A moralidade, sempre ela; pode pôr-se a mão no fogo, precisa das grandes frases da moral, do grande tambor da justiça, da sabedoria, da santidade, da virtude; tem necessidade do estoicismo, da atitude (oh, estoicismo, como escondes bem o que não tem!...), precisa da capa do silêncio superior, da afabilidade, da suavidade, e outros envoltórios idealistas sob os quais vemos caminhar os contempladores incuráveis deles próprios, que são também os incuráveis vaidosos. Não me entendam mal: acontece, às vezes, que estes inimigos natos do espírito dão nascença às extraordinárias amostras humanas que o povo honra com o nome de santos e de sábios; são eles que produzem os monstros da moral que fazem barulho, que fazem história: um Santo Agostinho, por exemplo. (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.206)

(...) moralidade não é outra coisa (e, portanto, não mais!) do que obediência a costumes, não importa quais sejam; mas cos­tumes são a maneira tradicional de agir e avaliar. Em coisas nas quais nenhuma tradição manda não existe moralidade; e quanto menos a vida é determinada pela tradição, tanto menor é o cír­culo da moralidade. O homem livre é não moral, porque em tudo quer depender de si, não de uma tradição: em todos os estados originais da humanidade, "mau" significa o mesmo que "individual", "livre", "arbitrário", "inusitado", "inaudito", "im­previsível". Sempre conforme o padrão desses estados originais: se uma ação é realizada não porque a tradição ordena, mas por outros motivos (a utilidade individual, por exemplo), mesmo por aqueles que então fundaram a tradição, ela é considerada imoral e assim tida mesmo por seu ator: pois não foi realizada em obe­diência à tradição. O que é a tradição? Uma autoridade superior, a que se obedece não porque ordena o que nos é útil, mas por­que ordena. — O que distingue esse sentimento ante a tradição do sentimento do medo? Ele é o medo ante um intelecto supe­rior que manda, ante um incompreensível poder indeterminado, ante algo mais do que pessoal — há superstição nesse medo. — Originalmente fazia parte do domínio da moralidade toda a educação e os cuidados da saúde, o casamento, as artes da cura, a guerra, a agricultura, a fala e o silêncio, o relacionamento de uns com os outros e com os deuses: ela exigia que alguém ob­servasse os preceitos sem pensar em si como indivíduo. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.17)

“Em todas as épocas se quis "melhorar" os homens: isso, sobretudo, foi chamado de moral. (...) Chamar a domesticação de um animal de "melhoramento" soa aos nossos ouvidos quase como uma piada. Quem sabe o que acontece nas exposições de feras duvida que nelas a besta seja "melhorada". Ela é enfraquecida, tornada menos daninha, transformada numa besta doentia através do afeto depressivo do medo, através da dor, dos ferimentos, da fome. — Não é diferente com o homem domesticado que o sacerdote "melhorou"”. (NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos, 2010, p.60-61)

A moral ensina ao homem a ser função do rebanho, e a se atribuir valor somente como função. Uma vez que as condições de conserva­ção eram muito diferentes de uma comunidade para outra, resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transformações essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades são ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haverá ainda morais muito divergentes. Moralidade é o instinto gregário no indivíduo. (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.111)

“... Não podemos hoje imaginar a degenerescência moral separada da degenerescência fisiológica: a primeira nada mais é que o conjunto de sintomas da segunda: somos necessariamente maus, como somos necessariamente doentes... Mau: a palavra exprime aqui certas incapacidades que são fisiologicamente ligadas ao tipo da degenerescência: por exemplo, a fraqueza da vontade, a incerteza e até a multiplicidade da "pessoa", a impotência para suprimir a reação a uma excitação qualquer e de "dominar-se", o constrangimento diante de toda espécie de sugestão de uma vontade estranha. O vício não é a causa; o vício é a consequência.”(NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.269) 

“A moral religiosa — A emoção, o grande desejo, as paixões do poder, do amor, da vingança, da posse: os moralistas querem extingui-los, arrancá-los, para ‘purificar’ a alma.

É a mesma lógica que diz: ‘Se teu membro te escandaliza, arranca-o’.

Sua conclusão é sempre: somente o homem castrado pode tornar-se um homem bom.” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.306-307)

“A partir de todas as idiossincrasias [características peculiares] morais, vejo uma avaliação fundamentalmente diferente: não conheço essas separações absurdas entre o gênio e o mundo da vontade moral e imoral. O homem moral é de uma espécie inferior ao homem imoral, de uma espécie mais fraca; é um tipo segundo a moral, não é porém seu próprio tipo; é uma cópia, uma boa cópia ao rigor — a medida de seu valor reside fora dele. Estimo o homem pela quantidade de potência e pela plenitude de sua vontade; e não conforme o enfraquecimento e a purificação da vontade; considero uma filosofia que ensina a negação da vontade como uma doutrina de aviltamento e de calúnia... Julgo a potência de uma vontade segundo o grau de resistência, de dor, de tortura que ela suporta para convertê-las em seu favor; não censuro à existência seu caráter mau e doloroso, mas espero que esse caráter se tornará um dia mais mau e mais doloroso ainda...” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.475)






“O constrangimento da vontade era tido como o que dava ao ato valor superior: Deus era considerado então o autor...

Vem o contramovimento: o dos moralistas, sempre com o mesmo preconceito, o de crer que somos responsáveis pelos menores acontecimentos, se os quisermos. O valor do homem está fixado como valor moral: portanto, seu valor deve ser causa prima; logo, deve haver aí um princípio no homem, o "livre-arbítrio", que seria a causa prima. Há sempre a segunda intenção: se o homem não é a causa prima enquanto vontade, é irresponsável, consequentemente, não é da competência da moral. A virtude e o vício serão então automáticos e inconscientes.” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.266)

“O erro do livre-arbítrio. — (...) Em todo lugar onde se procura responsabilidades, costuma ser o instinto de querer punir e julgar que está a procura delas. O devir foi despido de sua inocência quando se busca explicar pela vontade, pelas intenções ou por atos de responsabilidade alguma maneira de ser: a doutrina da vontade foi inventada essencialmente com a finalidade de punir, ou seja, de querer encontrar culpados. (...) O cristianismo é uma metafísica de carrasco...

(...) Fomos nós que inventamos a noção de "finalidade": a finalidade está ausente da realidade... Somos necessários, somos um fragmento de destino, pertencemos ao todo, estamos no todo — não há nada que possa julgar, medir, comparar e condenar o nosso ser, pois isso significaria julgar, medir, comparar e condenar o todo... Mas não há nada fora do todo!” (NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos, 2010, p.57-59)

Há dois tipos de negadores da moralidade. — "Negar a moralidade" — isso pode significar, primeiro: negar que os motivos morais que as pessoas alegam tenham-nas realmente impelido a seus atos — ou seja, a afirmação de que a moralidade consiste em palavras e é parte dos embustes grosseiros ou sutis (embustes de si mesmo, em especial) dos seres humanos, e talvez principalmente dos mais famosos pela virtude. Depois pode significar: negar que os juízos morais repousem sobre verdades. Nesse caso se admite que são realmente motivos da ação, mas que, dessa forma, são os erros, fundamento de todo juízo moral, que impelem os indivíduos a suas ações morais. Este é o meu ponto de vista; mas seria o último a ignorar que em muitíssimos casos a sutil desconfiança do primeiro ponto de vista, ou seja, no espírito de La Rochefoucauld, é também justificada e, certamente, de grande utilidade geral. — Assim, nego a moralidade como nego a alquimia, ou seja, nego os seus pressupostos; mas não que tenha havido alquimistas que acreditaram nesses pres­supostos e agiram de acordo com eles. — Também nego a imo­ralidade: não que inúmeras pessoas sintam-se imorais, mas que haja razão verdadeira para assim sentir-se. Não nego, como é evidente — a menos que eu seja um tolo —, que muitas ações consideradas imorais devem ser evitadas e combatidas; do mes­mo modo, que muitas consideradas morais devem ser praticadas e promovidas — mas acho que, num caso e no outro, por razões outras que as de até agora. Temos que aprender a pensar de outra forma — para enfim, talvez bem mais tarde, alcançar ainda mais: sentir de outra forma. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.69-70)

O problema que com isso coloco não se refere ao que deve substituir a humanidade na sucessão dos seres (o homem é um final), mas ao tipo de homem que se deve cultivar, se deve querer como sendo o de mais alto valor, mais digno de vida, mais seguro de futuro.

Esse tipo de alto valor já existiu com bastante frequência: mas como um acaso feliz, uma exceção, jamais como algo desejado. Pelo contrário, precisamente ele foi o mais temido, foi até agora quase o temível; – e foi por temor que se quis, se cultivou, se alcançou o tipo contrário: o animal doméstico, o animal de rebanho, o animal doente homem – o cristão... (NIETZSCHE, O Anticristo, 2016, p.15)

domingo, 9 de abril de 2017

NIETZSCHE - VONTADE DE PODER


Trechos das obras sobre vontade de poder

“O prazer e o desprazer são simples consequências, simples fenômenos secundários. O que o homem quer, o que a menor parcela de organismo vivo quer, é um plus de potência. Na aspiração para um fim, há tanto prazer quanto desprazer; daquela vontade o homem busca a resistência, tem necessidade de algo que se lhe oponha... O desprazer, obstáculo da vontade de potência, é, portanto, um fato normal, o ingrediente normal de todo fenômeno orgânico; o homem não o evita, ao contrário, tem contínua necessidade dele: qualquer vitória, qualquer sentimento de prazer, qualquer acontecimento pressupõe uma resistência vencida. (...) O que chamamos nutrição é simplesmente a consequência, a aplicação dessa vontade primitiva de tornar-se mais forte.
Logo, o desprazer não é acompanhado de uma diminuição de nosso sentimento de potência; tão de somenos é esse o caso que, geralmente, trata-se de uma excitação dessa vontade de potência – o obstáculo é o stimulus da vontade de potência.”  (NIETZSCHE, Vontade de potência, 2011, p.388)

Os fisiólogos deveriam refletir ao estabelecer o impulso de autoconservação com o impulso cardinal de um ser orgânico. Algo que é vivo quer sobretudo dar vazão à sua força – a vida mesma é vontade de poder –: a autoconservação é apenas uma das consequências indiretas e mais frequentes disso. (...)” (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 35)

“Todo sentimento que leva a superação é ‘saudável’ e todo sentimento que retrai e faz querer destruir algo é ‘doentio’.
(...) O prazer é um sentimento da potência: quando se excluem as paixões, excluem-se as condições que provocam o sentimento de potência ao mais alto grau, e consequentemente o prazer. A mais alta "razoabilidade" é um estado frio e claro que está longe de provocar aquele sentimento de felicidade que traz consigo toda espécie de embriaguez...” (NIETZSCHE, Vontade de potência, 2011, p.322)

“(...) o prazer é apenas um sintoma do sentimento de que a potência foi atingida, é a percepção de uma diferença (não se aspira ao prazer: este produz-se desde que se atinge ao que se aspirava: o prazer acompanha, ele não põe em movimento); que toda a força é vontade de potência, que não há outra força física, dinâmica ou psíquica...”(NIETZSCHE, Vontade de potência, 2011, p.386)

Sobre a doutrina do sentimento de poder — Ao fazer o bem e mal aos outros exercitamos o nosso poder sobre eles — é, nesse caso, o que queremos! Fazemos mal a quem devemos fazer sentir nosso poder, pois o sofrimento é um meio muito mais sensível, para esse fim, do que o prazer: o sofrimento procura sempre a sua causa enquanto o prazer mostra inclinação para se bastar a si próprio e a não olhar para trás. Ao fazer bem ou ao desejarmos o bem exercemos o nosso poder sobre aqueles que, de alguma forma, já estão na nossa dependência (quer dizer que se habituaram a pensar em nós como suas causas); queremos aumentar o seu poder porque assim aumentamos o nosso, ou queremos mostrar-lhes a vantagem que há em estar em nosso poder; (...) mesmo se arriscarmos a nossa vida, como o mártir [pessoa que sofreu torturas, ou mesmo morte, por não renunciar a qualquer outra crença] pela sua igreja, é um sacrifício que fazemos à nossa necessidade de poder, ou com a finalidade de conservar o nosso sentimento de poder. Quando se sente profundamente que se "possui o verdadeiro", quantas outras posses não se abandonariam para conservar este sentimento! O que não se lança pela borda afora para continuar à superfície, ou seja, continuar "por cima" daqueles que carecem da verdade! Indubita­velmente, é raro que o estado que acompanha o gesto de fazer mal seja tão agradável, tão puramente agradável, como aquele que acompanha o gesto de fazer bem; trata-se de um sinal que revela que ainda nos falta poder ou que trai o nosso desgosto diante desta pobreza, anunciando novos perigos e novas incertezas para o nosso capital de poder, mantendo o nosso horizonte velado por perspecti­vas de vingança, escárnio, punição, malogro. Somente para os ho­mens mais irritáveis, para pessoas mais ávidas do sentimento de poder, pode haver algum prazer em imprimir ao recalcitrante [aquele que demonstra resistência em obedecer] o selo do seu domínio; para aqueles que só veem nisso aborrecimento, é um desprazer o espetáculo de um ser já submetido (tornado objeto de benevolência). Trata-se de saber como o homem acostumou-se a temperar sua vida; é sempre uma questão de gosto: quer que o crescimento de poder seja lento ou brusco, seguro ou perigoso e temerário? Procura-se esta ou aquela especiaria conforme a inclinação do nosso temperamento. Uma presa fácil, para as naturezas orgulhosas, é algo de desprezível; só experimentam um sentimento de bem-estar diante de homens íntegros que poderiam tornar-se seus inimigos, e diante de todas as posses dificilmente acessíveis; muitas vezes duras, para aquele que sofre, porque não o julgam digno do seu esforço e da sua altivez, mas mostram-se tanto mais corteses para com os seus semelhantes com os quais a luta seria certamente honrosa, se aparecesse ocasião para isso. Foi sob o efeito do sentimento de bem-estar que lhe dava esta perspectiva que os homens da casta cavalheiresca se acostumaram a usar uns para com os outros de uma delicadeza requintada. A piedade é o sentimento mais agradável para aqueles que são pouco orgulhosos e que não têm possibilidades de fazer grandes conquistas: a presa fácil — qualquer ser sofredor é presa fácil — é coisa que os encanta. Louva-se a piedade como sendo a virtude das mulheres de vida alegre. (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.45-46)

“As funções animais são mil vezes mais importantes que os belos estados de alma e os ápices da consciência: estes últimos são um excedente enquanto não devem ser instrumentos para essas funções animais. Toda a vida consciente, o espírito assim como a alma e o coração, a bondade assim como a virtude, a serviço de quem elas trabalham? A serviço de um aperfeiçoamento, tão grande quanto possível, das funções animais essenciais (os meios de nutrição, de aumento de energia): antes de tudo, a serviço do aumento da vida.
O que chamamos "corpo" e "carne" tem muito mais importância: o resto é um pequeno acessório. Continuar a tecer a tela da vida, de maneira que o fio se torne cada vez mais potente, eis a tarefa.
(...)
A consciência é simplesmente um meio; os sentimentos agradáveis ou desagradáveis também não são mais que meios! De acordo com que avaliamos objetivamente o valor? Somente de acordo com a quantidade de potência aumentada e organizada.” (NIETZSCHE, Vontade de potência, 2011, p.396)

“(...) a vontade não é apenas um complexo de sentir e pensar, mas antes de tudo, ainda um afeto (...). Um homem que quer – ordena a um algo em si que obedece ou que ele acredita que obedece. (...) na medida em que no caso dado somos ao mesmo tempo os mandantes e os obedecentes, e, como obedecentes, conhecemos as sensações de coação, insistência, pressão, resistência, movimento, que costumam iniciar imediatamente após  o ato de vontade; na medida em que por outro lado, temos o hábito de não fazer caso, de nos enganar acerca dessa dualidade graças ao conceito sintético ‘eu’, prendeu-se ao querer ainda toda uma cadeia de conclusões errôneas e, por conseguinte, de falsas valorações da própria vontade — de tal modo que o querente [que quer] acredita de boa-fé que o querer basta para a ação. (...) a aparência se traduziu na sensação de que aí haveria uma necessidade do efeito; em suma, o querente acredita, com um razoável grau de certeza, que vontade e ação, de algum modo, são uma só coisa – ele atribui o êxito, a execução do querer, à própria vontade, gozando com isso de um aumento daquela sensação de poder que todo êxito traz consigo. ‘Livre-arbítrio’ – essa é a expressão para aquele multiforme estado de prazer do querente que ordena e ao mesmo tempo se funde num só com o executante – que, como tal, goza conjuntamente o triunfo sobre as resistências, mas julga consigo mesmo que foi sua própria vontade que verdadeiramente superou as resistências.” (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 40-41)

“O que é bom? –  Tudo o que eleva a sensação de poder, a vontade de poder, o próprio poder no homem.
O que é ruim? – Tudo o que provém da fraqueza.
O que é a felicidade? – A sensação de que o poder cresce, de que uma resistência é superada.
Não o contentamento, porém mais poder; acima de tudo não a paz, mas a guerra; não a virtude, mas a exce­lência (virtude no estilo da Renascença, virtù, virtude sem moralina).
Os fracos e os malogrados [frustrado] devem sucumbir: pri­meira tese de nosso amor à humanidade. E ainda devem ser ajudados nisso.
O que é mais danoso do que qualquer vício? - A compaixão ativa por todos os malogrados e fracos – o cristia­nismo...” (NIETZSCHE, O Anticristo, 2016, p.14)

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

MAQUIAVEL

Trechos da obra O Príncipe


NICOLAU MAQUIAVEL


CAPÍTULO XVII

Da crueldade e da piedade e se é melhor ser amado ou temido

(...) cada Príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel: apesar disso, deve cuidar de empregar convenientemente essa piedade. (...) Não deve, portanto, importar ao Príncipe a qualificação de cruel para manter seus súditos unidos e leais, porque, com raras exceções, é ele mais piedoso do que aqueles que por muita clemência deixam acontecer desordens, das quais podem nascer assassínios ou rapinagem.
(...) será melhor ser amado que temido ou vice-versa. Responder-se-á que se desejaria ser uma e outra coisa; mas como é difícil reunir ao mesmo tempo as qualidades que dão aqueles resultados, é muito mais seguro ser temido que amado, quando se tenha de falhar em uma das duas. E que os homens geralmente são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ambiciosos de dinheiro, e, enquanto lhes fizeres bem, todos estarão contigo, oferecendo-te sangue, bens, vida, filhos, como disse acima, desde que a necessidade esteja longe de ti. Mas, quando ela se avizinha, voltam-se para outra parte. E o Príncipe, que se confiou plenamente em palavras e não tomou outras precauções, está arruinado. Pois as amizades conquistadas por interesse, e não por grandeza e nobreza de caráter, são compradas, mas não se pode contar com elas no momento necessário. E os homens hesitam menos em ofender aos que se fazem amar do que aos que se fazem temer, porque o amor é mantido por um vínculo de obrigação, o qual, em virtude de serem os homens maus, é rompido sempre que lhe aprouver, ao passo que o temor que se infunde é alimentado pelo receio de castigo, que é um sentimento que não se abandona nunca. Deve, portanto, o Príncipe fazer-se temer de maneira que, se não se fizer amado, pelo menos evite o ódio, pois é fácil ser ao mesmo tempo temido e não odiado, o que sucederá uma vez que se abstenha de se apoderar dos bens e das mulheres de seus cidadãos e de seus súditos, e, mesmo sendo obrigado a atingir a família de alguém, poderá fazê-lo quando houver justificativa conveniente e causa manifesta. Deve, sobretudo, abster-se de se aproveitar dos bens dos outros, porque os homens esquecem mais depressa a morte do pai do que a perda de seu patrimônio.
Mas quando o Príncipe está em campanha e tem sob seu comando grande número de soldados, então é absolutamente necessário não se importar com a fama de cruel, porque, sem ela, não se conseguiria nunca manter um exército unido e disposto a qualquer ação.

CAPÍTULO XVIII

De que forma os Príncipes devem manter a palavra

Todos compreendem o quanto seja louvável a um Príncipe manter a palavra e viver com integridade, não com astúcia; contudo, observa-se, pela experiência, em nosso tempo, que houve Príncipes que fizeram grandes coisas, mas em pouca conta tiveram a palavra dada, e souberam, pela astúcia, iludir os homens, superando, enfim, os que foram leais.
(...) um Príncipe prudente não pode nem deve guardar a palavra dada quando isso se lhe torne prejudicial e quando as causas que o determinaram cessem de existir. Se os homens todos fossem bons, esse preceito seria mau. Mas, dado que são maus e que não a observariam a teu respeito, também não és obrigado a cumpri-la para com eles. Jamais faltaram aos Príncipes razões legítimas para dissimular o descumprimento da palavra empenhada.
(...) É que os homens, em geral, julgam mais pelos olhos do que pelas mãos, pois todos podem ver, mas poucos são os que sabem sentir. Todos veem o que tu pareces, mas poucos o que és realmente, e estes poucos não têm a audácia de contrariar a opinião dos que têm por si a majestade do Estado. Nas ações de todos os homens, principalmente dos Príncipes, onde não há tribunal para recorrer, o que importa são os fins. Procure, pois, um Príncipe, vencer e conservar o Estado. Os meios que empregar serão sempre julgados honrosos e louvados por todos, porque o vulgo é levado pelas aparências e pelos resultados dos fatos consumados, e o mundo é constituído pelo vulgo, e não haverá lugar para a minoria se a maioria tem onde se apoiar.

CAPÍTULO XXV

De quanto pode a fortuna nas coisas humanas e de que modo se deve resistir-lhe

Não me é desconhecido que muitos têm tido e têm a opinião de que as coisas do mundo são governadas pela fortuna e por Deus, de sorte que a prudência dos homens não pode corrigi-las, e mesmo não lhes traz remédio algum. Por isso, poder-se-ia julgar que não deve alguém incomodar-se muito com elas, mas deixar-se governar pela sorte. Essa opinião é grandemente aceita em nosso tempo pela grande variação das coisas, o que se vê todo dia, fora de toda conjetura humana. Às vezes, pensando nisso, tenho me inclinado a aceitá-la. Não obstante, e para que nosso livre-arbítrio não desapareça, penso poder ser verdade que a fortuna seja arbitra de metade de nossas ações, mas que, ainda assim, ela nos deixe governar quase a outra metade. Comparo-a a um desses rios impetuosos que, quando se encolerizam, alagam as planícies, destroem as árvores, os edifícios, arrastam montes de terra de um lugar para outro: tudo foge diante dele, tudo cede a seu ímpeto, sem poder obstar-lhe. E, se bem que as coisas se passem assim, não é menos verdade que os homens, quando volta a calma, podem fazer reparos e barragens, de modo que, em outra cheia, aqueles rios correrão por um canal, e seu ímpeto não será tão livre nem tão danoso. Do mesmo modo acontece com a fortuna; seu poder é manifesto onde não existe resistência organizada, dirigindo ela sua violência só para onde não se fizeram diques e reparos para contê-la.
(...) um Príncipe se apoia totalmente na fortuna, arruína-se segundo as variações daquela. Também julgo feliz aquele que combina seu modo de proceder com as particularidades dos tempos, e infeliz o que faz discordar dos tempos sua maneira de proceder. (...) tendo alguém prosperado em um caminho, não pode resignar-se a abandoná-lo. Ora, o homem circunspecto, quando chega a ocasião de ser impetuoso, não o sabe ser, e por isso se arruína, porque, se mudasse de natureza, conforme o tempo e as coisas, não mudaria de sorte.
(...) Estou convencido de que é melhor ser impetuoso do que circunspecto, porque a sorte é mulher e, para dominá-la, é preciso bater-lhe e contrariá-la. E é geralmente reconhecido que ela se deixa dominar mais por estes do que por aqueles que procedem friamente. A sorte, como mulher, é sempre amiga dos jovens, porque são menos circunspectos, mais ferozes e com maior audácia a dominam.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Karl Marx e o materialismo histórico e dialético


Materialismo e o pensamento

O filosofo Karl Max é um materialista. Os filósofos desta concepção consideram que não existe uma verdade que se revela a todos nesse mundo. Tudo é uma questão de perspectiva e por isso não se pode entender o mundo como ele realmente é.
Mas em oposição aos materialistas é encontrada a concepção idealista, com a pretensão de criar uma imagem universal, até mesmo sobre os indivíduos, apesar das diferenças. O idealista é apegado a ideia, onde se coloca tudo em categorias compreensíveis, considerando que todos podem compartilhar da verdade ideal.
No materialismo o que passa pela cabeça de uma pessoa tem a ver com os sentimentos que ela tem, porque o corpo é importante e é o contato com o mundo que produz sentimentos. Então, nessa primeira ideia, começa a ficar claro que a produção material de uma sociedade afeta o pensamento, por estar em relação com o corpo, produzindo sentimentos que movem o indivíduo.
Um problema para a filosofia está ligado a essa ideia de circunstâncias. O pensamento sobre o futuro está preso as circunstâncias materiais do agora. Então, como criar uma filosofia revolucionária, sendo que o pensamento é influenciado pelo mundo material a cada instante?
Para entender melhor essa dificuldade da revolução do pensamento, dentro de uma sociedade, é importante analisar a infraestrutura e superestrutura que formam a sociedade. Essa análise é a ciência do materialismo histórico.
Sociedade = infraestrutura + superestrutura

Infraestrutura

Os sentimentos que o indivíduo tem não poderiam ser outros, porque assim as circunstâncias determinam. A sociedade também é organizada politicamente, moralmente, religiosamente e tudo mais, da maneira que atenda a necessidade material econômica, porque é o material que influencia o pensamento e consequentemente a ação.
A infraestrutura está relacionada a produção de bens materiais: as condições materiais de sua produção, as relações entre as pessoas na produção de bens, ao trabalho, ao processo de produção, etc. A infraestrutura é resumida como sendo os modos de produção.
Infraestrutura = modos de produção

Modos de produção

Os modos de produção econômica fazem parte da infraestrutura. Existem seis modos de produção: Primitivo, Asiático, Escravista, Feudal, Capitalista, Socialista.
Existem dois elementos fundamentais nos modos de produção: forças produtivas e relações de produção.
Modos de produção = forças produtivas + relações de produção.

Forças produtivas

 As forças produtivas são o conjunto de dois elementos que impulsionam o processo produtivo:

   1º Os meios de produção: ferramentas, matéria-prima e matéria-bruta. Por ferramentas entende-se tudo instrumento usado para transformar um objeto; a matéria-prima é um objeto que já foi modificado pelo trabalho, mas inda não é produto; matéria-bruta é um objeto que não foi trabalhado, por isso está distante de ser um produto.
   2º A força de trabalho: é a energia muscular e cerebral, usada sempre em conjunto com os meios de produção, para produzir um produto.
Forças produtivas = meios de produção + força de trabalho
O trabalho dá utilidade a algo, mas é importante lembrar que hoje em dia a utilidade tem outro sentido. Muitos produtos são desnecessários, cridos para o luxo.
Em resumo, o trabalho transforma o objeto em produto e a força de trabalho é a energia necessária para a transformação. Dependendo do meio de trabalho, se gastará mais ou menos energia para produzir um produto.
 No capitalismo não se remunera o trabalho e sim a força de trabalho. Isso significa que o salário é para recuperar a energia. O que se produz com o trabalho não afeta na remuneração, porque o importante é o tempo, a força física e mental usada para produzir. Isso sofreu algumas alterações nos últimos anos com as gratificações por resultado, mas isso não acontece em todo o sistema e nem representa uma mudança significativa para o sistema de exploração do trabalho.
Os meios de produção são fundamentais, porque eles determinam a quantidade de força necessária para a transformação de um objeto em produto.         

Relações de produção

As relações de produção são as relações estabelecidas entre os seres humanos para produzir. Em outras palavras, é o acordo necessária entre os seres humanos para realizar o processo produtivo.
Na nossa sociedade, a propriedade privada dos meios de produção dita a relação das duas classes fundamentais para a produção: proletários (não proprietários) e burgueses (proprietários). Essas são as classes mais importantes da sociedade capitalista: o burguês é o dono dos meios de produção e o proletário é o trabalhador, o detentor da força de trabalho. Os proprietários dos meios de produção se apropriam do produto do trabalho dos não proprietários, gerando desigualdade social e conflito entre as classes. 

Superestrutura

Todas as ideias de uma sociedade sobre o mundo e sobre as coisas é resultado da luta de classes. A superestrutura são essas ideias, hábitos e campos sociais que formam a sociedade, mas não fazem parte da infraestrutura, como: educação, leis, marketing, Estado, medicina, estilos de vida etc.
Várias formas de superestrutura são possíveis em uma mesma infraestrutura. A superestrutura nunca para de mudar, por isso é difícil defini-la. Por exemplo, a internet não existia a alguns anos atrás.

Materialismo histórico

O materialismo histórico é uma forma cientifica de analisar a história e as sociedades. Em nossa sociedade temos duas classes fundamentais: proletários e burgueses. Os proletários alienados, junto com seus herdeiros e lacaios dos burgueses, defendem as relações vigentes de produção. As duas classes são parte da infraestrutura. A política, a educação, o direito, a moral, a mídia, entre outros, fazem parte da superestrutura.
O materialismo histórico revela que a organização social está em dois níveis: infraestrutura econômica e superestrutura ideológica. Ao se entender a produção de bens (infraestrutura) de uma sociedade, é possível entender a ideologia que comanda a sociedade. Em outras palavras, quanto melhor se conhece a produção de bens materiais, melhor se conhece o resto da sociedade (superestrutura).

Conflito entre classes

As pessoas consideradas de esquerda lutam sempre contra o interesse da classe dominante, que é a burguesia. Os verdadeiros interessados na manutenção das ideias de direita são os donos da produção, os conservadores. Não é o proprietário do carro que é interessado nas propostas conservadoras e sim o dono da fábrica de veículos.  Para Marx, o importante no capitalismo é a propriedade dos meios de produção e não o produto. A maneira como se procede as forças de produção de bens materiais define a relações de produção.
Os burgueses defendem a propriedade privada dos meios de produção e o proletário busca novas formas de relações de produção. Devido a esse conflito de interesses, existe uma luta entre as duas classes. Há um abismo que separa as classes, mas poucos tem consciência de classe, sem essa consciência não existe revolução. O desejo por lucro faz com que os burgueses, donos dos meios de produção, se aproveitem do trabalhador, criando uma situação de exploração que não muda.

Materialismo dialético

O materialismo dialético diz respeito a essa luta de classes: proletária e burguesa. A desarmonia entre as forças de produção e as relações de produção produz a história da nossa sociedade capitalista, mas essa história é resultado da dialética das classes envolvidas nos modos de produção.
O conflito fica evidente quando os proprietários dos meios de produção não conseguem agradar o trabalhador, que exige uma mudança nas relações de produção, mas esta nunca acontece. Por exemplo, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) que luta pela distribuição de terras, que são parte dos meios necessários para a produção, sendo a terra parte da infraestrutura.
É normal que alguns grupos se unam contra os trabalhadores para conservar a propriedade privada dos meios de produção, impedindo uma transformação. A classe conservadora luta contra a classe que deseja mudanças na relação de produção, porque essa mudança é uma revolução considerada subversiva pelos conservadores.

Liberalismo

O filósofo John Locke, do século XVII, era defensor do liberalismo. Ele via o trabalho como fundamento da propriedade privada.
Podemos dizer que o trabalho de seu corpo e a obra produzida por suas mãos são propriedade sua. Sempre que ele tira um objeto do estado em que a natureza o colocou e deixou, mistura nisso o seu trabalho e a isso acrescenta algo que lhe pertence, por isso o tornando sua propriedade. Ao remover este objeto do estado comum em que a natureza o colocou, através do seu trabalho adiciona-lhe algo que excluiu o direito comum dos outros homens. Sendo este trabalho uma propriedade inquestionável do trabalhador, nenhum homem, exceto ele, pode ter o direito ao que o trabalho lhe acrescentou (LOCKE, Segundo tratado Sobre O Governo, capitulo V, p.42)

Para Locke, é garantindo o direito à propriedade de algo quando se trabalha nela e a transforma. O direito à propriedade é a recompensa pelo trabalho transformador. Mas no capitalismo o trabalho é apenas mais uma mercadoria, que é vendida e usada para a produção. O que é produzido pelo trabalho não pertence ao trabalhador, pertence aos donos dos meios de produção que comprou o trabalho.
Em contrapartida, o filósofo Adam Smith, do século XVIII, dizia que o trabalho deveria ser a medida do valor de troca das mercadorias. Mas no capitalismo o valor de troca da mercadoria não tem a ver com o valor pago pelo trabalho. A mercadoria ganha um valor muito superior em comparação ao valor pago pelo trabalho que a produziu. Por isso, é importante entender o conceito de trabalho para entender as relações de produção.

Mais-valia

A mais-valia é o lucro retido pelo capitalista, resultante da diferença entre o que ele paga pela mão de obra e o valor que ele cobra pela mercadoria produzida por essa força de trabalho (o trabalho vale menos que a mercadoria). Em outras palavras, o trabalhador recebe um valor muito inferior ao valor produzido e é assim que o burguês consegue o lucro. Essa exploração é chamada de mais-valia.  
Existe uma abundância de trabalhadores na sociedade. E quanto mais cresce a quantidade de trabalhadores mais a mão de obra se desvaloriza. A força de trabalho perde seu valor quanto mais fácil for encontrá-la. E sempre haverá aqueles trabalhadores que se submetem a trabalhar mais por um salário um pouco maior perdendo mais de si, ou aceita trabalhar por menos para ter um emprego, desvalorizando os trabalhadores como um todo. Um jeito de ganhar mais é ter uma boa formação, porque quanto melhor for a formação do trabalhador maior será sua raridade no mercado, proporcionando um salário melhor.
Por causa do burguês ser o dono dos meios de produção, ele pode controlar como, onde, quando, por que e com que frequência o trabalhador poderá vender sua força de trabalho. Durante a produção, o trabalhador perde a consciência da produção como um todo, por isso ele é facilmente explorado. A sociedade capitalista se desenvolve com mais facilidade quanto menor for a consciência do trabalhador.

Alienação

Alienação é o processo em que o ser humano se afasta de sua real natureza, torna-se estranho a si mesmo, pois os objetos que produz passam a adquirir existência independente do seu poder e antagônica aos seus interesses.

Alienação devido a produção

No capitalismo a alienação começa no processo de produção onde o indivíduo tem o trabalho segmentado para não se ter consciência da totalidade do processo de produção. Existe uma cooperação complexa onde os trabalhadores fazem funções diferentes para gerar um produto, perdendo toda a noção da totalidade do processo produtivo. Na cooperação complexa, existe os trabalhadores que vão trabalhar com a matéria-bruta e trabalhadores que vão dar continuidade ao trabalho dos primeiros, até a produção final que é o produto pronto para o consumo, chamado de mercadoria. Esse trabalho coletivo é um estágio do sistema capitalista, onde o trabalhador se torna alienado, perdendo a noção dos custos e quantidade de produção de bens. Quanto mais for elaborado o sistema de produção maior é a alienação do trabalhador.

Existe três tipos de proprietários dos meios de produção:
  1º O proprietário é um trabalhador direto, por utilizar seus próprios meios de produção para produzir, sendo isso mais normal em sistemas rudimentares de produção, como no artesanato.
   2º O proprietário é um trabalhador indireto, por administrar o processo produtivo.
  3º O proprietário é um não trabalhador, porque ele está distante do processo produtivo. E quanto mais um sistema capitalista se desenvolve, mais distante o proprietário dos meios de produção fica do processo produtivo.
Em uma sociedade capitalista, podemos dividir os envolvidos na produção em duas categorias: proprietários e não proprietários. Essa divisão gera três outras categorias na sua relação capitalistas: explorados, não explorados e cooperadores (capangas da burguesia).
Existem três sistemas de exploração:
    1º   O escravismo: onde o dono dos meios de produção é dono da produção e do trabalhador.
    2º   O serviçal: onde o dono dos meios de produção é dono da produção, mas não é dono do trabalhador. O servo tem liberdade de ir e vir e ganha um pouco de recursos, para sobreviver e sustentar sua família se necessário.
    3º   O assalariado: onde o dono dos meios de produção é dono da produção, mas é o trabalhador que vende sua força de trabalho. O assalariado tem maior liberdade do que o servo, por dois motivos: ele tem o direito de receber os recursos para obter os próprios bens em troca da força de trabalho; também pode não vender a força de trabalho, caso não tenha interesse no que o burguês lhe oferece.
No capitalismo, o trabalhador é explorado porque o burguês dita a venda da força de trabalho e o valor do trabalho. O trabalhador alienado não percebe a desigualdade do sistema. O trabalhador vende seu trabalho como uma mercadoria e quanto mais mercadorias esse trabalho produz menos ele vale no mercado.
A mercadoria ganha independência em relação ao trabalhador. Quanto mais esse trabalhador gasta de si no trabalho, mais o trabalho se torna estranho ao trabalhador, que perde mais de si mesmo, tornando-se mais pobre com o tempo. Em outras palavras, o trabalhador se torna menos pessoa e menos valorizado na medida em que produz mais.
O sistema exige que o trabalhador fique cada vez mais produtivo, eficiente e alienado, resultando na desvalorização da sua força de trabalho. Quanto mais se produz menos se é. Essa é a alienação do trabalhador frente ao objeto de trabalho que não lhe pertence mais. Para Marx, a alienação significa essa autonomia do trabalho em relação ao trabalhador. Quando se vende o trabalho ele não pertence mais ao trabalhador, ele fica fora do trabalhador.

Ideologia

Ideologia é a totalidade das formas de consciência social, o que abrange o sistema de ideias que legitima o poder econômico da classe dominante (burguesia).
A ideologia é manifestada na superestrutura, que é o fluir ou consequência da infraestrutura. Em outras palavras, a superestrutura é uma articulação de indivíduos que pensam sobre o mundo, tomando como referência a infraestrutura da sociedade para se estabelecer parâmetros. A ideologia é tudo que faz a sociedade ser e continuar a ser o que é, por permitir a manutenção da dominação de classe. Como a ideologia sustenta o sistema, os maiores interessados e beneficiados pela ideologia é a burguesia (classe dominante).
Toda a ideologia é uma ideia sobre como o mundo deveria ser e como deveria ser pensado. Não se trata de um mundo verdadeiro ou falso. A ideologia não é uma análise da realidade, ela é uma suposição de como deveria ser a vida humana. Por isso, não se pode fazer ideologia a partir da natureza, porque a natureza nunca é diferente, ela é o que é, mas o ser humano sempre pode ser diferente.
A ideologia é mais sofisticada quando deixa de ser apenas uma ideia e passa a ser um conjunto de hábitos e condutas a se ter. De repente, aquilo que o ser humano pensa e procura alcançar na sociedade é resultado de uma dominação de classe por meio da ideologia. Porque a ideologia do proletário é a ideologia burguesa. Não existe uma ideologia do proletário e sim uma ideologia burguesa que toma conta das ideias do proletário, que passa a querer se tornar burguês. O proletário vive em um mundo criado pelos donos dos meios de produção. Sempre que o proletário quer se sair bem no sistema, ele faz o que é do interesse da classe burguesa. Não existe rival para a ideologia burguesa, porque todos têm uma noção parecida de como o mundo deveria ser. Isso é globalização: uma única ideia compartilhada. Geralmente, uma ideia começa a parecer correta quando ela vem de todos, parece não existir pessoas dominadas. Essa é a sutileza da ideologia – dominar sem aparentar, eliminando as chances de qualquer revolução.
A burguesia governa principalmente com a ideologia, mas quando necessário, ela usa da força física da polícia e do exército, que são patrocinados por ela, para manter a ordem burguesa. A ideologia somente desaparece quando o sonho se tornar realidade, mas pode haver uma crise, o sonho pode não ser bom. Quando o sonho não é bom, o que restar é voltar a sonhar, criando uma nova ideologia.  
Os desejos humanos foram cobertos pelas ilusões da classe dominante. Desejar é natural, mas se deseja segundo tendências capitalistas, como gostar do que se pode ser descartado, da quantidade ao invés da qualidade, da raridade e do prático.
Mas não é a classe burguesa quem cria e cuida da ideologia dominadora, o próprio sistema econômico proporciona seu surgimento. A ideologia se forma devido as características dos modos de produção, mantendo até mesmo o burguês tão alienado quanto o proletário, mas essa primeira classe acaba sendo beneficiada. A burguesia também é exposta aos mesmos processos de dominação ideológica que o proletário: a mídia, a escola, a igreja, entre outros. Por exemplo, na novela o rico sofre e o pobre é feliz, recebe até café da manhã na cama, servido pela sua esposa que é interpretada por uma atriz linda.
                                                                                                                                          
A ideologia da mídia

A mídia faz parte da superestrutura, patrocinada pela burguesia e promovendo os interesses da classe burguesa. Diverte a classe operária, mantendo a alienação. É feita por burgueses para proletários. Por exemplo, os jornais gastam muitas páginas falando da queda de um avião como o da Air France em 2009, porque morreram “pessoas que importam”, os proletários principalmente da classe média. Em São Paulo, existe várias tragédias acontecendo na periferia a todo momento, mas as pessoas da periferia não merecem a atenção da mídia, porque a vida dessas pessoas tem um outro valor social.
Cria-se heróis e vilões na mídia, que podem variar entre pessoas, partidos, instituições, produtos, etc., que servem como bode expiatório para desviar a atenção dos processos de dominação e exploração. A condenação dos vilões purifica e torna os trabalhadores mais dóceis. Por exemplo, a mídia faz todos acreditarem que tudo de ruim está no setor público, oferecendo ótimos argumentos para os defensores da privatização.
Graças a mídia, o proletário passa a ter como preocupação os valores que favorecem a classe dominante, impedindo uma revolta em massa. A ideologia é a maneira mais limpa, fácil e segura de dominação. Antigamente era comum a dominação pela força física, mas isso era custoso e agora é melhor o uso da ideologia.
O erro de Karl Marx, foi achar que a mídia iria contribuir para uma revolução, quando o número de proletários fosse muito mais numeroso do que de burgueses. Um pensador marxista de hoje não analisa a mídia pela mídia, mas a partir da luta de classe. A mídia dissimula o que realmente importa. Por exemplo, o programa A Grande Família, onde é mostrado uma família de classe média, uma classe resistente a mudanças e apegada aos seus pequenos ganhos. O personagem principal, Lineu, é um homem honesto, mas é porta-voz de uma moral conservadora, reacionária, ortodoxa e garantidora da manutenção do sistema.
É na superestrutura que se esconde a realidade da dominação. A mídia é conservadora como tudo mais na superestrutura.

A ideologia nos campos sociais

Para se conhecer é necessário saber a classe que se pertence. Para ficar mais fácil ainda de se conhecer, é importante estudar o campo social em que se vive. Existe o campo jurídico, acadêmico, jornalístico, político, religioso, etc. A ideologia de cada campo é flexível. Por exemplo, a ideologia do campo acadêmico poderia mudar constantemente, mas, ainda sim, mudaria para formas que continuam a favorecer os interesses da classe dominante.
A sociedade adestra os seres humanos com a ideologia. Certos comportamentos tornam-se aceitáveis e outros não, em um determinado campo social. Quando se senti vergonha por algum comportamento, é porque foi transgredido o protocolo ideal de uma esfera social, e o corpo reage em contato com esse mundo que o condena, produzindo a vergonha no indivíduo que não se enquadra. A ideologia determina o mundo em que se vive. Por isso, a ideologia controla os sentimentos e se ela controla os sentimentos, ela controla os indivíduos.
Apesar das particularidades dos campos sociais, todas as ideologias existentes, têm como objetivo legitimar os interesses da classe dominadora. Em outras palavras, todas as ideologias dos campos sociais servem a uma maior proposta ideológica, aquela que favorece a classe dominadora. A ideologia burguesa é mascarada por diversas propostas nos vários campos, mas é sempre ela a referência para qualquer outra ideologia.
A homologia (união das partes) é o último estágio para se entender a legitimação de um porta-voz dos interesses da classe dominante. Essa homologia é a união dos campos sociais para legitimar uma nova maneira de ser da ideologia. Um campo social aprova o outro de alguma maneira ou o ajuda. Uma nova maneira de ser da ideologia, é uma nova maneira de esconder os interessas da classe dominante, com uma capa ideológica nova. 


Para entender o materialismo:

·         Burguês é o dono dos meios de produção.
·         Proletário é o trabalhador, o detentor da força de trabalho.

Considerações:
1º Existe uma desigualdade (o burguês é o dono da bola).
2º O burguês decide o quanto vai pagar. O conceito mais-valia refere-se ao preço da mercadoria e a exploração do trabalho. A mais-valia é o lucro retido pelo capitalista, resultante da diferença entre o que ele paga pela mão de obra e o valor que ele cobra pela mercadoria produzida por essa força de trabalho (o trabalho vale menos que a mercadoria).
3º A luta de classe ou dominação de classe (porque o burguês ganha sempre).
4º No capitalismo o capital se concentra (a classe burguesa diminui e os poucos que sobram são os maiores detentores dos meios de produção). O capitalismo patrocina uma proletarização progressiva das relações de produção.
5º Marx antecipa uma revolução que aconteceu onde ele não previu, na Rússia que era czarista (Praticamente um absolutismo que foi substituído por uma monarquia constitucional, incluindo um parlamento) e não passou pela fase capitalista.
6º A revolução não aconteceu do modo esperado por causa da dominação ideológica ou simbólica que produz alienação. A classe dominante produz ideologias que alienam a classe trabalhadora, permitindo uma dominação pacífica. As duas maiores ferramentas de alienação é a religião e a mídia. Por exemplo: o padre Marcelo é um instrumento que potencializa as duas.
7º A sociedade se explica pelas relações econômicas. Existe a infraestrutura de uma sociedade está relacionada direta ou indiretamente com a produção de bens materiais, bens tangíveis. A superestrutura de uma sociedade é tudo que está ao alcance dos sentidos, é o resto da produção que não faz parte da infraestrutura:  sistema de ideias e sentimentos, instituições jurídicas e políticas, e manifestações culturais que constituem a consciência social. Nenhuma produção superestrutural é explica sem uma análise da infraestrutura da sociedade. Por exemplo: não posso entender o sucesso do padre Marcelo sem entender como a sociedade que ele vive produz bens materiais.

Crítica ao capitalismo

“O trabalhador fica mais pobre à medida que produz mais riqueza” Karl Marx.
Quanto mais se trabalha, mais pobre se fica. É a escassez da força de trabalho e da produção que valoriza o trabalhador. Onde existe uma grande produção e sobra da força de trabalho, não se valoriza o trabalhador.
Toda a produção ganha independência do trabalhador. A produção passa a ter o valor estipulado pelo burguês, que é superior ao valor pago pela força de trabalho. Caso o trabalhador deseje consumir a mercadoria que ele produziu, deverá ser pago um valor superior ao pagamento que se recebeu para produzir a mercadoria.
Quanto mais o trabalhador produz em quantidade e volume, mais desvalorizado se torna o trabalhador, porque ele se torna uma mercadoria vendida a um preço mais baixo tanto quanto mais produz mercadorias.

Referências biográficas:

BARROS, Clóvis de; DAINEZI, Gustavo Fernandes. Devaneios sobre a atualidade do capital. Porto Alegre: CDG, 1ª edição, 2014.