domingo, 26 de janeiro de 2025

A relação da vontade e do agir

Tudo pode ser explicado pela relação das coisas, inclusive a vontade. O movimento só existe na relação; o que move, mesmo os indivíduos, são as relações. Refletindo de maneira mais específica sobre a vontade e o agir humano, é necessário iniciar a reflexão considerando a tristeza como energia baixa (corresponde a perecer) e a alegria como energia alta (corresponde a vigor), admitindo que essas energias são definidas pelas relações que constituem o todo do organismo (o corpo humano). Sempre existe vontade no ser, pois sempre existe relações. A vontade move, conduz ao agir cabível ao indivíduo, mas é a forma como transcorre as relações do corpo com o mundo que vão definir a vontade e o caminho a ser seguido (de acordo com a capacidade do indivíduo). Exemplificando, quando uma pessoa se relaciona negativamente com uma circunstância é natural que ela queira (vontade) agir mal e/ou fique triste se essa energia (produzida no encontro negativo entre o corpo e o mundo) comprometer a energia da alegria no corpo. E pensando no contrário, é ansiado (vontade) agir bem quando se está alegre ou com a energia alta que supera qualquer tristeza presente no corpo. Em outras palavras, é a vontade que promove o agir, mas a vontade é determinada pela relação que é estabelecida entre o corpo e o mundo (na condição anterior ao agir) que acaba por definir tanto à vontade quanto o agir ao arquitetar a energia determinante do caminho a ser “escolhido” (entre o bem e o mal) que a ação vai materializar (de acordo com a habilidade do indivíduo). Portanto, é compreensível que a energia e o movimento só existam por causa da relação das coisas e que há uma busca natural pelo bem e/ou por alegria nas relações humanas.  

https://medium.com/@junior.josefranco/a-rela%C3%A7%C3%A3o-da-vontade-e-do-agir-8c3f2b125558

sábado, 25 de janeiro de 2025

O poder das relações

O bem e o mal são definidos pelas relações em contextos únicos. A relação que leva ao mal é diferente da que leva ao bem. Mas o indivíduo controla todas as relações de coisas que constroem os eventos (isso inclui as ações do indivíduo)? Nosso controle sobre os eventos é quase nada; temos algum controle apenas sobre nós mesmos. A ideia de bem e mal segue princípios que foram criados para gerir as relações, estabelecendo as perspectivas do que é proveitoso e do que é prejudicial numa relação entre indivíduos. Algumas relações podem ser penosas e, na prática, agir mal pode ser menos penoso no momento e/ou proveitoso no futuro, mas nenhuma relação é duradoura quando o mal ou o prejuízo é o seu único fundamento.

Ninguém é triste por ser triste ou alegre por ser alegre, tudo tem uma causa. Alegria é curtir o momento em acordo com o momento (nada mais adequado do que usar a palavra curtir em tempos de rede social). Existe alegria nas redes? Existe alegria em ser saudado por um estranho com um sorriso no rosto? Alegrar-se é necessário para o “estado de espírito” que denomino felicidade (não é uma contemplação aristotélica a que me refiro). Mesmo no alegrar-se com um sorriso falso e curtidas convenientes, não existe caminhos bons ou maus em si, o que importa é a habilidade de tirar proveito das situações. Algumas circunstâncias são mais proveitosas para se alegrar do que outras, dependendo das condições e habilidades do indivíduo. A “melhor escolha” está ligada a duas coisas: a capacidade do indivíduo e ao contexto que se vive. Muito pouco se pode fazer sobre o contexto em que se vive; é possível ter mais controle sobre a capacidade que temos.

O modelo ideal é sempre fazer o que um poderoso faz. Essa idolatria pelo poder de fazer algo que poucos conseguem e/ou que exige muito trabalho advém da insatisfação recorrente – é um estado natural e necessário à existência, por isso a satisfação é sempre passageira. Nietzsche e Schopenhauer já transcorreram sobre todas essas questões que foram revisadas até aqui. O que eles deixaram de tratar é o poder como sendo algo dependente das relações. A partir das relações se constroem vários tipos de poder. A capacidade de um indivíduo em tirar proveito de uma circunstância depende das relações que também são favoráveis a alegria, logo, é possível criar algumas condições – estabelecendo relações ou criando habilidades (um conjunto de competências, como se fala na área da educação), porque relação é habilidade e vice-versa. O “poder fazer” o que nem todos podem não é garantia da alegria, mas vivenciar algo tirando o máximo proveito que se pode é garantia de alegrar-se mesmo com as “coisas pequenas da vida” (circunstâncias que não exigem muito recurso e/ou trabalho). Parece óbvio que, para a grande maioria das pessoas, o “poder tirar” deveria ser mais benquisto que o “poder fazer”. Porém, devido a nossa natureza insatisfeita e a nossa cultura consumista, o desejo por mais segue um caminho materialista, no sentido empírico de constatação da felicidade como sendo fruto de realizações, ao invés da felicidade como um “estado de espírito”. Claro que a felicidade, como “estado de espírito”, pode ser observada no indivíduo, porém estou me referindo a algo mais complexo do que uma mera realização visível. Estou tratando de um estado do corpo como um todo que consegue tirar proveito de uma situação. O “estado de espírito” é um estado do corpo e a mente é constituída da relação dum todo do organismo de um corpo (que tem a tendência a insatisfações).

Ser uma “boa pessoa” ou ser “feliz” por muito tempo não é natural, mas não é a natureza que vai nos impedir de tentar superar limites, pois queremos sempre mais.

https://medium.com/@junior.josefranco/o-poder-das-rela%C3%A7%C3%B5es-94d9923cbcf8

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

A Legitimação do Capitalismo e a Falência do Humano


O 
capitalismo só permanece devido ao Estado Moderno que sustenta e legítima tal sistema econômico. A falência do capitalismo tem se revelado no poder econômico concentrado na mão de pessoas com uma ambição desmedida e que são capazes de fazer o que for preciso para garantir a progressão do seu poder econômico, mesmo que para isso tenha que adotar comportamentos fascistas e ignorar o estado de bem-estar social. Segundo Hobbes, o estado de bem-estar social é essencial para a garantia da paz e manter a legitimidade de um governo e a existência do Estado. Logo, os conflitos de vertente revolucionária, em qualquer sistema econômico, são motivados pela desigualdade de bem-estar social e não pela desigualdade material. Do mesmo modo, os discursos extremistas parecem ter razoabilidade quando o estado de bem-estar social é comprometido. Pelo que se percebe, o Estado Moderno, que sustenta e legítima o capitalismo, sofre com políticas extremistas que o próprio sistema econômico força a existir. Essas perspectivas extremistas comprometem o Estado e, consequentemente, o capitalismo, pois todo extremo político leva à aniquilação das perspectivas humanistas. Enfim, o homem passa a ser o lobo do homem.

https://medium.com/@junior.josefranco/a-legitima%C3%A7%C3%A3o-do-capitalismo-e-a-fal%C3%AAncia-do-humano-ce8b30a9e865

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

A Arte como Representação dos Medos

A ideia de que a arte imita a vida é amplamente aceita. Em períodos marcados pela racionalidade, como os tempos apolíneos, busca-se dar um significado profundo às obras, representando o mundo de maneira estruturada e simbólica. Nesse contexto, a política se insere no repertório artístico, transformando a arte em uma ferramenta de reflexão e crítica sobre valores sociais e culturais.

Fernanda Torres, em Ainda Estou Aqui, por exemplo, transcende o papel de uma atriz em um filme. Sua consagração está ligada à representação de valores fundamentais da sociedade, revelados em sua atuação, assim como os símbolos religiosos, como o crucifixo, carregam significados profundos. No cristianismo, a cruz não é apenas um objeto; ela representa perdão, redenção e medos existenciais.

De maneira semelhante, Fernanda Torres passou a ser vista como uma representação dos medos e aspirações sociais contemporâneas. Embora sua atuação não simbolize diretamente os valores democráticos, ela evoca preocupações com o cumprimento dos princípios fundamentais do contrato social. Quando esses princípios são violados, geram angústias e temores em todos os indivíduos envolvidos. Isso lembra os medos cristãos relacionados ao pecado e às suas consequências — onde ninguém deseja carregar o peso pelos erros dos outros ou pelos próprios.

Assim, a arte, seja através de ícones religiosos ou figuras contemporâneas, continua a refletir nossas esperanças, medos e a busca por significado.

https://medium.com/@junior.josefranco/a-arte-como-representação-dos-medos-21ace209b0c7

domingo, 7 de abril de 2019

Abordagem educacional


As abordagens educacionais não críticas incentivam o aluno a decorar as “verdades” que os professores transmitem, tirando todo o prazer que o aluno poderia ter em construir seu conhecimento, desumanizando o ensino e aprendizagem, pois ser criativo e criar é uma necessidade humana. Consequentemente, a avaliação passa a presar mais a memorização do que o conhecimento desenvolvido pelo aluno a partir do conteúdo ao qual ele foi exposto.  
Outro ponto, da educação não crítica, é a dos conteúdos em si e da maneira de como são apresentados. Muitas vezes não se olha para o aluno em si e seu meio social, devido a isso, o conteúdo acaba não dialogando com a realidade social do aluno, sendo que tal diálogo é fundamental para a reflexão e, consequentemente, formação do indivíduo político consciente e capaz de intervir socialmente para a construção de uma sociedade mais justa.
Por outro lado, as abordagens educacionais críticas reconhecem a realidade social do aluno como a área circunstancial a qual irá determinar o procedimento da construção do processo de ensino e aprendizagem. Isso resulta no reconhecimento do professor como sendo mediador de um processo de ensino aprendizagem em conjunto com o seu aluno. A participação do aluno se torna importante. O professor não é mais a peça fundamental, mas sim a relação de ensino e aprendizagem que será estabelecida em conjunto e de acordo com o aluno na relação de educando e educador. Logo, para tal abordagem, o aluno passa a ser reconhecido como um ser único, inserido em um ambiente social único e ambos estão em constante devir ao qual deve ser levado em conda na mediação do professor ao definir seu projeto político didático.
Portanto, a abordagem educacional não crítica enxerga o aluno como receptor de conhecimento e a abordagem educacional crítica enxerga o aluno como participante do seu próprio aprendizado, por isso é uma abordagem ideologicamente humanista.

Os saberes necessários para uma identidade docente


Mesmo que o professor tenha o domínio do conteúdo, não existe garantias que ocorra o processo de ensino-aprendizagem. O profissional docente parece ter que adotar uma perspectiva que vai além do domínio do conteúdo para formar uma identidade que facilite o ensino-aprendizagem. Tal identidade docente releva não só o conteúdo, mas também o aluno como ser pensante para que a partir do próprio aluno se monte estratégias que facilitem a transposição didática. Os saberes a serem dominados perpassam os campos relativos à experiência, ao conhecimento e à pedagogia. O primeiro saber se refere a experiência do professor, que é construída no vivenciar da sala de aula, onde o professor se torna aluno, porque se aprende na prática a se relacionar com o aluno e a identificar as necessidades que orientam o encaminhamento e direção da aula para uma determinada turma. Em segundo lugar, encontra-se o saber do conhecimento dos conteúdos, que são expostos em temas, ações profissionais e outros que definem a especialidade da área à qual o professor atuará. Por fim, o terceiro saber é o pedagógico, que se refere aos conhecimentos científicos que orientam a ação de ensinar para torná-la mais eficiente. Todos esses três saberes devem orientar a prática educativa ajudando na construção dos objetivos, conteúdos, métodos e formas de organizar o ensino, sem perder seu caráter flexível e circunstancial, pois cada encontro com o aluno é único e irrepetível. Logo, a reflexão constante sobre a atuação docente se torna fundamental para o processo de ensino-aprendizagem. Portanto, a transposição didática é mais provável de ocorrer em uma prática educativa atenta ao conjunto necessário de uma aula, sendo a experiência prática do profissional relevante para o desenvolvimento desse estado de atenção, que define a identidade docente capaz de estabelecer um diálogo entre os componentes desse conjunto – tal conjunto é constituído de conteúdos, métodos de ensino e alunos.

A prática docente

Cap 1.8 - Ensinar Exige Reflexão Crítica Sobre a Prática - Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire:

https://www.youtube.com/watch?v=GYCJt7VTnKc

Na revista Senai Hoje o psiquiatra Claudio Naranjo nos traz uma interessante análise de estudantes de pedagogia:
http://senaihoje.blogspot.com/2015/06/claudio-naranjo-educacao-atual-so.html



Caso o profissional queira realizar a proposta de uma didática mais humanista, a reflexão crítica é o ponto de partida para a prática. O docente deve refletir constantemente sobre a prática para achar as melhores estratégias, formando uma didática afetiva que reconhece o aluno como ser pensante e criativo e produzir uma comunhão que supera a ingenuidade que ambos podem ter, como a ponta na entrevista e no vídeo. E a partir dessa didática afetiva, o docente pode estimular o autoconhecimento dos alunos e formar seres autônomos e saudáveis. Pois quando o aluno é acolhido e tratado de maneira mais afetuosa, o aluno passa a se sentir mais motivado a aprender e a permitir que o professor demonstre o quanto é relevante o conteúdo administrado. 
No livro Pedagogia da autonomia, é recomendado que o ensino-aprendizagem tenha movimento dinâmico e dialético entre o fazer e o pensar sobre o próprio fazer. Uma vez que o sistema dessensibiliza o aluno, como a entrevista alerta, o docente deve se superar tendo senso crítico sobre sua prática para conseguir sensibilizar o aluno e formar seres críticos. Logo, é reconhecido que a experiência docente é fundamental, mas não é suficiente para superar a ingenuidade existente, no comportamento arrogante, que impede a reflexão sobre si mesmo. Pois nem sempre o conhecimento teórico e/ou as experiências passadas aproximam o docente dos alunos e de si mesmo para uma avaliação de fato.
Segundo uma das ideias expostas na entrevista, talvez seja a falta de amor pela profissão o maior problema da falta de criticidade docente. O docente que não ama o que faz não procura melhorar e tem dificuldade em tratar com amor o aluno em uma prática que se desgosta e que é estritamente exigida na relação com o aluno.
Portanto, a ideia que se tira da entrevista e do vídeo é que uma didática afetiva somente é possível em uma prática docente crítica sobre a própria prática e que o docente de deve amar (a profissão) para oferecer (ao aluno) amor, caso se queira estar preparado para formar alunos críticos, autônomos e saudáveis.

Sobre o ambiente educacional


Acredito que seja importante que o ambiente de sala de aula propicie a interação do grupo para que facilite o processo de ensino-aprendizagem. Uma estratégia simples e eficaz é o deslocamento físico pela sala ou fora dela, pois tal ação possibilita a conversa entre os estudantes de subgrupos (“panelas”) ou pelo menos força o contato visual para que não se tropece no outro, criando uma familiaridade e respeito entre eles que será importante para outras estratégias.

A aula expositiva é uma estratégia comum, mas por meio de recursos audiovisuais e aulas dialogadas é possível trazer os alunos para a discussão dos fatos e conceitos abordados, tornando a aula dinâmica e favorecendo a transposição didática devido a participação do aluno na problematização dos conteúdos para que se forme um aluno que tenha o habito de pensar e, consequentemente, seja capaz de desenvolver habilidades para proceder em certas situações. 

Portanto, o aluno não deve ser passivo dentro de sala de aula, a participação dele é fundamental para que os conteúdos sejam problematizados, mas isso somente será possível se houver um ambiente que incentive o entrosamento para tal discussão dos fatos e conceitos abordados.   

Cultura e política no trabalho docente


Atualmente é cobrado do professor o reconhecimento do aluno como um ser pensante para que de fato ocorra o processo de ensino e aprendizagem. Para tal reconhecimento, parece ser necessária uma identidade docente baseada primeiramente no reconhecimento do próprio professor sobre a sua importância política, ao formar cidadãos e trabalhadores que devem agir eticamente. Logo, são necessários indivíduos autônomos, dotados de senso crítico e que refletem sobre a realidade que os cerca. O segundo reconhecimento necessário seria a respeito da cultura que o aluno está exposto, sendo a cultura definidora da realidade a qual o pensamento do aluno se desloca e a que deve ser trabalhada pelo docente, com o intuito de transformar positivamente a realidade se possível. Tendo esses reconhecimentos em vista, é possível que o professor reconheça a importância da formação de uma identidade docente centrada no aluno, pois tal aluno é provido de cultura e participação política e qualquer transformação nesses contextos é influenciada pela educação que o aluno recebeu. Portanto, o trabalho do docente é de grande responsabilidade não só para com o aluno, mas para com toda a sociedade, pois o professor ao adotar uma identidade afeta a realidade social de acordo com sua atuação.

sábado, 6 de abril de 2019

Metodologia tradicional e metodologia ativa


As metodologias devem condizer com os objetivos que se pretende atingir. Nas aulas tradicionais o professor é o detentor do saber, portador da verdade, e o aluno deve de maneira passiva receber os conteúdos, por meio de uma explicação ligada a uma determinada pesquisa e com propósito teórico. Consequentemente, no modelo tradicional, o aluno não tem uma participação ativa no processo de aprendizagem, ele é desvalorizado e não recebe a responsabilidade e autonomia de atuar em sua própria educação. Nesse modelo, o ensinar do professor se torna mecânico e de pouca eficiência devido aos diferentes contextos de uma sala de aula que são ignorados. Tal modelo está a muito ultrapassado, mas insistimos em conservá-lo mesmo que ele centralize sob os professores a responsabilidade no processo de aprendizagem, gerando crianças, jovens e adultos insatisfeitos, professores estressados e doentes por estarem sendo inflexíveis em seus métodos. 

Na metodologia tradicional, as avaliações são utilizadas para classificar e excluir, principalmente no formato de prova final. O aluno estuda para fazer a avaliação (prova), pois ela é o fim que determina se o aluno “aprendeu”, ou não, determinado conteúdo, ignorando competências cognitivas, pessoais e sociais. Logo, a avaliação não faz parte do processo de aprendizagem do aluno, apenas o pontua. Consequentemente, o aluno que não recebe uma boa pontuação é excluído na maioria das vezes, isso reforça a desigualdade social quando se trata de alunos com dificuldade e de origem humilde que não se adequam a esse método e não têm condições de recorrer a outro sistema educacional que não seja a escola pública.
Se o objetivo de educar é formar alunos proativos, empreendedores e de personalidade capazes de se desenvolver em aspectos culturais, profissionais e pessoais, então é necessário um método que os envolvam em atividades que prestigiem a criatividade. As metodologias ativas partem do princípio que o aluno deve ser protagonista da construção do seu conhecimento. Tal conhecimento deve ser apropriado ao indivíduo em suas condições particulares, o reconhecendo como um ser pensante que tem que se relacionar com os outros e com o mundo. Logo, em uma metodologia ativa, o papel do professor é o de mediador que seleciona o conteúdo mais importante para aquele aluno, mas que não está muito preocupado em atender uma extensa demanda de conteúdos possíveis a serem administrados e em dar tudo pronto para o aluno. Dessa forma, as metodologias ativas obrigam o aluno a praticar durante a aula o que é ensinado na aula, isso somente ocorre porque o aluno é considerado como o principal protagonista no processo de aprendizagem.
A tecnologia facilita bastante a utilização de métodos ativos que exigem colaboração e criatividade para trabalhar os conteúdos. Contudo, mesmo que não aja recursos tecnológicos incrementados, é possível utilizar recursos modernos simples, como o uso do smartfone ou ambientes virtuais que o aluno tenha acesso. Tais recursos ampliam o ambiente da sala de aula, proporcionam uma extensão que vai além dos ambientes físicos da escola e do próprio tempo que se passa nela. Também se torna importante a utilização de recursos tecnológicos para ajudar a inserção do aluno no mundo moderno, onde é necessário o domínio prático da tecnologia.
Contrariamente à avaliação tradicional, adotar uma metodologia ativa exige que a avaliação seja contínua, informando como se deve ser o plano de aula, de acordo com a necessidade de aprendizagem do aluno, e orientando o proceder do docente em sala de aula, por ajudar na decisão das melhores estratégias para o processo de ensino-aprendizagem. Esse tipo de avaliação faz parte do processo de aprendizagem do aluno. Logo, o planejamento é flexível, pois, antes de tudo, considera o aluno como protagonista.    

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Do professor atento


Um professor pode dar uma aula tradicional, estilo palestra, sem interagir ou se preocupar com a linguagem e aspectos culturais dos seus ouvintes, mas essa aula não vai desenvolver competências, o aluno não será um pensador e suas habilidades, para resolver uma determinada situação, estarão restritas a maneira como foi transmitida pelo professor. Também, a avaliação de desempenho de alguma competência, deve-se levar em consideração a situação complexa a qual o aluno trabalhou, não exigindo um entendimento de uma situação que ele não aprendeu a mobilizar recursos para abordar e resolver. Ensinar é oportunizar a aprendizagem, que é construir significados, indo além da habilidade, pois o aluno é gestor de informações, e não um mero acumulador de informações. Contudo, mesmo que o professor leve em conta tudo isso, é necessário que exista uma administração emocional da parte do professor para com seu aluno. Uma boa relação favorece a aprendizagem quando a habilidade é trabalhada reflexivamente, devido a existência de diálogo para desenvolver a competência. Portanto, ser um profissional ético, na área de educação, é reconhecer o aluno como ser pensante, e não como mero objeto de trabalho – por exemplo, uma máquina.


segunda-feira, 15 de maio de 2017

NIETZSCHE – SOBRE FELICIDADE


TRECHOS DA OBRA DE NIETZSCHE – SOBRE FELICIDADE

Sofrimento

(...) o estreito caminho do nosso próprio céu passa sempre pela volúpia do nosso próprio inferno. (...) felicidade e desgraça são duas irmãs gêmeas que crescem ao mesmo tempo ou, como sucede convosco, que ao mesmo tempo ficam pequenas! (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.176)

371 — Nós, os incompreensíveis — Reclamamos, alguma vez, de sermos mal compreendidos, desconhecidos, confundidos, caluniados, mal ouvidos ou ignorados? Eis nosso destino — e por muito tempo ainda!, digamos, a nossa modéstia, até o ano de 1901 — é também o nosso título de honra; não nos daríamos um respeito considerável se desejássemos introduzir alguma modificação no caso. Confundem-nos com outros: é que crescemos, é que não paramos de mudar, de fazer estalar velhas cascas, de criar pele nova em todas as primaveras, de nos tornarmos incessantemente mais novos, mais futuros, mais altos e mais fortes, e de enterrar mais fortemente as nossas raízes nas profundezas — no mal — ao mesmo tempo em que abraçamos o céu de uma forma mais apaixo­nada, mais vasta, e aspiramos à sua luz — com todos os nossos ramos, com todas as nossas folhas — mais avidamente. Crescemos como a árvore cresce — algo difícil de compreender, como toda e qualquer vida! — não cresceremos apenas em um só lugar, mas por todos os lados, não em um sentido, mas em todos ao mesmo tempo, em cima, em baixo, dentro, fora, a nossa força cresce ao mesmo tempo no tronco, nos ramos e nas raízes, já não temos liberdade de fazer nada separadamente, de ser nada separadamente... Assim é o nosso destino, como já disse: crescemos até às alturas e, mesmo admitindo que talvez seja para nossa desgraça — pois nos aproxi­mamos sempre mais dos raios! — nem assim deixamos de tirar a glória disso; é apesar de tudo um destino que não partilhamos, que não queremos partilhar, é o destino das alturas, nossa fatalidade... (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.219)

Amor fati

(...) vou dizer qual é o pensamento que deve tornar-se a razão, a garantia e a doçura de toda a existência que ainda terei! Desejo aprender cada vez mais a ver o belo na necessidade das coisas: é assim que serei sempre daqueles que tornam as coisas belas. Amor fati (amor ao destino): seja assim, de agora em diante, o meu amor. Não pretendo fazer a guerra ao que é feio. Não pretendo acusar, nem mesmo os acusadores. Desviarei o meu olhar, será essa, de agora em diante, a minha única negação! E, em uma palavra, portanto: não quero, a partir de hoje, ser outra coisa senão uma pessoa que diz Sim! (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.142-143)

A vida de todos os dias, de todas as horas, parece apenas que procura nos provar sem cessar essa tese; seja como for, bom ou mau tempo, perda de amigos, doença, calúnia, carta que não chega, esfoladela, simples olhar que se lança a uma loja, argumento que outra pessoa vos opõe, livro que se abre, sonho, duplicidade... tudo, tudo se revela a breve prazo ou imediatamente como uma dessas coisas que "tinha de acontecer"... tudo está carregado de um sentido, profundo, de uma profunda utilidade; e isso precisamente para nós! (...) Não pensemos também muito bem da destreza da nossa sabedoria se nos acontece, por momentos, ser surpreendidos pela maravilhosa harmonia que nasce do toque do nosso instrumento, demasiado bela para que ousemos atribuir-nos o seu mérito. Alguém vem, com efeito, às vezes, tocar conosco...é o nosso querido acaso: guia-nos as mãos fortuitamente, e a mais sábia providência não poderia imaginar mais bela música do que esta que nasce então sob a nossa louca mão. (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.143-144)

Eterno retorno

341 — O peso mais pesado — E se um dia ou uma noite, um demônio se introduzisse na tua suprema solidão e te dissesse: "Esta exis­tência, tal como a levas e a levaste até aqui, vai-te ser necessário recomeçá-la sem cessar, sem nada de novo, ao contrário, a menor dor, o menor prazer, o menor pensamento, o menor suspiro, tudo o que pertence à vida voltará ainda a repetir-se, tudo o que nela há de indizivelmente grande ou pequeno, tudo voltará a acontecer, e voltará a verificar-se na mesma ordem, seguindo a mesma impiedosa sucessão, esta aranha também voltará a aparecer, este lugar entre as árvores, e este instante, e eu também! A eterna ampulheta da vida será invertida sem descanso, e tu com ela, ínfima poeira das poei­ras!"... Não te lançarias por terra, rangendo os dentes e amaldi­çoando esse demônio? Ou já vivestes um instante prodigioso, e então lhe responderias: "Tu és um deus; nunca ouvi palavras tão divinas!". Caso este pensamento te dominasse, talvez te transfor­masse e talvez te aniquilasse; perguntarias a propósito de tudo: "Queres isto outra vez e por repetidas vezes, até o infinito?". E pesaria sobre tuas ações com um peso decisivo e terrível! Ou então, como seria necessário que amasse a ti mesmo e que amasse a vida para nunca mais desejar nada além dessa suprema confirmação! (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.179)

Quem, semelhante a mim, com algum desejo enigmático, se esforçou longamente por pensar a fundo o pessimismo e salvá-lo da estreiteza e da simplicidade meio cristã (...); quem realmente olhou ao menos uma vez um olho asiático e mais que asiático para o interior e para o fundo desse modo de pensar que, dentre todos os modos de pensar possíveis, é o que mais nega o mundo – além do bem e do mal, e não mais, como Buda e Schopenhauer, sob o encanto e na ilusão da moral –, essa talvez tenha, precisamente com isso, sem que propriamente o quisesse, aberto os olhos para o ideal contrário: para o ideal do homem mais pleno de alegria, mais vivo mais afirmador do mundo, que não somente aprendeu a contentar-se e suportar aquilo que foi e que é, mas que o quer novamente tal como foi e é, por toda a eternidade, exclamando insaciavelmente da capo [do início], não apenas para si, mas para a peça e o espetáculo inteiros, e não somente para um espetáculo, mas no fundo para aquele que justamente precisa desse espetáculo – e faz com que ele seja preciso: pois ele sempre precisa de si outra vez – e faz com que seja preciso — O quê? E isto não seria – circulus vitiosus [círculo vicioso] deus? (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 81)

Felicidade

Algumas teses. — Ao indivíduo, enquanto busca sua felicidade, não se deve dar prescrições sobre o caminho para a felicidade: pois a felicidade individual brota de leis próprias, desconhecidas de todos, e preceitos externos podem apenas inibi-la, impedi-la. — Os preceitos chamados de "morais" são, na verdade, dirigidos contra os indivíduos, e não querem abso­lutamente a sua felicidade. Tampouco referem-se eles à "feli­cidade e bem-estar da humanidade" — palavras a que não é possível ligar conceitos rigorosos, e menos ainda usar como estrelas-guia no escuro oceano dos empenhos morais. — Não é verdade que a moralidade, como quer o preconceito, seja mais propícia ao desenvolvimento da razão que a imoralidade. — Não é verdade que o objetivo inconsciente, no desenvolvimento de todo ser consciente (bicho, homem, humanidade, etc.), seja sua "felicidade suprema": trata-se antes de alcançar, em todos os estágios do desenvolvimento, uma felicidade particular e in­comparável, nem superior nem inferior, mas simplesmente pe­culiar. Desenvolvimento não busca felicidade, mas desenvolvi­mento e nada mais. — Apenas se a humanidade tivesse um objetivo geralmente reconhecido poderia alguém propor: "De tal e tal modo deve-se agir"; atualmente não há esse objetivo. Logo, não se deve relacionar as exigências da moral à humanidade, o que é insensatez e diversão. — Recomendar à humanidade um objetivo é algo bem diferente: então ele é concebido como algo que está ao nosso bel-prazer; supondo que agradasse à humanida­de a proposta, ela poderia então dar-se uma lei moral, igualmen­te a partir de seu bel-prazer. Mas até agora a lei moral devia estar acima do bel-prazer: não queríamos propriamente dar-nos essa lei, e sim toma-la de alguma parte, ou achá-la em algum lugar, ou deixá-la impor-se de alguma parte. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.73)

Louvor e censura. — Se uma guerra tem desenlace infeliz, pergunta-se pelo "culpado" da guerra; se termina com vitória, elogia-se quem a instigou. Sempre é buscada a culpa quando há um fracasso, pois este traz consigo um mau humor a que se aplica automaticamente um único remédio: uma nova excitação do sentimento de poder — e esta se acha na condenação do "culpado". Esse culpado não é um bode expiatório da culpa de outros: é a vítima dos fracos, humilhados, abatidos, que de algum modo querem provar a si mesmos que ainda têm força. Também condenar a si próprio pode ser um meio de readquirir o sentimento de força após a derrota. — Já a glorificação do instigador é, com frequência, o resultado igualmente cego de outro impulso que procura sua vítima — e desta vez o sacrifício é doce e convidativo até para a vítima —: quando o sentimento de poder de um povo, uma sociedade, está saturado em virtude de um grande, fascinante êxito, e sobrevêm um cansaço do triun­fo, uma parte do orgulho é abandonada; avulta o sentimento da devoção, que busca seu objeto. — Ao sermos louvados ou censu­rados, nisto somos geralmente oportunidades, e com frequência oportunidades agarradas arbitrariamente, para nossos próximos descarregarem o impulso de louvor ou censura neles acumu­lado: nos dois casos lhes prestamos um benefício, no qual não temos mérito e pelo qual não têm gratidão. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.101-102)

NIETZSCHE – SOBRE A MORAL





TRECHOS DAS OBRAS DE NIETZSCHE – SOBRE A MORAL

Não há quaisquer fenômenos morais, mas apenas uma interpretação moral de fenômenos..... (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 97)

“(..) a história da luta da moral contra os instintos fundamentais da vida é a maior imoralidade que até hoje existiu sobre a terra...” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.274)

Chamo um animal, uma espécie, um indivíduo de corrompidos quando eles perdem os seus instintos, quan­do escolhem, quando preferem o que lhes é prejudicial. Uma história dos "sentimentos superiores", dos "ideais da humanidade" – e é possível que eu tenha de narrá-la – também seria quase a explicação de por que o homem está tão corrompido.

Considero a própria vida como instinto de cresci­mento, de duração, de acumulação de forças, como ins­tinto para o poder, onde falta a vontade de poder, ocorre declínio. Minha tese é a de que todos os valores supremos da humanidade carecem dessa vontade – que sob os no­mes mais sagrados há valores de declínio, valores niilistas no comando. (NIETZSCHE, O Anticristo, 2016, p.18)

Os animais e a moral — As práticas que são requeridas na sociedade refinada: evitar cuidadosamente o ridículo, o chamativo, o pretensioso, relegar tanto suas virtudes como suas veementes cobiças, mostrar-se como igual, inserir-se, dimi­nuir-se — tudo isso que é a moral social encontra-se, grosso modo, em toda parte, até na profundeza do mundo animal, — e apenas nessa profundeza enxergamos a intenção por trás dessas gentis precauções: quer-se escapar aos perseguidores e ser favo­recido na busca da presa. Por isso os animais aprendem a se dominar e a dissimular de tal modo que alguns, por exemplo, adéquam suas cores à cor do ambiente (mediante a chamada "função cromática"), fazem-se de mortos ou assumem as formas e cores de outro animal ou de areia, folhas, liquens, fungos (aquilo que os pesquisadores ingleses designam por mimicry [mimetismo]). Dessa maneira o indivíduo se esconde na genera­lidade do conceito "homem" ou na sociedade, ou se adéqua a governantes, classes, partidos, opiniões da época ou do ambiente: e para todas as sutis maneiras de nos pormos felizes, gra­tos, fortes, enamorados, encontra-se facilmente o símile animal. Também o sentido para a verdade, que é, no fundo, o sentido para a segurança, o homem tem em comum com os animais: não queremos nos deixar enganar, não queremos induzir a nós próprios em erro, ouvimos desconfiados a conversa de nossas próprias paixões, contemo-nos e ficamos à espreita de nós mesmos; tudo isso o animal entende como o homem, também nele o autodomínio nasce do sentido para o real (da pru­dência). E igualmente observa os efeitos que produz na noção que têm os outros animais, aprende a olhar de volta para si a partir dela, a apreender-se "objetivamente", tem seu grau de autoconhecimento. O animal julga os movimentos de seus rivais e amigos, memoriza as peculiaridades deles, orienta-se por elas: no tocante a indivíduos de determinada espécie renuncia definitivamente à luta, e também percebe, na aproximação de algumas variedades de animais, a intenção de paz e de acordo. Os primórdios da justiça, assim como da prudência, da modera­ção, da valentia — em suma, tudo aquilo que designamos pelo nome de virtudes socráticas é animal: uma consequência dos im­pulsos que ensinam a procurar alimento e escapar aos inimigos. Se considerarmos que também o homem superior apenas se elevou e refinou no tipo da alimentação e na ideia do que lhe é hostil, será lícito caracterizar todo o fenômeno da moral como animal. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.28-29)

Durante a mais longa época da história humana – a chamada época pré-histórica –, o valor ou o desvalor de uma ação era derivado de suas consequências (...) Chamamos esse período de período pré-moral da humanidade: o imperativo ‘conhece-te a ti mesmo!’ ainda era desconhecido naquele tempo. Nos dez últimos milênios, entretanto, em algumas grandes regiões da Terra se chegou passo a passo ao pon­to de deixar a origem da ação, e não mais as consequên­cias, decidir acerca de seu valor (...) a origem de uma ação foi interpretada no mais preciso sentido de origem a partir de uma intenção; chegou-se à crença unânime de que o va­lor de uma ação reside no valor de sua intenção. A intenção como a inteira origem e pré-história de uma ação: sob este preconceito se louvou, repreendeu, condenou e também se filosofou moralmente sobre a Terra quase até a época mo­derna. – Não teríamos hoje, porém, chegado à necessidade de mais uma vez nos decidirmos acerca de uma inversão e de um deslocamento radical dos valores, graças a uma repetida autorreflexão e aprofundamento do homem – não es­taríamos no limiar de um período que, negativamente, po­deria ser designado em primeiro lugar de extramoral: hoje, quando pelo menos entre nós, imoralistas, se faz sentir a suspeita de que precisamente naquilo que não é intencional numa ação reside o seu valor decisivo, e de que toda a sua intencionalidade, tudo que dela pode ser visto, sabido, ‘co­nhecido’, ainda pertence à sua superfície e epiderme – a qual, como toda epiderme, revela algo, mas oculta muito mais? Em suma, acreditamos que a intenção é apenas um sinal e um sintoma que primeiro precisa de interpretação, um sinal, além disso, que significa coisas demais e, por conseguinte, não significa quase nada por si mesmo – que a moral, no sentido em que ela foi entendida até agora, portanto, como moral de intenções, foi um preconceito, uma precipitação, uma provisoriedade talvez, uma coisa mais ou menos da categoria e da alquimia, mas em todo caso algo que precisa ser superado. (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 57-58-59)

A refinada crueldade como virtude. — Eis uma moralidade que se baseia inteiramente no impulso para a distinção — não pensem muito bem dela! Pois que impulso é esse e qual o pensamento por trás dele? Queremos que a nossa simples vista cause dor ao outro e desperte sua inveja, o sentimento de impo­tência e de declínio; queremos fazê-lo saborear a amargura de seu fado, ao deixar-lhe na língua uma gota de nosso mel e fixá-lo nos olhos agudamente e com maldosa alegria, ante o suposto benefício. Esse tornou-se humilde e perfeito em sua humilda­de — procurem aqueles que há muito ele quer assim torturar! já os encontrarão! Aquele mostra-se piedoso com os animais e é admirado por isso — mas há certas pessoas nas quais, justa­mente com isso, ele quis dar livre curso à sua crueldade. Ali está um grande artista: a volúpia que antecipadamente sentiu com a inveja dos rivais derrotados não deixou sua energia esmorecer, até ele tornar-se grande — quantos instantes amargos a sua grandeza não custou a outras almas! A castidade da freira: que olhares castigadores ela não lança ao rosto das mulheres que vivem de outra forma! quanto prazer da vingança há nesses olhos! — O tema é breve, as variações em torno dele podem ser inúmeras, mas dificilmente tediosas — pois é ainda uma novi­dade paradoxal e quase dolorosa que a moralidade da distinção seja, em última instância, o prazer na crueldade refinada. Em última instância — isto significa aqui: sempre na primeira gera­ção. Pois quando o hábito de uma ação que distingue é herdado, o pensamento por trás dela não é herdado (apenas sentimentos são hereditários, não pensamentos): e, desde que a educação não o introduza novamente, na segunda geração não há mais prazer na crueldade; e sim apenas prazer no hábito como tal. Esse prazer, porém, é o primeiro estágio do "bem". (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.30-31)

Simulação como dever. — Na maioria das vezes, a bonda­de foi desenvolvida pela demorada simulação que buscava parecer bondade: em todo lugar onde existiu grande poder, viu-se a ne­cessidade de justamente esse tipo de simulação — ela infunde certeza e confiança, e centuplica a verdadeira soma de poder físi­co. A mentira é, se não a mãe, certamente a ama de leite da bondade. Também a honradez foi cultivada sobretudo pela demanda de uma aparência de honradez e probidade: nas aristocracias he­reditárias. O que é simulado por longo tempo torna-se enfim natureza: a simulação acaba por suprimir a si mesma, e órgãos e instintos são os inesperados frutos do jardim da hipocrisia. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.158)

(...) a história dos sentimentos morais é muito diferente da história dos conceitos morais. Aqueles são poderosos antes da ação, estes depois da ação, em vista da neces­sidade de pronunciar-se sobre ela. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.33)

Com seus princípios, quer-se tiranizar ou justificar ou honrar ou insultar ou ocultar seus hábitos: – é provável que dois homens com princípios idênticos queiram com eles algo fundamentalmente diferente. (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 93)

Há uma desmedida alegria da bondade que se parece com maldade. (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 107)

Contra os caluniadores da natureza — Que seres desagradáveis estas pessoas em que toda tendência natural se torna rapidamente doença, algo deformante ou mesmo ignomínia! São elas que nos fazem acreditar que as inclinações naturais, os instintos do homem são maus; são elas a causa da nossa injustiça para com a nossa natureza, para com toda a natureza! Não faltam pessoas que teriam o direito de se abandonar às suas inclinações com graça, com despreocupação: mas não o fazem, com receio desta "má essência" imaginária da natureza! (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.152)

“Crítica da moral da décadence. – Uma moral "altruísta", uma moral em que o egoísmo definha, é, de qualquer maneira, um mau sinal. Isso vale para o indivíduo, isso vale sobretudo para povos. Falta o melhor quando começa a faltar egoísmo. Escolher instintivamente o que é danoso para si, ser atraído por motivos "desinteressados", é quase a fórmula da décadence. "Não buscar o seu benefício" — isso é apenas a folha de parreira moral que encobre um fato muito diferente, a saber, um fato fisiológico: "Não sei mais encontrar o meu benefício"... Desagregação dos instintos! — Quando o homem se torna altruísta, é o seu fim. — Em vez de dizer, ingenuamente, "Eu não valho mais nada", a mentira moral na boca do décadent diz: "Nada tem valor — a vida não vale nada"...” (NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos, 2010, p.103)

A vingança sobre o espirito e outros subentendidos da moral — A moral — onde acreditais que possa ter os seus mais perigosos e pérfidos advogados?... Eis aqui um homem que não teve bom êxito, que não tem espírito o bastante para dele se alegrar e que recebeu a cultura exata apenas para dar-se conta disso; aborrece-se, enjoa-se, despreza-se; privado, por uma pequena herança que recebeu, da última consolação, a "bênção do trabalho", do esquecimento de si na "tarefa cotidiana"; é um ser que, no fundo, tem vergonha da sua existência — talvez, ainda por cima, mantenha alguns pequenos vícios no fundo da alma; por outro lado, não pode impedir-se de se corromper cada vez mais, de se tornar cada vez mais irritável e vaidoso em virtude de leituras a que não tem direito, ou a frequências demasiado intelectuais para as suas capacidades digestivas: envenenado até à medula — pois para um malogrado desta natureza o espírito torna-se veneno, e veneno a cultura, a solidão e a higiene — prostra-se finalmente em um estado de rancor, em uma vontade crônica de se vingar... O que pensais que tenha necessidade, que tenha absolutamente necessidade para conservar diante dele mesmo uma aparência de superioridade sobre espíritos mais fortes do que o seu, para se dar, pelo menos em imaginação, a volúpia da vingança satisfeita? A moralidade, sempre ela; pode pôr-se a mão no fogo, precisa das grandes frases da moral, do grande tambor da justiça, da sabedoria, da santidade, da virtude; tem necessidade do estoicismo, da atitude (oh, estoicismo, como escondes bem o que não tem!...), precisa da capa do silêncio superior, da afabilidade, da suavidade, e outros envoltórios idealistas sob os quais vemos caminhar os contempladores incuráveis deles próprios, que são também os incuráveis vaidosos. Não me entendam mal: acontece, às vezes, que estes inimigos natos do espírito dão nascença às extraordinárias amostras humanas que o povo honra com o nome de santos e de sábios; são eles que produzem os monstros da moral que fazem barulho, que fazem história: um Santo Agostinho, por exemplo. (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.206)

(...) moralidade não é outra coisa (e, portanto, não mais!) do que obediência a costumes, não importa quais sejam; mas cos­tumes são a maneira tradicional de agir e avaliar. Em coisas nas quais nenhuma tradição manda não existe moralidade; e quanto menos a vida é determinada pela tradição, tanto menor é o cír­culo da moralidade. O homem livre é não moral, porque em tudo quer depender de si, não de uma tradição: em todos os estados originais da humanidade, "mau" significa o mesmo que "individual", "livre", "arbitrário", "inusitado", "inaudito", "im­previsível". Sempre conforme o padrão desses estados originais: se uma ação é realizada não porque a tradição ordena, mas por outros motivos (a utilidade individual, por exemplo), mesmo por aqueles que então fundaram a tradição, ela é considerada imoral e assim tida mesmo por seu ator: pois não foi realizada em obe­diência à tradição. O que é a tradição? Uma autoridade superior, a que se obedece não porque ordena o que nos é útil, mas por­que ordena. — O que distingue esse sentimento ante a tradição do sentimento do medo? Ele é o medo ante um intelecto supe­rior que manda, ante um incompreensível poder indeterminado, ante algo mais do que pessoal — há superstição nesse medo. — Originalmente fazia parte do domínio da moralidade toda a educação e os cuidados da saúde, o casamento, as artes da cura, a guerra, a agricultura, a fala e o silêncio, o relacionamento de uns com os outros e com os deuses: ela exigia que alguém ob­servasse os preceitos sem pensar em si como indivíduo. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.17)

“Em todas as épocas se quis "melhorar" os homens: isso, sobretudo, foi chamado de moral. (...) Chamar a domesticação de um animal de "melhoramento" soa aos nossos ouvidos quase como uma piada. Quem sabe o que acontece nas exposições de feras duvida que nelas a besta seja "melhorada". Ela é enfraquecida, tornada menos daninha, transformada numa besta doentia através do afeto depressivo do medo, através da dor, dos ferimentos, da fome. — Não é diferente com o homem domesticado que o sacerdote "melhorou"”. (NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos, 2010, p.60-61)

A moral ensina ao homem a ser função do rebanho, e a se atribuir valor somente como função. Uma vez que as condições de conserva­ção eram muito diferentes de uma comunidade para outra, resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transformações essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades são ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haverá ainda morais muito divergentes. Moralidade é o instinto gregário no indivíduo. (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.111)

“... Não podemos hoje imaginar a degenerescência moral separada da degenerescência fisiológica: a primeira nada mais é que o conjunto de sintomas da segunda: somos necessariamente maus, como somos necessariamente doentes... Mau: a palavra exprime aqui certas incapacidades que são fisiologicamente ligadas ao tipo da degenerescência: por exemplo, a fraqueza da vontade, a incerteza e até a multiplicidade da "pessoa", a impotência para suprimir a reação a uma excitação qualquer e de "dominar-se", o constrangimento diante de toda espécie de sugestão de uma vontade estranha. O vício não é a causa; o vício é a consequência.”(NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.269) 

“A moral religiosa — A emoção, o grande desejo, as paixões do poder, do amor, da vingança, da posse: os moralistas querem extingui-los, arrancá-los, para ‘purificar’ a alma.

É a mesma lógica que diz: ‘Se teu membro te escandaliza, arranca-o’.

Sua conclusão é sempre: somente o homem castrado pode tornar-se um homem bom.” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.306-307)

“A partir de todas as idiossincrasias [características peculiares] morais, vejo uma avaliação fundamentalmente diferente: não conheço essas separações absurdas entre o gênio e o mundo da vontade moral e imoral. O homem moral é de uma espécie inferior ao homem imoral, de uma espécie mais fraca; é um tipo segundo a moral, não é porém seu próprio tipo; é uma cópia, uma boa cópia ao rigor — a medida de seu valor reside fora dele. Estimo o homem pela quantidade de potência e pela plenitude de sua vontade; e não conforme o enfraquecimento e a purificação da vontade; considero uma filosofia que ensina a negação da vontade como uma doutrina de aviltamento e de calúnia... Julgo a potência de uma vontade segundo o grau de resistência, de dor, de tortura que ela suporta para convertê-las em seu favor; não censuro à existência seu caráter mau e doloroso, mas espero que esse caráter se tornará um dia mais mau e mais doloroso ainda...” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.475)






“O constrangimento da vontade era tido como o que dava ao ato valor superior: Deus era considerado então o autor...

Vem o contramovimento: o dos moralistas, sempre com o mesmo preconceito, o de crer que somos responsáveis pelos menores acontecimentos, se os quisermos. O valor do homem está fixado como valor moral: portanto, seu valor deve ser causa prima; logo, deve haver aí um princípio no homem, o "livre-arbítrio", que seria a causa prima. Há sempre a segunda intenção: se o homem não é a causa prima enquanto vontade, é irresponsável, consequentemente, não é da competência da moral. A virtude e o vício serão então automáticos e inconscientes.” (NIETZSCHE, Vontade potência, 2011, p.266)

“O erro do livre-arbítrio. — (...) Em todo lugar onde se procura responsabilidades, costuma ser o instinto de querer punir e julgar que está a procura delas. O devir foi despido de sua inocência quando se busca explicar pela vontade, pelas intenções ou por atos de responsabilidade alguma maneira de ser: a doutrina da vontade foi inventada essencialmente com a finalidade de punir, ou seja, de querer encontrar culpados. (...) O cristianismo é uma metafísica de carrasco...

(...) Fomos nós que inventamos a noção de "finalidade": a finalidade está ausente da realidade... Somos necessários, somos um fragmento de destino, pertencemos ao todo, estamos no todo — não há nada que possa julgar, medir, comparar e condenar o nosso ser, pois isso significaria julgar, medir, comparar e condenar o todo... Mas não há nada fora do todo!” (NIETZSCHE, Crepúsculo dos ídolos, 2010, p.57-59)

Há dois tipos de negadores da moralidade. — "Negar a moralidade" — isso pode significar, primeiro: negar que os motivos morais que as pessoas alegam tenham-nas realmente impelido a seus atos — ou seja, a afirmação de que a moralidade consiste em palavras e é parte dos embustes grosseiros ou sutis (embustes de si mesmo, em especial) dos seres humanos, e talvez principalmente dos mais famosos pela virtude. Depois pode significar: negar que os juízos morais repousem sobre verdades. Nesse caso se admite que são realmente motivos da ação, mas que, dessa forma, são os erros, fundamento de todo juízo moral, que impelem os indivíduos a suas ações morais. Este é o meu ponto de vista; mas seria o último a ignorar que em muitíssimos casos a sutil desconfiança do primeiro ponto de vista, ou seja, no espírito de La Rochefoucauld, é também justificada e, certamente, de grande utilidade geral. — Assim, nego a moralidade como nego a alquimia, ou seja, nego os seus pressupostos; mas não que tenha havido alquimistas que acreditaram nesses pres­supostos e agiram de acordo com eles. — Também nego a imo­ralidade: não que inúmeras pessoas sintam-se imorais, mas que haja razão verdadeira para assim sentir-se. Não nego, como é evidente — a menos que eu seja um tolo —, que muitas ações consideradas imorais devem ser evitadas e combatidas; do mes­mo modo, que muitas consideradas morais devem ser praticadas e promovidas — mas acho que, num caso e no outro, por razões outras que as de até agora. Temos que aprender a pensar de outra forma — para enfim, talvez bem mais tarde, alcançar ainda mais: sentir de outra forma. (NIETZSCHE, Aurora, 2016, p.69-70)

O problema que com isso coloco não se refere ao que deve substituir a humanidade na sucessão dos seres (o homem é um final), mas ao tipo de homem que se deve cultivar, se deve querer como sendo o de mais alto valor, mais digno de vida, mais seguro de futuro.

Esse tipo de alto valor já existiu com bastante frequência: mas como um acaso feliz, uma exceção, jamais como algo desejado. Pelo contrário, precisamente ele foi o mais temido, foi até agora quase o temível; – e foi por temor que se quis, se cultivou, se alcançou o tipo contrário: o animal doméstico, o animal de rebanho, o animal doente homem – o cristão... (NIETZSCHE, O Anticristo, 2016, p.15)

domingo, 9 de abril de 2017

NIETZSCHE - VONTADE DE PODER


Trechos das obras sobre vontade de poder

“O prazer e o desprazer são simples consequências, simples fenômenos secundários. O que o homem quer, o que a menor parcela de organismo vivo quer, é um plus de potência. Na aspiração para um fim, há tanto prazer quanto desprazer; daquela vontade o homem busca a resistência, tem necessidade de algo que se lhe oponha... O desprazer, obstáculo da vontade de potência, é, portanto, um fato normal, o ingrediente normal de todo fenômeno orgânico; o homem não o evita, ao contrário, tem contínua necessidade dele: qualquer vitória, qualquer sentimento de prazer, qualquer acontecimento pressupõe uma resistência vencida. (...) O que chamamos nutrição é simplesmente a consequência, a aplicação dessa vontade primitiva de tornar-se mais forte.
Logo, o desprazer não é acompanhado de uma diminuição de nosso sentimento de potência; tão de somenos é esse o caso que, geralmente, trata-se de uma excitação dessa vontade de potência – o obstáculo é o stimulus da vontade de potência.”  (NIETZSCHE, Vontade de potência, 2011, p.388)

“Os fisiólogos deveriam refletir ao estabelecer o impulso de autoconservação com o impulso cardinal de um ser orgânico. Algo que é vivo quer sobretudo dar vazão à sua força – a vida mesma é vontade de poder –: a autoconservação é apenas uma das consequências indiretas e mais frequentes disso. (...)” (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 35)

“Todo sentimento que leva a superação é ‘saudável’ e todo sentimento que retrai e faz querer destruir algo é ‘doentio’.
(...) O prazer é um sentimento da potência: quando se excluem as paixões, excluem-se as condições que provocam o sentimento de potência ao mais alto grau, e consequentemente o prazer. A mais alta "razoabilidade" é um estado frio e claro que está longe de provocar aquele sentimento de felicidade que traz consigo toda espécie de embriaguez...” (NIETZSCHE, Vontade de potência, 2011, p.322)

“(...) o prazer é apenas um sintoma do sentimento de que a potência foi atingida, é a percepção de uma diferença (não se aspira ao prazer: este produz-se desde que se atinge ao que se aspirava: o prazer acompanha, ele não põe em movimento); que toda a força é vontade de potência, que não há outra força física, dinâmica ou psíquica...”(NIETZSCHE, Vontade de potência, 2011, p.386)

“Sobre a doutrina do sentimento de poder — Ao fazer o bem e mal aos outros exercitamos o nosso poder sobre eles — é, nesse caso, o que queremos! Fazemos mal a quem devemos fazer sentir nosso poder, pois o sofrimento é um meio muito mais sensível, para esse fim, do que o prazer: o sofrimento procura sempre a sua causa enquanto o prazer mostra inclinação para se bastar a si próprio e a não olhar para trás. Ao fazer bem ou ao desejarmos o bem exercemos o nosso poder sobre aqueles que, de alguma forma, já estão na nossa dependência (quer dizer que se habituaram a pensar em nós como suas causas); queremos aumentar o seu poder porque assim aumentamos o nosso, ou queremos mostrar-lhes a vantagem que há em estar em nosso poder; (...) mesmo se arriscarmos a nossa vida, como o mártir [pessoa que sofreu torturas, ou mesmo morte, por não renunciar a qualquer outra crença] pela sua igreja, é um sacrifício que fazemos à nossa necessidade de poder, ou com a finalidade de conservar o nosso sentimento de poder. Quando se sente profundamente que se "possui o verdadeiro", quantas outras posses não se abandonariam para conservar este sentimento! O que não se lança pela borda afora para continuar à superfície, ou seja, continuar "por cima" daqueles que carecem da verdade! Indubita­velmente, é raro que o estado que acompanha o gesto de fazer mal seja tão agradável, tão puramente agradável, como aquele que acompanha o gesto de fazer bem; trata-se de um sinal que revela que ainda nos falta poder ou que trai o nosso desgosto diante desta pobreza, anunciando novos perigos e novas incertezas para o nosso capital de poder, mantendo o nosso horizonte velado por perspecti­vas de vingança, escárnio, punição, malogro. Somente para os ho­mens mais irritáveis, para pessoas mais ávidas do sentimento de poder, pode haver algum prazer em imprimir ao recalcitrante [aquele que demonstra resistência em obedecer] o selo do seu domínio; para aqueles que só veem nisso aborrecimento, é um desprazer o espetáculo de um ser já submetido (tornado objeto de benevolência). Trata-se de saber como o homem acostumou-se a temperar sua vida; é sempre uma questão de gosto: quer que o crescimento de poder seja lento ou brusco, seguro ou perigoso e temerário? Procura-se esta ou aquela especiaria conforme a inclinação do nosso temperamento. Uma presa fácil, para as naturezas orgulhosas, é algo de desprezível; só experimentam um sentimento de bem-estar diante de homens íntegros que poderiam tornar-se seus inimigos, e diante de todas as posses dificilmente acessíveis; muitas vezes duras, para aquele que sofre, porque não o julgam digno do seu esforço e da sua altivez, mas mostram-se tanto mais corteses para com os seus semelhantes com os quais a luta seria certamente honrosa, se aparecesse ocasião para isso. Foi sob o efeito do sentimento de bem-estar que lhe dava esta perspectiva que os homens da casta cavalheiresca se acostumaram a usar uns para com os outros de uma delicadeza requintada. A piedade é o sentimento mais agradável para aqueles que são pouco orgulhosos e que não têm possibilidades de fazer grandes conquistas: a presa fácil — qualquer ser sofredor é presa fácil — é coisa que os encanta. Louva-se a piedade como sendo a virtude das mulheres de vida alegre. (NIETZSCHE, A Gaia Ciência, 2012, p.45-46)

“As funções animais são mil vezes mais importantes que os belos estados de alma e os ápices da consciência: estes últimos são um excedente enquanto não devem ser instrumentos para essas funções animais. Toda a vida consciente, o espírito assim como a alma e o coração, a bondade assim como a virtude, a serviço de quem elas trabalham? A serviço de um aperfeiçoamento, tão grande quanto possível, das funções animais essenciais (os meios de nutrição, de aumento de energia): antes de tudo, a serviço do aumento da vida.
O que chamamos "corpo" e "carne" tem muito mais importância: o resto é um pequeno acessório. Continuar a tecer a tela da vida, de maneira que o fio se torne cada vez mais potente, eis a tarefa.
(...)
A consciência é simplesmente um meio; os sentimentos agradáveis ou desagradáveis também não são mais que meios! De acordo com que avaliamos objetivamente o valor? Somente de acordo com a quantidade de potência aumentada e organizada.” (NIETZSCHE, Vontade de potência, 2011, p.396)

“(...) a vontade não é apenas um complexo de sentir e pensar, mas antes de tudo, ainda um afeto (...). Um homem que quer – ordena a um algo em si que obedece ou que ele acredita que obedece. (...) na medida em que no caso dado somos ao mesmo tempo os mandantes e os obedecentes, e, como obedecentes, conhecemos as sensações de coação, insistência, pressão, resistência, movimento, que costumam iniciar imediatamente após  o ato de vontade; na medida em que por outro lado, temos o hábito de não fazer caso, de nos enganar acerca dessa dualidade graças ao conceito sintético ‘eu’, prendeu-se ao querer ainda toda uma cadeia de conclusões errôneas e, por conseguinte, de falsas valorações da própria vontade — de tal modo que o querente [que quer] acredita de boa-fé que o querer basta para a ação. (...) a aparência se traduziu na sensação de que aí haveria uma necessidade do efeito; em suma, o querente acredita, com um razoável grau de certeza, que vontade e ação, de algum modo, são uma só coisa – ele atribui o êxito, a execução do querer, à própria vontade, gozando com isso de um aumento daquela sensação de poder que todo êxito traz consigo. ‘Livre-arbítrio’ – essa é a expressão para aquele multiforme estado de prazer do querente que ordena e ao mesmo tempo se funde num só com o executante – que, como tal, goza conjuntamente o triunfo sobre as resistências, mas julga consigo mesmo que foi sua própria vontade que verdadeiramente superou as resistências.” (NIETZSCHE, Além do bem e do mal, 2010, p. 40-41)

“O que é bom? –  Tudo o que eleva a sensação de poder, a vontade de poder, o próprio poder no homem.
O que é ruim? – Tudo o que provém da fraqueza.
O que é a felicidade? – A sensação de que o poder cresce, de que uma resistência é superada.
Não o contentamento, porém mais poder; acima de tudo não a paz, mas a guerra; não a virtude, mas a exce­lência (virtude no estilo da Renascença, virtù, virtude sem moralina).
Os fracos e os malogrados [frustrado] devem sucumbir: pri­meira tese de nosso amor à humanidade. E ainda devem ser ajudados nisso.
O que é mais danoso do que qualquer vício? - A compaixão ativa por todos os malogrados e fracos – o cristia­nismo...” (NIETZSCHE, O Anticristo, 2016, p.14)