segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

ÉTICA


Uma reflexão sobre a melhor maneira de viver


Quando alguém argumenta no campo da ética sobre a melhor maneira de viver e conviver, não se contenta com a parcialidade de seu ponto de vista, busca o convencimento, aspira a universalidade. Porque a sociedade ou a civilização não tolera tanta diversidade de valores. Precisa se proteger. Manter a ordem.

No processo de redução desta complexidade, alguns pontos de vista serão ungidos ao estatuto de regra para todo mundo. É quando algumas impressões dispersas viram código. E outras, não. E algumas vidas de qualidade são convertidas em protocolo de qualidade de vida. Conversões conflituosas. Luta pela legitimidade de definir o que é ético e o que não interessa que seja.

Quando pretendemos que nossos juízos tenham validade que transcenda a sua particularidade, possam valer para qualquer situação semelhante, para qualquer caso, passamos da prática para uma teoria da prática, do pessoal para o impessoal, do particular para o genérico, da ação para uma filosofia da ação, da moral para a ética. Desta forma, propõe-se que a ética seja uma teoria – ou uma ciência – da moral.

Reflexão para a vida

Ética é ao mesmo tempo reflexão sobre a vida e vida pensada. Ao mesmo tempo princípio e ação. Norma e deliberação. Decisão e vida decidida. Para Aristóteles, o objeto da ética é a práxis [ação concreta]. Para Kant, a vontade. Para ambos, é ação submetida à razão.

A vida fora da moral é ampla, a que lhe diz respeito também o é. Mas para, de fato, poder escolher, não basta ponderar, refletir, deliberar. É preciso poder fazê-lo livremente. Ou seja. a moral pouco ou nada tem a ver com a coação.

Ato moral

A ética se dispõe ao estudo de um certo tipo de ação humana, informatizável pela razão, e que doravante denominaremos ato moral. E que não se entenda esta norma como lei científica sobre o comportamento. Mas como princípios seguidos livremente pelo agente.

Por conta desta interdependência entre a razão prática e a conduta, a estrutura do ato moral é complexa. Constituída por elementos subjetivos e objetivos. Tais como motivação para agir, consciência dos fins visados, valores morais, consciência dos meios mais adequados para alcançá-los e materialização dos resultados.

Motivação

Muitas vezes, agimos em plena melancolia, por ciúme, por excitação ou ira sem nos darmos conta disso. E estas ações encontram-se, por isso, excluídas do campo da moral.

Fins

Todo ato moral implica a consciência de um fim. Um ponto de chegada. Ainda que provisório. Este fim é sempre uma antecipação mental da vida a ser vivida depois. Uma antecipação ideal. Uma ideia, portanto.

Não há que confundir motivação com fim. Um tem certamente a ver com o outro. Mas não são a mesma coisa. Motivação é energia vital. Oscilação de potência. Afeto. Coisa que sentimos. O fim é planeja­mento. Projeto. Coisa que pensamos. Se não ficou cla­ro, tentemos com outras palavras. Motivação é tesão. Excitação. Ganho setorizado de potência, nem sempre consciente. Fim é fantasia, imaginação, sempre consciente.

Os fins são decididos por ato voluntário. O que significa um ato voluntário? Trata-se da antecipação mental da vida, o fim, seguida da decisão de vivê-la.

Valor moral


Valores morais são critérios existenciais. A partir dos quais os fins serão valorados.


Referência Bibliográfica:

DE BARROS FILHO, Clóvis. POMPEU, Júlio. A Filosofia Explica as Grandes Questões da Humanidade. Casa do Saber, 2014.

POR QUE ESTUDAR FILOSOFIA?


Filosofia e religião: dois modos opostos de abordar a questão da salvação
Como de fato operam as religiões em face da ameaça suprema que elas dizem que podemos superar? Basicamente pela fé. É ela, e somente ela, na verdade, que pode fazer derramar sobre nós a graça de Deus: se você acredita em Deus, Ele o salvará, dizem elas. Santo Agostinho a Pascal se opõe à arrogância e à vaidade da filosofia. Por que essa acusação lançada contra o livre pensamento? Por que este também pretende nos salvar, se não da morte, pelo menos das angústias que ela provoca, mas por nossas próprias forças e em virtude apenas de nossa razão.
O filósofo é antes de tudo aquele que pensa que, se conhecemos o mundo, compreendendo a nós mesmos e compreendendo os outros, tanto quanto nossa inteligência o permite, vamos conseguir, pela lucidez e não por uma fé cega, vencer nossos medos.
Em outras palavras, se as religiões se definem como "doutrinas da salvação" por um Outro, pela graça de Deus, as grandes filosofias poderiam ser definidas como doutrinas da salvação por si mesmo, sem a ajuda de Deus.
Os filósofos gregos pensavam no passado e no futuro como dois males que pesam sobre a vida humana. O passado não existe mais, e o futuro ainda não existe, insistiam eles; e, no entanto, vivemos quase toda a nossa vida entre lembranças e projetos, entre nostalgia e esperança. De tanto lamentar o passado ou ter esperança no futuro, acabamos por perder a única vida que vale ser vivida, a que depende do aqui e do agora, e que não sabemos amar como ela certamente merece.
A filosofia deseja que encontremos uma saída por nossas próprias forças, pela via da simples razão, se pelo menos conseguirmos usá-la como necessário: com precisão, audácia e firmeza.
Se a religião acalma as angústias, fazendo da morte uma ilusão, corre o risco de fazê-lo ao preço da liberdade de pensamento. Porque, de certa forma, ela sempre exige em troca da serenidade que pretende oferecer que, num momento ou noutro, a razão seja abandonada para dar lugar à fé, que se ponha termo ao espírito crítico para que se aceite acreditar. Ela quer que sejamos, diante de Deus, como crianças, não adultos em quem ela não vê, afinal, senão arrogantes raciocinadores.

Filosofar, mais que acreditar, é, no fundo — pelo menos do ponto de vista dos filósofos, já que o dos crentes é, com certeza, diferente —, preferir a lucidez ao conforto, a liberdade à fé. Trata-se, em certo sentido, é verdade, de "salvar a pele", mas não a qualquer preço.
Da interrogação moral à questão da salvação: o ponto em que essas duas esferas jamais poderiam se confundir

Se quiséssemos resumir as ideias modernas, poderíamos simplesmente definir as morais laicas como um conjunto de valores expressos por deveres ou imperativos que nos pedem um mínimo de respeito pelo outro, sem o qual uma vida comum pacificada é impossível.
Inútil sermos santos, apóstolos perfeitos dos direitos do homem e da ética republicana, por exemplo, nada nos garantiria o sucesso da vida afetiva. A ética nunca impediu ninguém de ser traído ou abandonado. Salvo engano, nenhuma das histórias de amor representada nas grandes obras romanescas depende da ação humanitária... Se a aplicação dos direitos do homem permite uma vida comum pacificada, eles não oferecem por si mesmos nenhum sentido, nem mesmo nenhuma finalidade ou direção à existência humana.

Eis por que, no mundo moderno assim como nos tempos passados, foi preciso inventar, para além da moral, algo que ocupasse o lugar de uma doutrina da salvação. O problema é que sem cosmos e sem Deus a coisa parece particularmente difícil de se pensar. Como enfrentar a fragilidade e a finitude da existência humana, a mortalidade de todas as coisas neste mundo, na falta de qualquer princípio exterior e superior à humanidade?

A emergência de uma espiritualidade moderna: como pensar a salvação se o mundo não é mais uma ordem harmoniosa e está distante da fé?

Para alcançar tal objetivo, os Modernos seguiram duas grandes linhas.

A primeira: é a das "religiões de salvação terrestre", especialmente o cientificismo, o patriotismo e o comunismo.

O que isso quer dizer?

Grosso modo, o seguinte: não podendo sustentar-se numa ordem cósmica, não podendo mais acreditar em Deus, os Modernos inventaram religiões de substituição, espiritualidades sem Deus ou, para ser direto, ideologias que, professando com frequência um ateísmo radical, agarraram-se, apesar de tudo, a ideais capazes de dar um sentido à existência humana, ou de justificar que se morra por eles.

Mesmo que nos dedicássemos a uma causa sublime, com a convicção de que o ideal é infinitamente superior à própria vida, no final, é sempre o indivíduo que sofre e morre enquanto ser particular, não outro em seu lugar. Em face da morte pessoal, o comunismo, o cientificismo, o nacionalismo e todos os outros "ismos" que se queira pôr no lugar correm o grande risco de revelarem-se, qualquer dia desses, apenas como abstrações desesperadamente vazias.

Em segundo lugar: na falta de princípios cósmicos ou religiosos, é a própria humanidade que se sacraliza, a ponto de ascender, por sua vez, ao estatuto de princípio transcendente. A execução, aliás, é possível: afinal, ninguém pode negar que a humanidade em sua totalidade seja, em certo sentido, superior a cada um dos indivíduos que a compõem, da mesma forma que o interesse geral deve, em princípio, prevalecer sobre os interesses particulares.

Digo-lhe apenas uma palavra, para que você não tenha a impressão de que o pensamento moderno se reduz às banalidades mortíferas do comunismo, do cientificismo ou do nacionalismo.

E Kant, na linha de Rousseau, quem lança pela primeira vez a ideia crucial de "pensamento alargado" como sentido da vida humana. O pensamento alargado, para ele, é o contrário do espírito limitado, é o pensamento que consegue se libertar da situação particular de origem para se elevar até a compreensão do outro.

Para lhe dar um exemplo simples, quando você aprende uma língua estrangeira, é preciso que ao mesmo tempo você se afaste de si e de sua condição particular de partida, o francês, por exemplo, para entrar numa esfera mais larga, mais universal, onde vive uma outra cultura e, se não uma outra humanidade, ao menos uma outra comunidade humana diferente daquela a que você pertence e da qual, de algum modo, você começa a se desprender, sem, contudo, renegar.

Desprendendo-se das particularidades iniciais, entra-se, pois, em mais humanidade. Ao aprender uma outra língua, você pode não apenas comunicar-se com um número maior de seres humanos, mas ainda descobre, por meio da linguagem, outras ideias, outras formas de humor, outras modalidades de relação com o outro e com o mundo. Você alarga a visão e afasta os limites naturais do espírito atado à sua própria comunidade — que é o arquétipo do espírito limitado.

Além do exemplo específico das línguas, é todo o sentido da experiência humana que está em jogo. Se conhecer e amar são uma só coisa, você entra, alargando o horizonte, cultivando-se, numa dimensão da existência humana que a "justifica" e lhe dá um sentido — simultaneamente uma significação e uma direção.

A exigência do pensamento alargado

Para que se tome consciência de si, é preciso situar-se a distância de si mesmo. Onde o espírito limitado permanece envisgado em sua comunidade de origem a ponto de julgar que ela é a única possível ou, pelo menos, a única boa e legítima, o espírito alargado consegue, assumindo tanto quanto possível o ponto de vista de outrem, contemplar o mundo como espectador interessado e benevolente. Aceitando descentrar sua perspectiva inicial e arrancar-se ao círculo do egocentrismo, ele pode penetrar nos costumes e nos valores diferentes dos seus; em seguida, ao se voltar para si mesmo, tomar consciência de si de modo distanciado, menos dogmático, e com isso enriquecer suas próprias ideias. É através desse pensamento alargado são possíveis grandes obras, que se tornam proveitosas para a humanidade e não apenas para um região ou cultura isolada.

Na Bíblia, conhecer significa amar. Falando mais rudemente: quando se diz que alguém "a conheceu biblicamente", significa que "ele fez amor com ela". A problemática do sentido é uma secularização dessa equivalência bíblica: se conhecer e amar são uma só coisa, então, o que acima de tudo dá sentido a nossas vidas, ao mesmo tempo orientação e significado, é exatamente o ideal do pensamento alargado. Só ele, de fato, nos permite, ao nos convidar, em todos os sentidos do termo, para a viagem, ao nos exortar a sair de nós mesmos para melhor nos encontrar — e é o que Hegel chamava de "experiência" —, conhecer melhor e amar mais os outros.

Para que serve envelhecer? Para isso, e talvez para mais nada. Para alargar a visão, aprender a amar a singularidade dos seres assim como a das obras e às vezes, quando esse amor é intenso, viver a supressão do tempo que sua presença nos dá. Com isso conseguimos, mas apenas em alguns momentos, como nos sugeriam os gregos, nos libertar da tirania do passado e do futuro para habitar esse presente por fim sem culpa e sereno.

A sabedoria do amor

A grande obra, diferentemente das outras, fala a todos os seres humanos, não importando nem o tempo nem o lugar onde eles vivem. O amor dá sentido, é que entre as duas realidades, o particular e esse universal que se confunde, a rigor, com a própria humanidade, existe lugar para o meio-termo: o singular ou o individual. Ora, é este, só este, o objeto de nosso amor e o portador de sentido.

Se a lógica clássica, desde a Antiguidade grega, designa pelo nome de "individualidade" uma particularidade que não se prendeu apenas ao particular, mas se fundiu num horizonte superior para aceder ao universal, então você pode avaliar que nesse ponto a grande obra de arte oferece-nos seu mais perfeito modelo.

A obra de arte digna do nome não é nem o artesanato local nem o universal descarnado e insosso que o resultado de uma pesquisa científica pura representa. E é isso, essa singularidade, essa individualidade nem apenas particular, nem inteiramente universal, que amamos nela.

Com isso você também vê por qual viés a noção de singularidade pode se ligar diretamente ao ideal do pensamento alargado: afastando-me de mim mesmo para compreender o outro, alargando o campo de minhas experiências, eu me singularizo, já que ultrapasso ao mesmo tempo o particular de minha condição de origem para aceder, se não à universalidade, pelo menos ao reconhecimento cada vez maior e mais rico das possibilidades que são da humanidade inteira.

A singularidade não é somente a característica primeira dessa “coisa” exterior a mini que é a obra de arte, mas também uma dimensão subjetiva, pessoal, do ser humano. E é essa dimensão, e não as outras, que é o objeto de nosso amor. Nunca amamos o particular enquanto tal, tampouco o universal abstrato e vazio. Quem se apaixonaria por um recém-nascido ou por uma fórmula algébrica?

Como tal, o alargamento é o resultado de uma soteriologia [salvação do Homem] humanista, a única resposta plausível à questão do sentido da vida — e, nesse aspecto, uma vez mais o humanismo não metafísico pode aparecer como uma secularização do cristianismo.

Só a singularidade, que ultrapassa ao mesmo tempo o particular e o universal, pode ser objeto de amor. 

O que faz com que um ser seja amável, o que dá a impressão de que poderíamos continuar a amá-lo mesmo que a doença o tivesse desfigurado, não é redutível a uma qualidade, por mais importante que seja. O que amamos nele (e que ele ama em nós, eventualmente) e que, consequentemente, devemos alimentar tanto em relação ao outro quanto em nós mesmos, não é nem a particularidade nem as qualidades abstraías (o universal), mas a singularidade que o distingue e o torna sem igual.
 
E essa singularidade, você deve imaginar, não é dada no nascimento. Ela se forja ao longo da existência, da experiência, e é exatamente por isso que é insubstituível. O fio condutor do pensamento alargado e da singularidade, reinvestir o ideal grego desse "instante eterno", esse presente que, por sua singularidade, justamente porque o consideramos insubstituível e cuja espessura medimos, em vez de anulá-lo em nome da nostalgia do que o precede ou da esperança do que poderia suceder a ele, liberta-se das angústias de morte ligadas à finitude e ao tempo.


Essa sabedoria do amor deve ser elaborada por cada um de nós e, sobretudo, em silêncio. Mas acredito que devemos, à margem do budismo e do cristianismo, aprender, enfim, a viver e a amar como adultos, pensando, se necessário, todos os dias na morte. Não por fascinação mórbida. Ao contrário, para procurar o que convém fazer aqui e agora, na alegria, com aqueles que amamos e que vamos perder, a menos que eles nos percam antes. Essa sabedoria existe e constitui o coroamento de um humanismo, enfim, desembaraçado das ilusões da metafísica e da religião.

Referência Bibliográfica:
FERRY, Luc. Aprender a viver: Filosofia para os novos temposRio de Janeiro, Editora Objetiva, 2010.

domingo, 25 de janeiro de 2015

O MITO


O que é o mito?

A leitura apressada do mito nos leva a com­preendê-lo como uma maneira fantasiosa de explicar a realidade, quando esta ainda não foi justificada pela razão. Sob esse enfoque, os mitos seriam lendas, fábulas, crendices e, portanto, um tipo inferior de conhecimento, a ser superado por explicações mais racionais. Tanto é que, na linguagem comum, costuma-se identificar o mito à mentira.

No entanto, o mito é mais complexo e muito mais expressivo e rico do que supomos quando apenas o Tomamos como o relato frio de lendas desligadas do ambiente que as fez surgir. Não só os povos tribais ou as civilizações antigas elaboram mitos. A consciência mítica persiste em todos os tempos e culturas como componente indissociável da maneira humana de compreender e sobre tudo sentir a realidade, como veremos adiante.

Segundo alguns intérpretes, o "falar sobre o mundo" simbolizado pelo mito está impregnado do desejo humano de afugentar a insegurança, os temores e a angústia diante do desconhecido, do perigo e da morte. Para tanto, os relatos míticos se sustentam na crença, na fé em forças superiores que protegem ou ameaçam, recompensam ou castigam.

Entre as comunidades tribais, os mitos constituem um discurso de tal força que se estende por rodas as esferas da realidade vivida. Desse modo, o sagrado (ou seja, a relação entre a pessoa e o divino) permeia todos os campos da atividade humana. Por isso, os modelos de construção mítica são de natureza sobrenatural, isto é, recorre-se aos deuses para essa compreensão do real.

A consciência mítica

O mito é a forma mais remota de crença, um meio do indivíduo se relacionar com o sobrenatural. De modo geral, o mito está impregnado do desejo humano de afugentar a insegurança, os temores e a angústia diante do desconhecido, do perigo e da morte. Para tanto, os relatos míticos se sustentam pela crença em forças superiores (cuja existência não precisa ser comprovada), que protegem ou ameaçam, recompensam ou castigam.

Os mitos gregos eram transmitidos por poetas ambulantes chamados aedos e rapsodos, que os recitavam de cor em praça pública. Nem sempre é possível identificar a autoria desses poemas, por resultarem de produção coletiva e anônima. Homero e Hesíodo foram dois representantes significativos que marcaram a história grega. Atribuem-se a Homero, um desses poetas, dois poemas épicos, as epopeias Ilíada e Odisseia.

Na vida dos gregos, as epopeias desempenharam um papel pedagógico significativo. Narravam episódios da história grega  o período das Idades do Bronze e do Ferro  e transmitiam os valores culturais mediante o relato das realizações dos deuses e dos antepassados. Por expressarem uma concepção de vida, desde cedo as crianças decoravam passagens desses poemas.

A religião grega não era expressa em um livro ou em textos sagrados, como a maioria das religiões que conhecemos. Sua expressão era feita por meio das narrativas míticas, com toda sua abertura e pluralidade.

A força do mito garantiu sua continuidade, e mesmo a filosofia, em vários momentos, utilizou-se dele para produzir seus argumentos racionais, como foi o caso de Platão, por exemplo.

Os mitos gregos falam sobre o nascimento (gonia) do mundo (cosmos) e o nascimento (outra vez gonia) dos deuses (teo) são a mesma coisa — a cosmogonia, o nascimento do cosmos, é uma teogonia, uma história do nascimento dos deuses, e vice-versa.

Quais as principais diferenças entre filosofia e mito?

O mito pretendia narrar como as coisas eram ou tinham sido no passado imemorial, long
ínquo e fabuloso; a filosofia se preocupa em explicar como e por que, no passado, no presente e no futuro, as coisas são como são. O mito narrava a origem por meio de genealogias e rivalidades ou alianças entre forças divinas e sobrenaturais; a filosofia explica a produção natural das coisas por meio de causas naturais e impessoais. O mito não se importava com contradições, com o fabuloso e o incompressível; a filosofia não admite contradições, fabulação e coisas incompreensíveis, mas exige que a explicação seja coerente, lógica e racional. Além disso, a autoridade da explicação não vem da pessoa do filósofo, mas da razão, que é a mesma em todos os seres humanos.
Do nascimento dos deuses ao nascimento dos homens
No mito grego Zeus passa a ser o mais poderoso, o mais astuto e o mais justo, tudo ao mesmo tempo, não há também como negar: é ele o senhor do universo, a garantia para a eternidade da ordem harmoniosa, bela e boa que se torna a regra do mundo.

Dessa narrativa primordial podem-se deduzir, no plano filosófico, três ideias fundamentais que você precisa agora manter no espírito para compreender melhor o que vem a seguir.
A primeira delas é a de que a vida boa, mesmo para os deuses, pode ser definida como a vida em harmonia com a ordem cósmica. Nada supera a existência justa, no sentido de que a justiça — em grego, diké — seja antes de tudo a justeza, quer dizer, o fato de estar de acordo com o mundo organizado, bem-repartido e que tão penosamente saiu do caos.
A justiça cósmica derivada da divisão original, se aplica a todos os seres, divinos ou mortais, mas nada ainda pode se considerar garantido: a desordem continua sempre ameaçando. E pode vir de qualquer lugar, até mesmo de Apolo ou de algum outro deus que se perca por paixão, de forma que o trabalho de Zeus, e dos diferentes heróis que têm a mesma missão, jamais está concluído, e é o motivo pelo qual as narrativas mitológicas são potencialmente infinitas.
A segunda ideia decorre diretamente da primeira. Na verdade, é sua outra face; já que a edificação da ordem cósmica é a mais preciosa conquista dos olímpicos, fica óbvio que o maior "pecado" que se possa cometer, segundo os gregos, e do qual toda a mitologia, no fundo, nunca deixa de falar, é justamente essa famosa hybris, esse descomedimento orgulhoso que leva os seres, tanto mortais quanto imortais, a não saber guardar o seu lugar no meio do universo.
Dizem que no alto do templo de Delfos — o templo de Apolo — estava inscrito um dos lemas mais célebres de toda a cultura grega: "Conhece-te a ti mesmo." Não se trata de psicanálise. O significado é bem diferente. A expressão quer dizer que devemos conhecer nossos próprios limites. Saber quem somos é ter conhecimento de nosso "lugar natural" na ordem cósmica. O lema nos convida a encontrar esse justo lugar no coração do grande Todo e, sobretudo, a nele permanecer, sem nunca pecar por hybris, por arrogância e descomedimento.
O que o Mito de Prometeu apresenta?
O que a mitologia grega aqui põe em cena, com uma clarividência e profundidade impressionantes, é a definição totalmente moderna de uma espécie humana cuja liberdade e criatividade são fundamentalmente antinaturais e anti-cósmicas. O homem prometeico é o homem da técnica, capaz de criar, inventar de maneira incessante, fabricar máquinas e artifícios capazes de um dia se libertarem de todas as leis do cosmos. É isso, muito exatamente, que Prometeu lhe dá, roubando o "gênio das artes", ou seja, a faculdade de utilizar e até inventar todo tipo de técnica. Agricultura, aritmética, linguagem, astronomia. A espécie humana é a única entre as mortais capaz de hybris, a única podendo, ao mesmo tempo, desafiar os deuses e perturbar e até mesmo destruir a natureza.
Destruição da humanidade
Em um momento da mitologia os deuses cogitam a possibilidade de destruir o ser humano. No momento em que anuncia a decisão de destruir a totalidade do gênero humano, a assembleia dos deuses, na verdade, fica dividida. Uns apoiam e até agravam a vontade exterminadora. Mas outros, pelo contrário, lembram que a terra, sem os mortais, pode se tornar bem tediosa e vazia.
Se a ordem cósmica fosse perfeita, caracterizada por um equilíbrio imutável e sem falhas, o tempo simplesmente pararia, isto é, a vida, o movimento, a história, e não haveria, inclusive para os deuses, nada mais a se ver nem fazer, ficando claro que o caos primordial e as forças que ele não para de engendrar de vez em quando não podem nem devem jamais desaparecer totalmente. E a humanidade, com todos os seus vícios e, principalmente, com a sucessão infinita de gerações que isso implica, desde o envio de Pandora e da morte "de verdade" para os homens, é indispensável à vida. Magnífico paradoxo que se pode formular da seguinte maneira: não há vida sem morte, não há história sem sucessão de gerações, não há ordem sem desordem, não há cosmos sem um mínimo de caos.
Mesmo a humanidade sendo um perigo para a ordem cósmica os deuses reconhecem a parte que é dos mortais no mundo. Mas os deuses colocam a humanidade em seu lugar. A vida retoma seu fluxo, e a ordem cósmica escapa, finalmente, dos dois males que a ameaçavam: o caos, de um lado, que podia a qualquer instante ressurgir através daquela humanidade completamente mergulhada na hybris; de outro, o tédio da inércia e da vacuidade, caso as espécies mortais totalmente desaparecessem. Com isso, você pode perceber que somente aí a cosmogonia, a construção do cosmos, está verdadeiramente concluída.
Mitologia e filosofia
A mitologia grega explora uma questão que nos afeta como nunca: a do sentido da vida fora da teologia. Os primeiros filósofos vão retomar por conta própria toda uma parte da herança religiosa como descrita principalmente nas grandes narrativas míticas que analisamos referentes ao nascimento dos deuses e do mundo; de outro lado, porém, essa mesma herança será consideravelmente modificada, ao mesmo tempo traduzida e traída por uma nova forma de pensamento, o pensamento racional, que lhe dá um novo sentido e uma nova condição.
Uma revolução na continuidade do mito, que se opera em pelo menos três planos. Primeiro, em vez de falar, como a mitologia, em termos de filiação — Zeus é filho de Cronos, que é filho de Urano etc. —, a filosofia, racionalista e secularizada, vai se exprimir em termos de explicação, de causalidade. Tal elemento engendra tal outro elemento, tal fenômeno produz tais efeitos etc.
A imagem do filósofo finalmente emerge, diferente daquela do sacerdote. Sua autoridade não vem dos segredos que possui, mas das verdades que ele torna públicas; não dos mistérios ocultos, mas dos argumentos racionais de que é capaz.
O segundo ponto é a maneira pela qual os filósofos vão passar do sagrado ao profano, esforçando-se para "extrair" ou "abstrair" das divindades gregas elementos "materiais" constitutivos do universo, ao passar, como acabo de dizer, de Ponto (onda marinha) à água, de Urano ao ar celeste, de Gaia à terra etc.
E é propriamente essa dualidade — ruptura e continuidade — que vai, desde a origem, marcar, mas de maneira indelével, as relações ambíguas da filosofia com sua única rival séria, a religião. É absurdo reduzir filosofia a uma simples moral. Mas igualmente errado é reduzi-la à estrita dimensão da teoria. Com demasiada frequência, nos liceus e universidades, ensinamos aos alunos a ideia de que a filosofia é reflexão, espírito crítico, argumentação. Sem dúvida é bom que se saiba refletir, criticar e argumentar para pensar direito, e isso, claramente, faz parte da filosofia. Mas da mesma forma concerne à sociologia, à biologia, à economia e até ao jornalismo.
O que a mitologia lega de mais profundo à filosofia antiga, sua herdeira direta nesse ponto, é que a questão essencial é pura e simplesmente a de se saber como chegar a uma vida boa no coração desse cosmos, mesmo já secularizado e desdivinizado à maneira platônica e estoica. A filosofia nasce na Grécia porque o mito ali preparou o terreno, refletindo já de maneira extraordinariamente profunda a condição dos mortais no centro do universo. De forma que a interrogação fundamental dos filósofos já se encontrava inteiramente pré-formada quando ela emerge; trata-se de saber como vencer os medos ligados à finitude para alcançar a sabedoria, isto é, a serenidade, que é a condição única para a salvação, no sentido etimológico do termo, o que nos salva da angústia da morte inerente à nossa condição humana.
É nesse sentido que a análise da passagem da mitologia para a filosofia confirma em todos os pontos a ideia de a filosofia ser de fato uma "doutrina da salvação sem deus". E uma tentativa de se salvar dos medos sem recorrer à fé nem a um ser supremo, mas exercendo a simples razão e tentando se virar por conta própria. E essa a verdadeira diferença entre filosofia e religião, e mesmo que os mitos gregos estejam repletos de deuses, esses têm a grandeza propriamente filosófica de afastar dos seus poderes a questão da salvação dos homens. Cabe a nós, mortais, e somente a nós, ajustá-la o quanto possível, sem dúvida imperfeitamente, mas por nós mesmos e por nosso raciocínio e não com a ajuda da fé ou dos Imortais. E um dos seus charmes mais impressionantes vem do fato de que, a partir dessa problemática singular, ela "inventa", de maneira propriamente genial, uma pluralidade de respostas que nos oferecem, ainda hoje, iguais possibilidades para compreendermos nossas vidas.


O que os mitos gregos antigos nós ensinam?

Assim como as gotas não escolhem a quem molhar, caindo indiferentemente sobre bons e maus, nem todos os infortúnios humanos são merecidos — longe disso. E simplesmente como as coisas se passam e nada podemos fazer, pois em sua essência tais aflições pertencem à nossa condição: a de mortais imersos na vida e na história que comportam incessantemente a possibilidade do mal. E nós devemos aprender a conviver com isso.

A existência humana é às vezes, para não dizer sempre, trágica, no sentido de o infortúnio acontecer sem que possamos lhe dar um sentido. É um erro querer a todo custo esquecer disso. Hoje em dia, assim que o mal injustamente se abate sobre nós, de imediato cedemos à mania moderna que consiste em procurar "os responsáveis". Um rio transborda e afoga pessoas que acampavam? É claro, a culpa é do prefeito, do governador, do ministro, que são no mínimo incompetentes, para não dizer criminoso s. Um avião cai? Vamos rápido abrir um processo para identificar os culpados e levá-los ao pelourinho.

O humanismo se tornou tão onipresente e estamos, nós seres humanos, tão convencidos de sermos os senhores absolutos do mundo, os donos de todos os poderes, que insensivelmente, sem sequer pensar, achamos que temos controle sobre tudo, inclusive as forças naturais, as catástrofes e os acidentes! Não somente o acaso faz parte da vida, não somente a contingência é inerente à história, mas, além disso, estamos ligados a contextos tão variados, tão complexos e ramificados, que pretender tudo controlar do que pode acontecer com os homens é pura e simplesmente grotesco!

Um cristão, acreditando que tudo se faz por vontade de Deus, ou pelo menos sob sua vigilância, tem uma propensão quase inevitável a procurar um sentido na loucura dos homens, uma explicação que de certa forma os torne responsáveis. Sendo Deus todo-poderoso e bom, a miséria do mundo não se explica de outra maneira. Deve-se supor que ela vem da maldade dos homens, da liberdade mal-utilizada, de modo que eles são coletivamente responsáveis pelas catástrofes que os abalam. Beiramos com isso os limites da superstição e, para não cair nessa armadilha, os cristãos precisam lançar mão de astúcias dialéticas — e elas são sabidamente inúmeras. E não vou querer, eu, culpá-los disso.

Os gregos pensam de outra forma. Trata-se para eles de aceitar o absurdo do mundo do jeito que ele é e tentar amá-lo assim. Uma sabedoria no presente, de certa maneira, e que nos encoraja a lidar com isso. Não uma resignação, mas uma incitação a desenvolver nossa capacidade de acolhida, de abertura para o mundo, aproveitando a vida como tal, enquanto vai bem, e que pressupõe uma certa relação com o tempo que perdemos em grande medida.

Sem dúvida, a principal convicção que a mitologia vai legar à filosofia antiga, e sobretudo ao estoicismo, é a de que os dois males que pesam sobre a existência humana, os dois freios que a bloqueiam e impedem o acesso ao pleno desabrochar resultante da vitória sobre o medo, são a nostalgia e a esperança, ou seja, a vinculação ao passado e a preocupação com o futuro. O passado permanentemente nos puxa para trás, graças ao terrível poder que têm sobre nós o que Espinosa inspiradamente chamou "paixões tristes": nostalgia, quando o passado foi feliz, mas culpa, remorso e arrependimento, quando foi doloroso. Tomamos refúgio então em miragens do futuro, como as que Sêneca tão bem descreveu em Cartas a Lucílio. Imaginamos que trocando uma coisa ou outra, casa, carro, sapatos, corte de cabelo, férias, MP3, aparelho de televisão, trabalho ou o que quer que se possa imaginar, as coisas vão melhorar. Verdade, porém, é que os atrativos do passado e as miragens do futuro, na maior parte do tempo, não passam de engôdos. O tempo todo nos desviam do instante presente, nos impedem de viver plenamente. Além disso, são focos permanentes de angústia e de medo, com a primeira surgindo quase sempre do passado e o segundo, do futuro. E não há obstáculo maior para a vida boa do que o temor.

E esta a convicção simples e profunda que se exprime na sabedoria grega e que principalmente o estoicismo vai tornar popular. Para nos salvarmos, para termos acesso à sabedoria que reside na vitória sobre o medo, precisamos aprender a viver sem nostalgia do passado nem receio supérfluo com relação ao futuro, o que significa que devemos parar de habitar permanentemente essas dimensões do tempo que, aliás, não têm existência alguma (o passado não existe mais e ainda não há futuro) e nos limitarmos, tanto quanto possível, ao presente. Como diz Sêneca em Cartas a Lucíolo:

Devem ser eliminadas essas duas coisas: o receio com relação ao futuro e a lembrança de antigos males. Estes últimos não me concernem mais e o futuro não me concerne ainda.


O mito de Édipo que pode ser vir como um exemplo esclarecedor desta proposta filosófica. O destino não lhes pertence e pode sempre transcorrer mal, tomando de volta o que deu. Durante vinte anos, sendo rei de Tebas, feliz com Jocasta e seus filhos, Édipo viveu em plena glória e felicidade. Tudo isso lhe foi retirado. Pior ainda, a base da construção da sua felicidade, isto é, o fato de ele ter matado o pai e casado com a mãe, se tornou o princípio fundamental da absoluta catástrofe. Moral da história: deve-se aproveitar a vida enquanto ela é boa, enquanto se está bem, e sem estragá-la com tormentos inúteis. Sábio é quem vive no presente, não por falta de inteligência ou por ignorar o que pode acontecer, mas, pelo contrário, por muito bem saber que, mais cedo ou mais tarde, tudo vai piorar e deve-se aproveitar desde já tudo que nos é dado. O sábio não se limita a amar apenas o que é amável. Disso todo mundo é capaz. Ele é aquele que, em qualquer circunstância, consegue "esperar um pouco menos, lamentar um pouco menos e amar um pouco mais".

Referências Bibliográficas:
FERRY, Luc. Aprender a viver: Filosofia para os novos tempoRio de Janeiro, Editora Objetiva, 2010.
FERRY, Luc. Aprender a viver II: A sabedoria dos mitos gregos. Rio de Janeiro. Editora Objetiva, 2009.
GALLO, Sílvio. Filosofia: experiência do pensamento. São Paulo. Editora Scipione. 2013.
DE ARRUDA ARANHA, Maria Lúcia; MARTINS, Maria Helena Pires.Filosofando: introdução à filosofia. Moderna, 2009.

Sobre os preconceitos com a filosofia


Ideias que as pessoas têm da Filosofia

Se fizermos uma rápida pesquisa com as pessoas à nossa volta, indagando o que elas pensam da Filosofia, muito provavelmente ouviremos opiniões diversas. Umas dirão, por exemplo, que a Filosofia é algo muito difícil e que, por isso mesmo, só pode ser praticada por pessoas de inteligência privilegiada, sendo inacessível aos "simples mortais"; outras responderão que a Filosofia é coisa de gente doida, que vive no mundo da Lua e que só se preocupa com assuntos abstratos, e que ela, a Filosofia, nada tem a ver com a vida prática; outras, ainda, concordando com estas últimas, emendarão que a Filosofia, por não ter uma aplicação prática imediata, não serve para nada. Pode ser que alguém, remando contra toda essa maré de opiniões pejorativas a respeito da Filosofia, arrisque-se a dizer que a considera uma matéria linda, já que permite o contato com o pensamento dos filósofos, expresso em frases de rara profundidade e beleza, ainda que, por vezes, incompreensíveis; por fim, certamente haverá também aquelas que confessarão, com algum sarcasmo ou menosprezo, não ter a menor ideia do que seja a Filosofia.

Todas essas opiniões, na realidade, são, pelo menos em certa medida, expressão de um preconceito em relação à Filosofia. Por que preconceito? Porque, em geral, são opiniões emitidas apressadamente, precipitadamente, sem a preocupação de se examinar com o devido cuidado o assunto sobre o qual se está opinando a fim de conhecê-lo melhor. Afinal, é justamente isso que caracteriza o preconceito. Sempre que adotamos tal postura, corremos mais seriamente o risco de nos enganar em nosso julgamento e até de cometer injustiças com as pessoas.

Filósofos e "filósofos"

Se "todos os homens são 'filósofos'", como quer Gramsci, qual é, então, a diferença entre o filosofar de uma pessoa comum e o de um filósofo profissional ou especialista? O próprio autor esclarece:

"O filósofo profissional ou técnico não só 'pensa com maior rigor lógico, com maior coerência, com maior espírito de sistema do que os outros homens, mas conhece toda a história do pensamento, isto é, sabe as razões do desenvolvimento que o pensamento sofreu até ele e está em condições de retomar os problemas a partir do ponto em que eles se encontram após terem sofrido a mais alta tentativa de solução etc. Ele tem, no campo do pensamento, a mesma função que nos diversos campos científicos têm os especialistas".

Trocando em miúdos, podemos dizer que o filósofo especialista: pensa, reflete, raciocina observando mais cuidadosamente as regras da lógica e os procedimentos metodológicos que utiliza; conhece a história do pensamento, isto é, a história da Filosofia; é capaz de analisar os problemas de seu tempo à luz da contribuição dos filósofos do passado que já se debruçaram sobre eles.

Mas se existe essa diferença entre o filósofo especialista e o não especialista, por que então afirmar que "todos os homens são 'filósofos'"? Justamente para combater e destruir aquele preconceito de que a Filosofia é uma atividade muito difícil e restrita a uma minoria.

É importante perceber que a propagação desse preconceito cumpre uma função política conservadora, na medida em que afasta a Filosofia do contato com as massas, com o povo, com as pessoas mais simples. Dessa forma, impedidas de se apropriar dos conceitos e das teorias elaboradas pelos filósofos, as pessoas ficam desprovidas dessas ferramentas intelectuais que lhes permitiriam superar mais facilmente o senso comum e adquirir um conhecimento mais crítico e elaborado da realidade em que vivem.


Além disso, cabe afirmar que todos os homens são "filósofos" para deixar claro que todas as pessoas são potencialmente capazes de avançar de um "filosofar" espontâneo, assistemático, restrito ao bom senso, para um filosofar mais elaborado e rigoroso, semelhante ao praticado pelos filósofos especialistas.