domingo, 23 de fevereiro de 2014

Introdução à Filosofia

O termo Filosofia é atribuído a Pitágoras de Samos, filósofo e matemático, nascido, aproximadamente, em 540 a.C. Para Pitágoras, a sabedoria é privilégio dos deuses, o ser humano pode apenas amá-la, desejá-la. Porém, o filósofo (sophós, sábio) é aquele que conhece verdadeiramente a realidade.

É considerado que, etimologicamente, o termo filosofia, em grego φιλοσοφια (philosophia), significa amizade pela sabedoria, amor ao saber, pois o termo deriva de φιλο (filo) que significa amizade, amor, e σοφια (sofia) que significa sabedoria.

A filosofia nasceu entre o final do século VII a.C. e o início de século VI a.C., nas colônias gregas da Ásia Menor, apesar da controvérsia de ela ter nascido no Oriente. A tese do nascimento da filosofia no oriente tinha local específico, o Egito e Babilônia. Os temas das teses eram de que, no oriente, a matemática, a medicina e a astrologia já eram desenvolvidas e, tais temas, possibilitavam a sabedoria numa busca interpretativa para o sentido da vida.
  

Porém, pode ser certo que, se de fato a filosofia nasceu na Grécia, não esteve livre de influências orientais, pelo menos isto se constata nos poemas de Homero.

O crescimentodesenvolvimento da filosofia aconteceu primeiramente pela chegada dos dórios, cenário grego. As invasões dóricas acarretaram migrações de grupos que tentavam salvaguardar sua história. Com as invasões as lendas ganharam relatos mais fabulosos e, os poemas relataram o seu cotidiano, os poetas contribuíram para a formação da educação do homem grego. Um dos poetas foi Homero com Ilíada e Odisseia; Hesíodo também contribuiu com a Teogonia e As Obras e os dias.

A  economia também contribuiu para o desenvolvimento da filosofia, através da indústria de artesanato e o comércio. Outros eventos que permitiram o desenvolvimento da filosofia foram as navegações, a política, com nascimento da polis. Para Nietzsche é o tema da água, abordado por Tales (585 a.C.), que dá início à filosofia, que para ele é uma ideia absurda, mas que é dela que se inicia a ideia da origem das coisas. Para o senso comum, Tales foi o primeiro filósofo com a tese de que o princípio de tudo é a água e por esse princípio é que ele declarou que a terra está sobre a água.

A liberdade gera no homem grego o conceito de ser cidadão e de se colocar no mundo grego como o homem ético e virtuoso. Questionar, refletir, demonstrar e argumentar desafia o homem grego para o desejo de obter conhecimento e de ser livre. Assim, percebem que as respostas para a existência partem do pensar e de suas disposições nas investigações. Tal disposição proporciona que suas respostas não tenham uma única via, a religião, mas mais uma via, a razão.

Filosofia não é apenas uma atitude teórica, mas também uma atitude contemplativa, reflexiva e prática diante da vida.


Glossário
Odisseia: longa perambulação ou viagem marcada por aventuras, eventos imprevistos e singulares

Teogonia: nas religiões politeístas, narração do nascimento dos deuses e apresentação da sua genealogia; conjunto de divindades cujo culto fundamenta a organização religiosa de um povo politeísta
Dórios: Os Dórios foram um dos povos que formaram a civilização grega antiga. A origem dos Dórios ainda é algo incerto, as teorias que tentam explicar o fato ainda não chegaram a uma conclusão definitiva. Alguns pesquisadores acreditam, baseando-se em ideais difundidas na Antiguidade, que os Dórios eram originários de regiões montanhosas localizadas ao norte e a nordeste da Grécia, além de Macedônia e do Épiro. Segundo os defensores dessa hipótese, alguma circunstancia não identificada teria causado a migração desse povo mais para o sul, alcançando a região do Peloponeso, certas ilhas do Mar Egeu, à Magna Grécia e à Creta. Já outra corrente de pensamento sustenta a ideia que os Dórios teriam origem na costa da Ásia Menor e se deslocaram pelo nordeste da Grécia e por diversas ilhas até a estabilização definitiva no sul da região. Pela raiz incerta, os Dórios são identificados, grosso modo, como um povo indo-europeu.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

A filosofia moral – Parte 1

Ética ou filosofia moral

Culturas e sociedades fortemente hierarquizadas e com diferenças de castas ou de classes muito profundas podem até mesmo possuir várias morais. No entanto, a simples existência da moral não significa a presença explícita de uma ética, entendida como filosofia moral, isto é, uma reflexão que discuta, problematize e interprete o significado dos valores morais.

De fato, como vimos anteriormente, isso se dá porque os costumes são anteriores ao nosso nascimento e formam o tecido da sociedade em que vivemos, de modo que acabam sendo considerados inquestionáveis e as sociedades tendem a tomá-los como fatos naturais existentes por si mesmos.
·  costume
A palavra costume origina-se do grego éthos (donde éti­ca) e do latim mos, moris (donde moral). Ética e moral referem-se ao conjunto de costumes tradicionais de uma sociedade e, como tais, são considerados valores e obri­gações para a conduta de seus membros.
A filosofia moral ou ética nasce quando se a indagar o que são, de onde vêm e o que valem costumes.
A filosofia moral ou ética nasce quando, além das questões sobre os costumes, também busca compreender caráter de cada pessoa, referindo-se, portanto, ao senso moral e à consciência moral individuais.

A ética ou filosofia moral inicia-se com Sócrates.

Sócrates, o incansável perguntador

Percorrendo praças e ruas de Atenas — contam Platão e Aristóteles —, Sócrates perguntava aos atenienses, fossem jovens ou velhos, o que eram os valores nos quais acreditavam e que respeitavam ao agir.
Ao indagar o que são a virtude e o bem, Sócrates realiza, na verdade, duas interrogações. Por um lado, interroga a sociedade para saber se o que ela costuma considerar virtuoso e bom corresponde efetivamente à virtude e ao bem; e, por outro, interroga os indiví­duos para saber se, ao agirem, possuem efetivamente consciência do significado e da finalidade de suas ações, se seu caráter ou sua índole são virtuosos e bons realmente. A indagação ética socrática dirige -se, portanto, à sociedade e ao indivíduo.

As questões socráticas inauguram a ética ou filosofia moral porque definem o campo no qual valores e obrigações morais podem ser estabelecidos pela determinação de seu ponto de partida: a consciência do agente moral. É sujeito ético ou moral somente aquele que sabe o que faz, conhece as causas e os fins de sua ação, o significado de suas intenções e de suas atitudes e a essência dos valores morais. Sócrates afirma que apenas o ignorante é vicioso ou incapaz de virtude, pois quem sabe o que é bem não poderá deixar de agir virtuosamente.

Aristóteles e a práxis

·  Práxis
no aristotelismo, conjunto de atividades humanas autotélicas, cuja manifestação mais representativa é a política, e caracterizadas esp. por sua natureza concreta, em oposição à reflexão teórica.

Se devemos a Sócrates o início da filosofia moral, devemos a Aristóteles a distinção entre saber teorético ou contemplativo e saber prático. O saber teorético ou contemplativo é o conhecimento de seres e fatos que existem e agem independentemente de nós e sem nossa intervenção ou interferência, isto é, de seres e fatos naturais e divinos. O saber prático é o conhecimento daquilo que só existe como consequência de nossa ação e, portanto, depende de nós. A ética e a política são um saber prático. O saber prático pode ser de dois tipos: práxis ou técnica.


Na práxis, o agente, a ação e a finalidade do agir são inseparáveis ou idênticos, pois o agente, o que ele faz e a finalidade de sua ação são o mesmo.
Ao contrário, na técnica, diz Aristóteles, o agente, a ação e a finalidade da ação são diferentes e estão separados, sendo independentes uns dos outros.

Um carpinteiro, por exemplo, ao fazer uma mesa, realiza uma ação técnica, mas ele próprio não é essa ação nem é a mesa produzida por ela. A técnica tem como finalidade a fabricação de alguma coisa diferente do agente e da ação fabricadora (a ação técnica de fabricar a mesa implica o trabalho sobre a madeira com instrumentos apropriados, mas isso nada tem a ver com a finalidade da mesa, uma vez que o fim é determinado pelo uso e pelo usuário).

Deliberação e decisão

Também devemos a Aristóteles a definição do campo das ações éticas.
Aristóteles acrescenta à consciência moral, trazida por Sócrates, a vontade guiada pela razão como o outro elemento fundamental da vida ética.

Devemos a Aristóteles uma distinção que será central em todas as formulações ocidentais da ética, qual seja, a diferença entre o que é por natureza (ou conforme à physis) e o que é por vontade (ou conforme à liberdade). O necessário é por natureza; o possível por vontade.

A importância dada por Aristóteles à vontade racional, à deliberação e à escolha o levou a considerar entre todas as virtudes, uma delas como condição de todas as outras e presente em todas elas: a prudência ou sabedoria prática.

Aristóteles distingue vícios e virtudes pelo critério do excesso, da falta e da moderação: um vício é um sentimento ou uma conduta excessivos ou, ao contrário, deficientes; uma virtude é um sentimento ou uma conduta moderados.

Explicação teleológica
Outro fato que se tornou óbvio para Aristóteles enquanto ele classificava o mundo natural é que a "forma" de uma criatura não se limita a características físicas (tais como pele, pelo, pena ou escamas), mas inclui uma questão acerca do que essa criatura faz e como ela se comporta – o que, para Aristóteles, tem implicações éticas.

Para entender a ligação com a ética, precisamos primeiro ter em conta que, para Aristóteles, tudo no mundo era explicado por quatro causas inteiramente responsáveis pela existência de algo. Quais sejam: a causa material, ou de que algo é feito; a causa formal, ou a disposição ou forma de algo; a causa eficaz, ou como algo é levado a existir; e a causa final, ou a função ou o objetivo de algo. E é esse último tipo de causa, a "causa final", que se relaciona à ética, um tópico que, para Aristóteles, não está separado da ciência, mas é essencialmente uma extensão lógica da biologia.

Aristóteles forneceu o exemplo de um olho: a causa final do olho (sua função) é ver. Essa função é a finalidade, ou tetos, do olho (telos é a palavra grega da qual deriva "teleologia", ou o estudo da finalidade na natureza). Uma explicação teleológica sobre algo é, portanto, uma explanação sobre a finalidade de algo. E conhecer a finalidade de algo implica, também, saber o que é uma versão "boa" ou "má" de algo: o olho bom, por exemplo, enxerga bem.


No nosso caso, uma vida "de bem" é, portanto, uma vida na qual cumprimos nosso objetivo ou usamos ao máximo todas as características que nos tornam humanos. Uma pessoa pode ser considerada "virtuosa" ou "de bem" se usa as características com as quais nasceu, e só pode ser feliz ao usar toda a sua capacidade na busca da virtude – a forma mais elevada do que, para Aristóteles, é a sabedoria.

Compreendemos a natureza da "vida virtuosa" ao vê-la nas pessoas à nossa volta.

O legado dos filósofos gregos

Se examinarmos o pensamento filosófico dos antigos, veremos que nele a ética afirma três grandes princípios da vida moral:

1. por natureza, os seres humanos aspiram ao bem e à felicidade, que só podem ser alcançados pela conduta virtuosa;

2. a virtude é uma excelência alcançada pelo caráter, tanto assim que a palavra grega que a designa é aretê, que quer dizer "excelência". É a força interior do caráter que consiste na consciência do bem e na conduta definida pela vontade guiada pela razão,-pois cabe a esta última o controle sobre instintos e impulsos irracionais descomedidos que existem na natureza de todo ser humano;

3. a conduta ética é aquela na qual o agente sabe o que está e o que não está em seu poder realizar, referindo-se, portanto, ao que é possível e desejável para um ser humano. Saber o que está em nosso poder significa, principalmente, não se deixar arrastar pelas circunstâncias nem pelos instintos, nem por uma vontade alheia, mas afirmar nossa independência e nossa capacidade de autodeterminação.

Epicuro
O sujeito ético ou moral não se submete aos acasos da sorte, à vontade e aos desejos de um outro, à tirania das paixões, mas obedece apenas à sua consciência e à sua vontade racional. A busca do bem e da felicidade são a essência da vida ética.

Fundamental à filosofia desenvolvida por Epicuro é a visão da paz de espírito, ou tranquilidade, como objetivo da vida. Ele argumentou que o prazer e a dor são as raízes do bem e do mal, e que qualidades como virtude e justiça derivam dessas raízes, porque "é impossível viver uma vida agradável sem viver de maneira sábia, honrada e justa, e é impossível viver de maneira sábia, honrada e justa sem viver de maneira agradável". Para Epicuro, o maior prazer só é alcançável por meio do conhecimento, da amizade e de uma vida moderada, livre do medo e da dor.

Medo da morte

Um dos obstáculos para desfrutar da paz de uma mente tranquila, Epicuro raciocinou, é o medo da morte, intensificado pela crença religiosa de que, se incorrer na ira dos deuses, você será severamente punido na vida após a morte. Em vez de agir contra esse medo, propondo um estado alternativo de imortalidade. Epicuro tentou explicar a natureza da própria morte. Ele começou propondo que, quando morremos, não estamos cientes da morte, já que nossa consciência (nossa alma) para de existir quando a vida cessa.
Epicuro ponderou que a alma não pode ser um espaço vazio porque ela opera dinamicamente com o corpo e, então, deve ser composta de átomos. Ele descreveu esses átomos da alma distribuídos ao redor do corpo, mas tão frágeis que se dissolvem quando morremos, e então não somos mais capazes de sentir nada. Se quando morremos perdemos a capacidade de sentir as coisas, mental ou fisicamente, é tolice deixar o medo da morte causar-nos dor enquanto ainda vivemos.


Zenão de Cítio

Duas escolas importantes de pensamento filosófico surgiram depois da morte de Aristóteles: a ética hedonista e agnóstica de Epicuro, que teve apelo limitado, e o mais popular e duradouro estoicismo de Zenão de Cítio.

Ele tinha pouca paciência com especulações metafísicas e chegou a acreditar que o cosmos era governado por leis naturais estabelecidas por um legislador supremo. O homem, ele declarou, é completamente impotente para mudar essa realidade – e, além de desfrutar de seus muitos benefícios, o homem também tem de aceitar sua crueldade e injustiça.

Livre-arbítrio

No entanto, Zenão também declarava que o homem recebeu uma alma racional com a qual exerce o livre-arbítrio. Ninguém é forçado a perseguir uma vida "de bem". Cabe ao indivíduo escolher pôr de lado as coisas sobre as quais tem pouco ou nenhum controle e tornar-se indiferente à dor e ao prazer, à pobreza e à riqueza. Mas a pessoa que fizesse isso, segundo Zenão, alcançaria uma vida em harmonia com a natureza em todos os aspectos, bons ou ruins, vivendo de acordo com as decisões do supremo legislador.
O estoicismo conquistou apoio em grande parte da Grécia helenista, mas atraiu ainda mais seguidores no Império Romano, que estava em expansão, onde floresceu como uma base para a ética pessoal e política, até ser suplantado pelo cristianismo no século VI.



Michel de Montaigne

Montaigne não salientou a importância da solidão física, mas, mais exatamente, o desenvolvimento da capacidade de resistir à tentação de aquiescer indiferentemente às opiniões e ações da massa. Ele relacionou nosso desejo pela aprovação de colega com o de estar demasiadamente ligado à riqueza e à posse. Ambas as paixões nos diminuem, devemos cultivar o desprendimento. Ao fazer isso, não nos tornaremos emocionalmente escravizados por elas ou ficaremos devastados se as perdermos.

Nosso desejo de aprovação pela massa está ligado à busca pela glória ou fama. Ao contrário de pensadores como Nicolau Maquiavel, que via a glória como um objetivo digno, Montaigne acreditava que o empenho constante pela fama é a maior barreira à paz de espírito – ou tranquilidade.

Montaigne foi além ao recomendar que, em vez de procurar a aprovação daqueles à nossa volta, devemos imaginar que algum ser verdadeiramente notável e nobre está sempre conosco, observando nossos pensamentos mais íntimos: um ser em cuja presença até os loucos esconderiam seus defeitos. Ao fazer isso, aprenderemos a pensar clara e objetivamente, nos comportando de maneira mais séria e racional.

Montaigne afirmava que preocupar-se demasiadamente com a opinião dos outros pode nos corromper, porque acabamos imitando aqueles que são maus ou ficando tão consumidos pelo ódio contra eles que perdemos a razão.

Referências:
CHAUI, Marilena. Filosofia: Novo Ensino Médio, Volume único. São Paulo: Ática, 2010, p. 212-215.
BUCKINGHAM, Will; BURNHAM, Douglas. O livro da Filosofia. São Paulo: Globo, 2011, p. 61, 64-65, 67, 108-109.

O que é a Filosofia?


Podemos dizer que a filosofia surge quando os seres humanos começam a exigir provas e justificativas racionais que validem ou invalidem as crenças cotidianas.

A atitude crítica

·  crítica
Palavra proveniente do grego; possui três sentidos principais: 1) "capacidade para julgar, discernir e decidir corretamente"; 2) "exame racional de todas as coisas sem preconceito e sem prejulgamento"; 3) "atividade de examinar e avaliar detalhadamente uma ideia, um valor, um costume, um comportamento, uma obra artística ou científica".
A filosofia começa dizendo não às crenças e aos preconceitos do dia-a-dia para que possam ser avaliados racional e criticamente. Como dizia Sócrates, começamos a buscar o conhecimento quando somos capazes de dizer: "Só sei que nada sei".
Para Platão, o discípulo de Sócrates, a filosofia começa com a admiração ou, como escreve seu discípulo Aristóteles, a filosofia começa com o espanto. Nós nos espantamos quando, por meio de nosso pensamento, tomamos distância do nosso mundo costumeiro, olhando-o como se nunca o tivéssemos visto antes; como se estivéssemos acabando de nascer para o mundo.
A filosofia inicia sua investigação num momento muito preciso: naquele instante em que abandonamos nossas certezas cotidianas e não dispomos de nada para substituí-las ou para preencher a lacuna deixada por elas. Em outras palavras, a filosofia se interessa por aquele instante em que a realidade natural (o mundo das coisas) e a realidade histórico-social (o mundo dos homens) tornam-se estranhas, espantosas, incompreensíveis e enigmáticas, quando as opiniões estabelecidas disponíveis já não nos podem satisfazer. Ou seja, a filosofia se volta preferencialmente para os momentos de crise no pensamento, na linguagem e na ação, pois é nesses momentos críticos que se manifesta mais claramente a exigência de fundamentação das ideias, dos discursos e das práticas.
Assim como cada um de nós, quando possui desejo de saber, vai em direção à atitude filosófica ao perceber contradições, incoerências, ambiguidades ou incompatibilidades entre nossas crenças cotidianas, também a filosofia tem especial interesse pelos momentos de crise ou momentos críticos.
Para que filosofia?
Costuma-se chamar de "filósofo" alguém sempre distraído, com a cabeça no mundo da lua, pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que são completamente inúteis.
Essa pergunta, "Para que filosofia?", tem a sua razão de ser. Em nossa cultura e em nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática muito visível e de utilidade imediata. Quando se pergunta "Para quê?", o que se pergunta é: "Qual a utilidade?".

Verdade, pensamento racional, procedimentos especiais para conhecer fatos, aplicação prática de conhecimentos teóricos, correção e acúmulo de saberes: esses propósitos das ciências não são científicos, são filosóficos e dependem de questões filosóficas.
O trabalho das ciências pressupõe, como condição, o trabalho da filosofia.
Estudando as paixões e os vícios humanos, a liberdade e a vontade. A filosofia teria como finalidade ensinar-nos a virtude, que é o princípio do bem viver.
Mesmo que disséssemos que o objeto da filosofia não é o conhecimento da realidade nem o conhecimento da nossa capacidade para conhecer, mesmo que disséssemos que o objeto da filosofia é apenas a vida moral ou ética, ainda assim o estilo filosófico e a atitude filosófica permaneceriam os mesmos, pois as perguntas filosóficas - o quê, por que e como - permanecem.
Atitude filosófica: indagar
atitude filosófica possui algumas características que são as mesmas, independentemente do conteúdo investigado. Essas características são:
·  perguntar o que é
·  perguntar como é

·  perguntar por que é
A reflexão filosófica
·  reflexão
Palavra empregada na física pana descrever o movimento de propagação de uma onda luminosa ou sonora quando, ao passar de um meio para outro, encontra um obstáculo e retorna ao meio de onde partiu. É esse retorno ao ponto de partida que é conservado quando a palavra é usada na filosofia para significar o movimento de volta sobre si mesmo ou o movimento de retorno a si mesmo.
A reflexão filosófica é o movimento pelo qual o pensamento, examinando o que é pensado por ele, volta-se para si mesmo como fonte desse pensado.
A atitude filosófica dirige-se ao mundo que nos rodeia e aos seres humanos que nele vivem e com ele se relacionam, exterior ao pensamento.
Já a reflexão filosófica se dirige ao pensamento, à linguagem e à ação. São perguntas sobre a capacidade e a finalidade de conhecer, falar e agir próprias dos seres humanos, interior aos seres humanos.
Filosofia: um pensamento sistemático
As indagações fundamentais da atitude filosófica e da reflexão filosófica não se realizam ao acaso. A filosofia não é feita de "achismos" nem é pesquisa de opinião à maneira dos meios de comunicação de massa. As indagações filosóficas se realizam de modo sistemático.
·  sistema
Palavra de origem grega; significa "um todo cujas partes estão ligadas por relações de concordância interna". No caso do pensamento, significa um conjunto de ideias internamente articuladas e relacionadas, graças a princípios comuns ou a certas regras e normas de argumentação e demonstração que as ordenam e as relacionam num todo coerente.
A filosofia trabalha com enunciados precisos e rigorosos. Não se trata de dizer "eu acho que", mas de poder afirmar "eu penso que".
O conhecimento filosófico é um trabalho intelectual. É sistemático porque não se contenta em obter respostas para as questões que se apresentam, mas exige que as próprias questões sejam válidas e que as respostas sejam verdadeiras, estejam relacionadas entre si, esclareçam umas às outras, formem conjuntos coerentes de ideias e significações, sejam provadas e demonstradas racionalmente.

Pressente-se que a filosofia opera sistematicamente, com coerência e lógica.

Em busca de uma definição da filosofia
1. Visão de mundo de um povo, de uma civilização ou de uma cultura. Nessa definição, a filosofia corresponderia, de modo vago e geral, ao conjunto de ideias, valores e práticas pelos quais uma sociedade apreende e compreende o mundo e a si mesma, definindo para si o tempo e o espaço, o sagrado e o profano, o bom e o mau, o justo e o injusto, o belo e o feio, o verdadeiro e o falso, o possível e o impossível, o contingente e o necessário.

Qual o problema dessa definição? Ela é tão genérica e ampla que não permite, por exemplo, distinguir entre filosofia e religião, filosofia e arte, filosofia e ciência.
2. Sabedoria de vida. A filosofia seria, nessa definição, uma escola de vida ou uma arte do bem viver; seria uma contemplação do mundo e dos homens para nos conduzir a uma vida justa, sábia e feliz, ensinando-nos o domínio sobre nós mesmos, sobre nossos impulsos, desejos e paixões. Essa definição, porém, nos diz, de modo vago, o que se espera da filosofia (a sabedoria interior), mas não o que é e o que faz a filosofia.
3. Esforço racional para conceber o Universo como uma totalidade ordenada e dotada de sentido. Universo é uma totalidade, algo estruturado ou ordenado por relações de causa e efeito.
Os que adotam essa definição precisam começar distinguindo entre filosofia e religião e até mesmo opondo uma à outra, pois ambas possuem o mesmo objeto (compreender o Universo). Mas a primeira o faz por meio do esforço racional, enquanto a segunda, por meio da confiança (fé) numa revelação divina. No entanto, essa definição também é problemática, porque dá à filosofia a tarefa de oferecer uma explicação e uma compreensão totais do Universo, elaborando um sistema universal; mas sabemos, hoje, que essa tarefa é impossível.
É verdade que, nos seus primórdios, a filosofia se apresentava como uma explicação total sobre a realidade (não havia distinção entre filosofia e ciência). No entanto, a nos dias de hoje pelo menos duas limitações a essa pretensão totalizadora: em primeiro lugar, a filosofia e as ciências foram se separando no decorrer da história, e o saber científico se dividiu em vários saberes particulares.
4. Fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas.
·  Fundamento
Palavra de origem latina; significa “uma base sólida”. Do ponto de vista do conhecimento, significa “a base ou o principio racional que sustenta uma demonstração verdadeira”.
·  teoria
Palavra de origem grega que significa 'contemplar uma verdade com os olhos do espirito”, isto e, uma atividade puramente intelectual de conhecimento. Desse ponto de vista, uma fundamentação teórica significa 'determinar pelo pensamento, de maneira logica, metódica, organiza- da e sistemática o conjunto de princípios, causas e condições de alguma coisa”.
Sob esta perspectiva, fundamentar significa "encontrar, definir e estabelecer racionalmente os princípios, as causas e condições que determinam a existência, a forma e os comportamentos de alguma coisa, bem como as leis ou regras de suas mudanças”.
A fundamentação crítica significa, portanto, “examinar, avaliar e julgar racionalmente os princípios, as causas e condições de alguma coisa (de sua existência, de seu comportamento, de seu sentido e de suas mudanças)”.

A filosofia como fundamentação teórica e critica

Nessa condição, a filosofia se volta para o estudo das várias formas de conhecimento (percepção, imaginação, memória, linguagem, inteligência, experiência, reflexão) e dos vários tipos de atividades interiores e comportamentos externos dos seres humanos como expressões da vontade, do desejo e das paixões, procurando descrever as formas e os conteúdos desses modos de conhecimento e desses tipos de atividade e comportamento como relação do ser humano com o mundo, consigo mesmo e com os outros.
A atividade filosófica é, portanto, uma análise, uma reflexão e uma crítica.

Útil? Inútil?

primeiro ensinamento filosófico é perguntar: "O que é o útil?”, "Para que e para quem algo é útil?”, "O que é o inútil?”, "Por que e para quem algo é inútil?".
O senso comum de nossa sociedade considera útil o que dá prestígio, poder, fama e riqueza.
Platão definia a filosofia como um saber verdadeiro que deve ser usado em benefício dos seres humanos para que vivam numa sociedade justa e feliz.
Descartes dizia que a filosofia é o estudo da sabedoria, conhecimento perfeito de todas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso da vida, a conservação da saúde e a invenção das técnicas e das artes com as quais ficam menos submetidos às forças naturais, às intempéries e aos cataclismos.
Merleau-Ponty escreveu que a filosofia é um despertar para Ver e mudar nosso mundo.
Espinosa afirmou que a filosofia é um caminho árduo e difícil, mas que pode ser percorrido por todos, se desejarem a liberdade e a felicidade.
Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às ideias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para sermos conscientes de nós mesmos e de nossas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.

“Somente pensamos quando confrontados com um problema” John Dewey (1859-1952)

John Dewey pertence à escola filosófica conhecida como pragmatismo, surgida nos Estados Unidos no final do século XIX. Considera-se como seu fundador Charles Sanders Peirce, que em 1878 escreveu um ensaio inovador chamado Como tornar claras as nossas ideias.
Ao assumir uma perspectiva pragmática, não devemos ficar perguntando “é dessa forma que as coisas são?", mas “quais são as implicações práticas ao se adotar essa perspectiva?".
A filosofia começa a partir das esperanças, das aspirações humanas cotidianas e dos problemas que surgem no curso da vida. Sendo este o caso, Dewey considerou que a filosofia devia também ser um meio de encontrar respostas práticas a tais questões (problemas da vida).



Criaturas em evolução

Para Dewey, uma das implicações do pensamento de Darwin é que ele exige que pensemos sobre os seres humanos não como essências fixas criadas por Deus, mas como seres naturais.
“Não solucionamos problemas filosóficos, nós os superamos.” John Dewey

Tudo muda

Dewey também tomou de Darwin a ideia de que a natureza como um todo é um sistema em estado constante de mudança, ideia que, em si, ecoa a filosofia do antigo grego Heráclito.
A existência é um risco, ou um jogo, e o mundo é fundamentalmente instável. Dependemos do ambiente para ser capazes de sobreviver e prosperar, mas os muitos ambientes nos quais nos encontramos estão sempre mudando. Não apenas isso: tais ambientes não mudam de forma previsível. Somos saudáveis durante anos e, então, a doença nos atinge quando menos esperamos.
Diante da incerteza, Dewey dizia que existem duas estratégias diferentes a adotar: apelar para seres mais elevados e forças ocultas do universo em busca de auxilio ou procurar entender o mundo e adquirir o controle sobre o ambiente.

Apaziguando os deuses

A primeira dessas estratégias envolve tentar agir sobre o mundo por meio de ritos mágicos, cerimônias e sacrifícios. Essa abordagem à incerteza do mundo, Dewey acreditava, forma a base tanto da religião quanto da ética.
Na história que Dewey contou, nossos ancestrais cultuavam os deuses e espíritos como modo de tentar se aliar aos “poderes que concedem a fortuna".  Da mesma maneira, Dewey acreditava que a ética surgiu das tentativas de nossos ancestrais para apaziguar as forças ocultas - contudo, enquanto eles ofereceram sacrifícios, nós barganhamos com os deuses, prometendo agir com bondade se formos salvos dos males.
A resposta alternativa às incertezas do mundo mutável é desenvolver várias técnicas para controla-lo, de modo que possamos nele viver mais facilmente. Podemos aprender a prever o tempo, a construir casas para nos proteger dos extremos do clima, e assim por diante. Em vez de tentar nos aliar às forças ocultas do universo, essa estratégia envolve encontrar meios para revelar como o ambiente funciona para, então, nos empenhar para transformá-lo em nosso beneficio.
Mas a vida é inevitavelmente perigosa.

Uma filosofia luminosa

Tradição e ciência: A filosofia, na visão de Dewey, é o processo pelo qual tentamos superar as contradições entre esses dois tipos de resposta aos problemas da vida. Por exemplo: descobrir que essas crenças estão em choque com o conhecimento e o pensamento que adquiri com o estudo das ciências.
Há duas maneiras para julgar se uma forma de filosofia é bem-sucedida. Primeiro, devemos perguntar se ela tornou o mundo mais inteligível.
Ele criticava qualquer abordagem filosófica que, ao fim, tornasse nossa experiência mais confusa ou o mundo mais misterioso. Segundo, Dewey considerava que devemos julgar uma teoria filosófica segundo seu êxito em ser aplicada aos problemas da vida.

Uma influência prática

Vários filósofos, como Bertrand Russell, criticaram o pragmatismo por entendê-lo como a desistência da longa busca filosófica pela verdade. Todavia, a filosofia de Dewey foi muito influente na América. Uma vez que Dewey enfatizou a busca de respostas aos problemas práticos da vida, não é surpresa que grande parte de sua influência esteja em terrenos práticos, como educação e política.
“ Educação não é uma questão de falar e ouvir, mas um processo ativo e construtivo.” John Dewey

Referências:

CHAUI, Marilena. Filosofia: Novo Ensino Médio, Volume único. São Paulo: Ática, 2010, p.18-27.

BUCKINGHAM, Will; BURNHAM, Douglas. O livro da Filosofia. São Paulo: Globo, 2011, p.228-231.

Atividades
1 – O que quer dizer a palavra crítica?
2 – Em qual instante se inicia a investigação filosófica?
3 – O que nos leva a ir na direção da atitude filosófica?
4 – Por que se pergunta “Para que filosofia”?
5 – O que é e como é a reflexão filosófica?
6 – Explique como é o trabalho filosófico.
7 – O que John Dewey considerava a respeito da filosofia?
8 – De acordo com Dewey, o que nossos ancestrais esperavam conseguir apaziguando as forças ocultas?
9 – Que tipo de filosofia era criticada por Dewey?